Orquestra sinfônica de São Petersburgo volta a se apresentar nas Américas após 20 anos

A seção da orquestra de São Petersburgo Foto: Arquivo da orquestra

A seção da orquestra de São Petersburgo Foto: Arquivo da orquestra

Depois de mais de 20 anos de intervalo, a Orquestra Sinfônica de São Petersburgo volta a se apresentar nos EUA e na América Latina sob a batuta de dois maestros renomados, Aleksandr Titov e Vladímir Lande, e com as melhores obras da música erudita russa e soviética.

É difícil imaginar que outra orquestra tenha um repertório tão amplo. A Orquestra de São Petersburgo executa as músicas mais variadas, independentemente de seu estilo, época e país de origem. No âmbito de sua próxima turnê internacional, a orquestra leva aos EUA e América Latina obras de Shostakovich, Beethoven, Glinka, Berstain...

Podemos dizer que a orquestra desempenha uma missão especial, levando, durante muitos anos, ao exterior obras clássicas russas e mantendo assim o interesse pelos compositores conhecidos. Além disso, ela apresenta para o público estrangeiro novos nomes e novas obras. Assim sendo, nos próximos dias, a Orquestra vai interpretar em Los Angeles, Baltimore e Houston a “Rapsódia sobre temas moldávios”, do compositor soviético Mieczyslaw Weinberg, até agora desconhecida ao público estrangeiro.

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Violinista na orquestra

Obras sinfônicas raras do período soviético são de especial interesse para a orquestra, que em 2008 lançou um projeto de gravação em CD de obras de renomados compositores russos, criadas durante a Grande Guerra Patriótica. O projeto foi idealizado pelo diretor artístico e regente principal da orquestra, Aleksandr Titov, e conta com o apoio da Comissão de Cultura da prefeitura de São Petersburgo. Os músicos dizem que enfrentaram muitas dificuldades, inclusive financeiras, durante a concretização do projeto. Não obstante, já lançaram 17 discos e têm vários outros planejados. A próxima turnê é um evento longamente esperado. A ideia da viagem é do regente convidado principal da orquestra, Vladímir Lande, que vive nos Estados Unidos e colabora com a orquestra há muitos anos.

 

Os cartazes do projeto da música da Grande Guerra Patriótica

A última vez em que a orquestra esteve nos EUA foi há mais de vinte anos. Desde então, muita coisa mudou nos dois países. O que não muda são as expectativas do público, que continua ansioso para ouvir obras de Tchaikóvski, Prokófiev e Shostakovich na interpretação de músicos russos. A  programação da turnê foi elaborada para atender aos interesses do público e traz algumas surpresas.

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Aleksandr Titov, diretor artístico e maestro principal da orquestra

Para o diretor artístico da orquestra, Aleksandr Titov, os EUA são uma espécie de “segunda terra natal” em termos de música. No início da década de 90, ele fez um estágio de dois meses  no centro de música de Tanglewood, em Massachusetts. Tem recordações muito boas desse período, dizendo que “nunca mais em sua vida conseguiu ver, em um local, tantos grandes nomes”. O que os músicos esperam de uma turnê internacional tão prolongada? A orquestra vai ao exterior depois de um intervalo muito grande e não tem em suas fileiras quase nenhum dos músicos participantes da turnê dos anos 90. Uma turnê é sempre uma agenda cheia de compromissos, deslocamentos frequentes e a separação da família ... Mas os músicos respondem modestamente que esperam dos EUA “salas lotadas” que os estimulem a trabalhar com toda a dedicação. O cansaço acumulado durante viagens frequentes passa quando você fica imerso na música, dizem eles. “Estamos sempre ocupados em fazer aquilo de que gostamos”, afirma Iúri Serov, um dos principais organizadores da turnê. 


Leia a entrevista com Vladímir Lande, regente convidado principal da Orquestra Sinfônica Acadêmica de São Petersburgo, na página seguinte

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Perceber música ao nível dos sentimentos 

Vladímir Lande, regente convidado principal da Orquestra Sinfônica Acadêmica de São Petersburgo, fará uma turnê pela América do Norte e América do Sul, que terá início no dia 4 de outubro com uma série de concertos em Los Angeles. Antes de partir para as Américas, Vladímir respondeu às perguntas da Gazeta Russa.

Vladímir Lande Foto: Arquivo pessoal

- Como você começou a colaborar com a Orquestra Sinfônica de São Petersburgo?

- Um amigo meu, o violinista Mikhail Gantvarg, me convidou para reger um concerto no aniversário da orquestra. Geralmente, a “fusão” entre um regente e os músicos leva tempo. Em meu caso, estabelecemos quase imediatamente uma compreensão mútua e continuamos funcionando até agora como um único organismo. Os músicos me compreendem perfeitamente e reagem a minhas ações de forma instantânea.

- A idéia principal da turnê é apresentar ao público americano sua orquestra russa favorita?

- Essa turnê não tem precedentes. Talvez apenas a Filarmônica de Berlim se  permita projetos como esse. O público dos EUA é muito exigente. O público da América Latina é muito sensível. Ambos entendem bem de música. Em ambas as Américas, vamos nos apresentar nas melhores salas. E por trás disso estão dois objetivos: o primeiro é dar à orquestra russa a possibilidade de sentir o público americano e conquistar sua atenção e o segundo é oferecer ao público americano a oportunidade de descobrir algo novo. Estou à espera de uma reação adequada à plenitude inerente ao estilo da Orquestra de São Petersburgo. Seus músicos, ao contrário de muitos outros, são capazes de ouvir uma qualidade de som diferente.

- O que diferencia, em sua opinião, uma turnê pela América do Sul de concertos nos EUA?

 
- A maneira como os latino-americanos percebem a música. Têm algo muito parecido com o espírito russo e, talvez, o espírito italiano. Todos esses povos vivem com a música. Não me refiro à música que pode tocar o dia inteiro no rádio de um representante de qualquer etnia. Eu me refiro à música que faz parte inalienável de sua vida cotidiana, às canções cantadas na rua e em casa e nas festas ruidosas, à obra dos mariachi (músicos de rua mexicanos). Em geral, os mexicanos são muito  receptivos a coisas bonitas. Sua  música clássica é um verdadeiro tesouro que, aliás, ainda não foi descoberto pelo povo russo: temos uma noção muita vaga sobre sua música. Quanto vale, por exemplo, a música de Silvestre Revueltas! Para muitas outras nações, música é apenas música, assim é sua mentalidade! Mas esses países são capazes de percebê-la de forma mais crítica...

Com o violinista Hillary Hahn em São Petersburgo Foto: Arquivo pessoal

- No norte, o público é mais exigente e, no sul, é mais sensível. Isso quer dizer que uma turnê pela América do Sul será, para o senhor, menos emocionante?

- De jeito nenhum, até porque nossos concertos no México serão realizados no âmbito do Festival de Artes Servantino, em Guanajuato, onde se reunirão não só o público de toda a América Latina como também todos os críticos renomados. Parece que, este ano, vamos ser os únicos delegados da Rússia. Acho importante podermos apresentar, tal como nos EUA, o estilo de nossa orquestra. Vamos interpretar a Quinta Sinfonia de Shostakovich, que preparamos especialmente para ser executada nesse país. No entanto, outros concertos nossos nessa parte do continente não serão menos interessantes: estamos sendo esperados na Argentina, Equador, Chile, Uruguai ... Em uma palavra, espera-nos um número impressionante de salas de concerto e todas são as melhores. A gestão empresarial da turnê esteve a cargo de uma empresa em que confiamos muito.

- Seu repertório é previsível só em parte: é lógico que o público americano espera poder ouvir obras de Prokofiev e Shostakovich em sua interpretação e elas estarão presentes. Mas como explicar que no programa de um concerto estejam presentes obras de Tchaikóvski e de Bernstein? Não se contradizem mutuamente?

Há mais de vinte anos o maestro vive e trabalha nos EUA, sendo regente convidado da Orquestra da Galeria Nacional de Washington, diretor musical da Orquestra Sinfônica de Cosmic, da Orquestra de Câmara de Washington, da Orquestra de Câmara da Universidade Johns Hopkins, da Orquestra de Ópera de Baltimore. Também rege regularmente a Orquestra de Balé de Donetsk na Europa e nos EUA.

- Não encontro aqui nenhuma contradição. Acho que as obras musicais dos dois compositores estão muito próximas e explico porque: Bernstein sempre foi extremamente atento com a música de Tchaikóvski, aprendendo muita coisa com ela. Se ouvirmos com atenção o principal tema da “West Side Story”, perceberemos que ele foi tirado do Terceiro Concerto de Tchaikóvski,  infelizmente, raramente executado. Pode ter sido por isso que Bernstein  decidiu usá-lo. No que diz respeito às expectativas do público, é verdade que nos EUA a música de Tchaikóvski, Shostakóvich, Prokófiev, Móssorgski tem forte aceitação. Quanto à música de Stravínski e Rachmaninoff, consideram-na como sua e não adianta apresentá-la nos EUA.

- O repertório traz uma outra surpresa: por razões desconhecidas, só no Brasil, em São Paulo, em particular, vocês vão interpretar obras de Beethoven ...

- Em minha opinião, nossa interpretação dessa obra complicada será especialmente interessante aos brasileiros. Lá a orquestra será regida por meu colega, Aleksandr Titov. A Orquestra de São Paulo executa lindamente  a música de Beethoven, e nós vamos apresentar nossa versão. É bom saber que a dificílima parte de violoncelo será executada por Dmítri Kouzov. Ele é   uma estrela e deve se tornar conhecido do público estrangeiro, especialmente entre os músicos profissionais. Também gostaríamos de apresentar ao público americano Stefan Milenkovic, violinista sérvio. Acho que sua compreensão da música é semelhante à russa, o que proporciona à orquestra a possibilidade de uma colaboração interessante e produtiva. Na verdade, de modo geral, a música russa é próxima a todas as nações, possui uma conotação emocional profunda e se cria ao nível dos sentimentos, sendo uma linguagem compreensível a todos. 



Entrevista feita por Polína Mókhova, Gazeta Russa 

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