“Não estamos interessados em que os preços do petróleo sejam altos”

 Andrêi Kuziáev, presidente da Lukoil Overseas Foto: TASS

Andrêi Kuziáev, presidente da Lukoil Overseas Foto: TASS

O presidente da Lukoil Overseas comenta as atividades de sua empresa em mercados internacionais e riscos políticos existentes

A Lukoil Overseas é das poucas empresas russas que fazem grandes negócios no exterior. No mês passado, a empresa fechou a aquisição de um ativo em Serra Leoa. Em breve, o governo romeno deverá proceder à aprovação dos contratos com a Lukoil para a prospeção geológica e exploração de dois blocos no Mar Negro. Ainda este mês, a Lukoil Overseas planeja começar os trabalhos de perfuração no Vietnã. O presidente da empresa, Andrêi Kuziáev, comentou, em entrevista ao “Kommersant”, como a Lukoil busca novos projetos, qual preço do petróleo seria justo e quem ajuda a empresa a adquirir novos ativos.

Andrêi Kuziáev

Nasceu em 06 de outubro de 1965 na cidade de Perm, nos Urais. Em 1987, concluiu o curso superior de economia na Universidade Estatal de Perm, onde também lecionou. É gerente da Bolsa de Mercadorias de Perm desde 1991 e presidente do Grupo Financeiro e Industrial de Perm desde 1993. Entre 1995 e 2003, foi diretor geral da Sociedade Anônima Fechada Lukoil-Perm e é presidente da Lukoil Overseas desde 2000. Desde 2005, desempenha também as funções de vice-presidente da Sociedade Anônima Aberta Lukoil. É presidente do Conselho Empresarial Rússia-Venezuela. Hobbies: ciclismo, caça e coleções. É casado e pai de três filhos.



- Depois que a Lukoil Overseas perdeu seu parceiro estratégico, a norte-americana ConocoPhillips, ela tem de resolver sozinha o problema do desenvolvimento via aplicação de inovações. Sua empresa opera em todo o mundo. Como ela está resolvendo esse problema?

- Nossa divisão da empresa responsável por projetos internacionais tem a missão de garantir o crescimento global em províncias de gás completamente novas. Avançando rumo a essa meta, enfrentamos problemas que nunca tivemos dentro de nossa empresa nem em nosso setor, em geral. Já existem exemplos  suficientes de coisas que fizemos pela primeira vez não só na Lukoil como também pela primeira vez no mundo. Por exemplo, na Arábia Saudita, usamos o método de fratura hidráulica a uma profundidade de 6,5 quilômetros e a uma temperatura anormalmente alta,  150° C positivos,  e pressão de 700 atmosferas.

Lukoil Overseas, perfil da companhia

A Lukoil Overseas Holding LTD foi criada em dezembro de 1997 como subsidiária da S/A Lukoil e se especializou em projetos internacionais de prospeção geológica e extração de hidrocarbonetos. É responsável por 25 projetos em 13 países, emprega mais de 1,5 mil pessoas, dispõe de reservas equivalentes a 2,1 bilhões de barris de óleo equivalente. Produziu, em 2010, cerca de 5 milhões de toneladas de óleo e de gás condensado e 5,4 bilhões de metros cúbicos de gás natural e associado. Seu desempenho financeiro em 2010 foi de 1,7 bilhões de dólares e o lucro líquido1,1 bilhões de dólares.

Merecem especial referência nossos projetos em campos marítimos. Por exemplo, estamos realizando trabalhos de prospeção geológica na margem continental de Gana e Costa do Marfim a uma profundidade igual ou  superior a dois mil metros. Para isso, fretamos navios de perfuração de sexta geração e organizamos a coordenação dos trabalhos de 40 empresas empreiteiras.

Na Colômbia, a Lukoil prospectou jazidas a uma altura de cerca de 1,5 mil metros acima do nível do mar e usou, pela primeira vez no mundo, a técnica de perfuração DTH (Down The Hole) em uma coluna de grande diâmetro para evitar a absorção do líquido de perfuração.

- A gestão da empresa diz que pretende compensar a queda na produção de petróleo na Rússia com projetos internacionais e quadruplicar a produção de petróleo e de gás no exterior nos próximos seis anos. Que projetos serão usados para o efeito?


- O principal problema é a falta de novos recursos significativos no território da Rússia. No Uzbequistão, Iraque, Venezuela, Azerbaijão e Cazaquistão, nós temos a possibilidade de adquirir novas reservas e explorá-las, enquanto na Rússia não. Como já disse,  estamos  realizando intensos trabalhos de prospeção geológica na margem continental da África Ocidental, além disso, descobrimos, bem recentemente, duas novas regiões: a bacia do Mar Negro (Romênia) e o Sudeste Asiático (Vietnã).

Nos próximos cinco anos, pretendemos investir entre 4 e 5 bilhões de dólares por ano em nossa produção. Nossas unidades de produção, que estão sendo construídas em todo o mundo, vão empregar até 40 mil funcionários de empresas operadoras e empreiteiras.

- Qual é a estratégia de desenvolvimento de negócios internacionais da Lukoil?

Venezuela

As atividades da Lukoil Overseas foram elogiadas reiteradas vezes pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, e pela gerência da empresa estatal de petróleo PDVSA.

Junin-3 Em outubro de 2005, a Lukoil Overseas e a PDVSA firmaram um acordo para a realização da prospeção geológica no bloco Junin-3 na bacia do rio Orinoco. O acordo previa a realização de trabalhos para a avaliação quantitativa e certificação das reservas de petróleo pesado no bloco Junin-3, no estado de Anzoategui (na faixa petrolífera do Orinoco).

Área: 640 metros quadrados

Participantes: Lukoil Overseas, PDVSA


- Quando, dez anos atrás, fui colocado à frente da empresa, foi fixado o objetivo de aumentar para 20 % a quota de projetos internacionais na produção total da empresa. Atualmente, eles representam 11%. A Lukoil Overseas cresce, atualmente, a uma taxa média de 27% por ano, e a gestão da empresa está satisfeita com esse resultado.  

Há dez anos, muitos encaravam um negócio no exterior  como hobby esquisito, “investimentos exóticos”, segundo alguns analistas. No entanto, desde já, a divisão internacional rende mais de 10% da EBITDA (Resultado operacional de uma empresa antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) da empresa, devendo, nos próximos cinco a sete anos, esse indicador aumentar para 25 a 30% da rentabilidade da empresa. Nosso desafio é ter uma carteira de projetos equilibrada. Ao mesmo tempo, consideramos interessantes todos os projetos capazes de garantir uma taxa interna de retorno igual ou superior a 15 %.

- Qual preço do petróleo seria bom, em sua opinião?

- Eu não queria falar sobre isso face à atual volatilidade do mercado. Vou dizer o seguinte: não estamos interessados em que os preços sejam altos, porque quando o preço do petróleo está em alta, começa uma febre, os governos começam a rever suas relações com as empresas petrolíferas e a voltar atrás nos compromissos assumidos. Ao setor petrolífero vem muita gente aleatória, atraída pelo cheiro do dinheiro fácil,  e os preços de materiais e serviços começam a subir. Por isso, estamos interessados em que os preços dos hidrocarbonetos sejam justos e não altos.

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- Como a Lukoil Overseas busca novos projetos?

- Temos uma divisão e um esquema especiais de trabalho. Em todas as regiões de interesse para nossa empresa, abrimos escritórios. Uma das regras básicas da Lukoil é não trabalhar através de intermediários. Se um projeto nos parecer interessante, vamos a esse país, realizamos encontros com autoridades competentes e estabelecemos contatos diretos. Outra vertente é a aquisição de empresas independentes.

Tudo começa por buscarmos campos de petróleo e de gás promissores e importantes para nós onde gostaríamos de participar. Pensamos muito e analisamos bem os mercados em que poderíamos crescer.

É importante entender as tendências básicas da indústria petrolífera mundial. Em nossa opinião, entre suas prioridades está a exploração de petróleo em águas profundas e no Ártico. Por isso, estamos examinando também a possibilidade de projetos na Noruega e no Alasca e em outras regiões como a África Ocidental, Brasil e Austrália.

Agora, aliás, é uma data propícia a negócios porque os mercados financeiros estão, de modo geral, em crise e o preço do petróleo está estável. Quando chega uma situação como esta você deve se comportar como em uma caçada: quando você vê uma presa, tem que ter sua arma carregada.  

Colômbia

Como empresa socialmente responsável, a Lukoil Overseas cumpre seus compromissos perante a população da Colômbia, concretizando numerosos programas socio-culturais. Condor O Bloco Condor está localizado no sopé da Cordilheira Oriental, no oeste da faixa de petróleo e de gás de Llanos, a maior na Colômbia. O contrato para a exploração do Bloco Condor foi firmado entre a Lukoil Overseas Ltd. e a empresa pública colombiana Ecopetrol em 08 de abril de 2002. Em 2007, foi perfurado um poço na estrutura de Medina do qual saiu um fluxo de óleo.

Participação da Lukoil Overseas: 70%

Reservas provadas:  6,09 milhões de barris

Produzido em 2007: 3,7 mil barris

Participantes Ecopetrol:  30%

Operador: Lukoil Overseas

- Você está satisfeito com as cláusulas do contrato da Lukoil no Iraque? Tem a intenção de desenvolver seu negócio nesse país no futuro?

- Tenho a certeza de que, num futuro próximo, as empresas de petróleo mundiais se dividirão entre aquelas que operam no Iraque e aquelas que não operam. As perspectivas desse país são fenomenais. Obviamente, nem tudo corre bem naquele país e há muito riscos, mas, hoje em dia, o Iraque é o principal fornecedor de petróleo e de gás do mundo, capaz de garantir o crescimento da produção na faixa de 10 milhões de barris de óleo por dia. Não existe nenhuma outra região comparável ao Iraque nesse sentido.

De modo geral, as condições que nos foram propostas nos convêm e estamos examinando as possibilidades de nossa participação em novos projetos no Iraque.


- Na Rússia, mantém-se, há vários anos, a discussão sobre a necessidade de mudar o regime tributário. Você tem uma experiência única de trabalho  em diferentes países. Em que país, em sua opinião, o sistema tributário é o melhor?

- Nenhum dos 13 países onde trabalhamos tem um sistema tributário ideal. O sistema tributário de um país está associado a sua especificidade, suas características culturais e ao nível de desenvolvimento de sua indústria de petróleo e de gás. No que respeita à legislação russa, ela deve evoluir rumo à melhoria da atratividade para o investimento com base nos princípios da concorrência, pois investir, digamos, na prospeção geológica na margem continental ártica é um grande risco. O investidor, que opera no setor de petróleo e gás, atribui também grande importância à estabilidade da legislação e dos contratos. Ele quer ter a certeza de que as condições da exploração não serão revistas depois de ser feita a descoberta, etc.

- A Lukoil Overseas faz negócios nos países onde os riscos políticos são grandes. Em que medida, está preparada para enfrentá-los?

- Temos um valioso apoio do ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia. Reuniões com autoridades de um país são sempre precedidas de uma troca de correspondências entre os respectivos ministérios das Relações Exteriores. Só depois disso, vamos a esse país, estabelecemos contatos e construímos relações.

- Há alguns anos, a Lukoil mostrou interesse pela Líbia mas não chegou a abrir ali seu negócio. Sabia que o regime de Kadafi iria cair?

- Começamos a nos interessar simultaneamente pelo Iraque, Egito, Líbia e Argélia. Apesar de repetidas tentativas, não conseguimos entrar no mercado líbio. Tive vários encontros com o líder da Líbia. Como resultado, obtivemos a permissão de concorrer às licitações para a prospeção geológica. No entanto, ao mesmo tempo, empresas européias e americanas obtiveram acesso aos recursos naturais da Líbia sem quaisquer licitações. Esses entendimentos parecem ter sido alcançados após o levantamento do regime de isolamento internacional em relação a esse país. Nas licitações, nossas propostas perderam sempre, por razões desconhecidas, para as empresas ocidentais. Indagamo-nos então se isso era justo. Depois, as autoridades líbias aumentaram os preços dos projetos de prospeção geológica. Como resultado, eles deixaram de ser atrativos para nós. Depois, aconteceu um incidente com um funcionário nosso. Ele foi preso e mantido na cadeia sem acusações formais durante oito meses. Foi solto só após a intervenção do primeiro-ministro russo, Vladímir Pútin. Resultado: em 2008, decidimos deixar a Líbia.  

- Você mantém contatos com diversos políticos. Pode destacar alguém?

- Obviamente, o líder de cada país é uma pessoa interessante e notável. Os líderes nacionais são, em regra geral, dignos de seu status e da posição que ocupam. Eu não gostaria de destacar alguém publicamente.

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