Adeus ao fuzil Kaláchnikov

Mikhail Kaláchnikov Foto: RIA Nóvosti

Mikhail Kaláchnikov Foto: RIA Nóvosti

Foram 65 anos de protagonismo em muitas fitas de vídeo e fotos, e um barulho estrondoso que para muitos soava como música celestial. Seu modelo se tornou um ícone da luta armada e, inclusive, mudou a forma de guerrear no século 20: não havia revolução nem guerrilha sem o Kaláchnikov.

O AK-47 (Avtomat Kaláchnikova) ofereceu durante muitos anos a melhor relação custo-benefício do mercado. No entanto, o ministério da Defesa da Rússia anunciou nesta semana que deixará de comprar o fuzil de assalto mais conhecido do mundo.

“Estamos projetando novos fuzis e, além disso, atualmente temos dez milhões de Kaláchnikov para um exército de um milhão de efetivos”, confirmou o chefe do Estado-Maior das forças armadas russas, Nikolai Makárov. 

De acordo com o plano de modernização do exército apresentado pelo ministro da Defesa, Anatóli Serdiukov, o Estado vai investir, entre 2011 e 2020, cerca de 550 milhões de euros (o equivalente a 20 trilhões de rublos) na atualização de armas, salários e instalações, e no preparo do exército russo. Desse valor, aproximadamente 90 milhões de euros (ou 3 trilhões de rublos) serão diretamente destinados às empresas armamentistas do país. 

O diretor do Centro para Análises do Comércio Mundial de Armamento (CACMA), Igor Korotchenko, explica que a qualidade dos fuzis de assalto produzidos na Rússia continua sendo “suficientemente alta”, ainda que o ministério da Defesa “já não esteja mais satisfeito com algumas características técnicas do modelo”.  

Mesmo assim, Korotchenko aponta como as maiores vantagens do AK seu design simples, resistência e fácil manejo, e repete que a razão principal para tal anúncio é a grande reserva de Kaláchnikov existente nos arsenais russos. 

Por sua vez, o porta-voz do Ijmach (produtor que detém a patente dos fuzis Kaláchnikov), Aleksandr Baditsa, confirmou que a fábrica está trabalhando em um modelo melhorado de fuzil de assalto com novas funções técnicas e que espera apresentá-lo no fim deste ano.

Entretanto, o especialista do CACMA relembra que a exportação russa de pequenas armas automáticas só representa uma pequena porcentagem dos 10 milhões de euros esperados para este ano, e condiciona a viabilidade do projeto da Ijmach a um novo acordo com o governo, o qual considera factível.

A única arma de destruição em massa que Saddam Hussein possuía 

Na grande narrativa da Segunda Guerra Mundial, a batalha de Briansk (1942) merecia apenas uma nota de rodapé...a não ser pelo fato de um desconhecido comandante ter decidido criar um rifle para que seus camaradas não perdessem mais batalhas.  

Em 1947, o AK-47 se tornou o fuzil de assalto do Exército Vermelho em virtude de seu fácil manejo e resistência. No entanto, o Kaláchnikov não havia ganhado fama de mito das guerrilhas até o conflito do Vietnã, sendo mais tarde usado em Angola, Moçambique, Guiné, Etiópia, Bolívia, Congo, Nicarágua, El Salvador, Libéria, Serra Leoa, Ruanda, Zimbábue, Somália, Venezuela, Colômbia, Líbano, Timor Leste e em muitos outros cantos do planeta.   

Com o passar dos anos, o AK-47 foi reconhecido como “a arma anti-imperialista”, embora a própria CIA norte-americana tenha chegado a fornecer Kaláchnikovs para grupos paramilitares e guerrilheiros contrários aos interesses da URSS. Depois da queda da União Soviética, o contrabando de AK-47 se estendeu aos cartéis de droga, grupos mafiosos, senhores da guerra e organizações terroristas. Além disso, países como Irã, Síria e Líbia adquiriram grandes quantidades desses fuzis automáticos, por meio de contratos com a Rússia (ou com outras ex-repúblicas soviéticas) ou no mercado negro.

Ainda assim, o Kaláchnikov continua tendo grande poder simbólico e conserva seu magnetismo revolucionário. Saddam Hussein, por exemplo, construiu uma mesquita em Bagdá com minaretes em forma de canos de AK; nos primeiros vídeos de Bin Laden depois do 11 de setembro, o líder terrorista aparecia com um Kaláchnikov nas mãos. 

Era uma vez um poeta que inventou um fuzil de assalto  

“Criei uma arma para defender minha pátria. Não sou culpado se alguma vez foi utilizado onde não deveria; esse assunto cabe aos políticos”, disse Mikhail Kaláchnikov ao receber seu último reconhecimento como herói da União Soviética, em 2007, das mãos do presidente Dmítri Medvedev, que afirmou que Kaláchnikov “é um modelo de representação da Rússia em todo o mundo e evoca o orgulho de seus cidadãos”.  

Antes da guerra, os amigos diziam que Kaláchnikov iria ser poeta, mas ele preferia fazer algo que tivesse uma utilidade maior, como engenharia agrícola (“já existem poetas ruins por aí”). Na verdade, Kaláchnikov sempre repetiu que se viu forçado a inventar o AK-47 por causa da invasão nazista.

Aos 92 anos de idade, Mikhail continua assistindo a apresentações da Rosoboronexport, a principal agência estatal intermediária para a exportação e importação de produtos relacionados à defesa, e escrevendo livros sobre como melhorar a educação das crianças e promover a integração dos jovens. 

Diante da pergunta do que mais tem orgulho de ter feito, cita o busto de bronze em Kuria, sua cidade natal localizada na província de Altai, e diz que as pessoas o param na rua para lhe pedir conselhos sobre como educar seus filhos. “Algum outro produtor de armas pode se gabar disso?”, brinca.

Seus familiares ainda não lhe deram a notícia do ministério da Defesa, temendo que a delicada saúde do inventor do AK-47 piore.

Índice de Kaláchnikov

É possível imaginar um mundo sem o Kaláchnikov? Que arma terão, então, os bandidos? Alguém pode perguntar a Gaddafi? A verdade é que a Líbia é possivelmente o último país onde se pode aplicar o "Índice de Kaláchnikov", ou seja, a correlação entre estabilidade política e o preço da AK-47. 

A aposentadoria do autêntico fuzil AK-47 põe fim a uma era, mas que não se preocupem os vilãos, porque ainda há em circulação aproximadamente 100 milhões de Kaláchnikov, incluindo as cópias da Albânia, Bulgária, Camboja, China, Coréia do Norte, Alemanha, Egito, Etiópia, Hungria, Iraque, Índia, Irã, Israel, Finlândia, Macedônia, Marrocos, Nigéria, Paquistão, Polônia, Romênia, Sérvia, África do Sul, Sudão, Vietnã e Iugoslávia – alguém conhece algum produto russo mais conhecido e copiado do que o fuzil Kaláchnikov?

Além disso, a Venezuela foi autorizada por Moscou a produzir sua própria réplica. Em maio de 2005, Caracas adquiriu 100 mil Kaláchnikov AK-103/104 para introduzi-lo como fuzil de assalto do exército nacional. O pedido também compreendia 74 milhões de cartuchos, 2 mil jogos de reposição, 50 calibradores, 2 mil manuais de uso e 5 simuladores para treinamento. Esse contrato permitiu que, em 2006, fosse planejada a instalação de uma fábrica de Kaláchnikov na Venezuela, prevista inicialmente para 2009, mas que, depois de diversos atrasos, começará a funcionar e produzir os fuzis em 2012.

De acordo com as autoridades russas, cerca de 90% dos Kaláchnikov que circulam pelo mundo são falsos, meras réplicas do original produzidos sem licença nem autorização. Na verdade, a União Soviética nunca chegou a patentear o AK-47 – foi somente em 1998 que a Federação Russa registrou o fuzil no Escritório Internacional de Patentes da Suíça. 

Para quê a Rússia precisa de super-heróis se tem o fuzil Kaláchnikov?  

Os modelos AK duram entre 10 e 20 anos e, na segunda metade do século 20, ofereciam a melhor relação custo-benefício do mercado. Desde 1947, foram produzidas entre 15 e 20 versões autorizadas do modelo original, que pesa aproximadamente 4,3 quilos (descarregado) e mede 870 milímetros. A recarga é acionada a gás, possui ejetor rotativo e, normalmente, utiliza um calibre de 7,62 milímetros. Tem alcance de 400 metros e pode chegar a 600 disparos por minuto.

O protótipo foi apresentado em 1943, mas decidiram redesenhá-lo após analisar os fuzis alemães Stg-44. Embora o mecanismo seja diferente, os especialistas dizem que o Kaláchnikov assumiu muitas soluções técnicas do Sturmgewehr 44 nazista.

Em novembro de 2004, foi inaugurado na cidade de Ijevsk (Montes Urais) o Museu do Kaláchnikov, ainda que muitas outras peças e documentos também possam ser encontrados no museu das armas em Tula. O AK-47 aparece nas bandeiras nacionais de Moçambique, Zimbábue e Timor Leste, e na bandeira do movimento xiita libanês Hezbollah. De acordo com um estudo realizado em 2009, cerca de 60 exércitos nacionais ainda utilizam fuzis Kaláchnikov.  

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