Crise na zona do euro consolida Brics na nova ordem mundial

Caricatura:Niyaz Karim

Caricatura:Niyaz Karim

O grande momento do Brics finalmente chegou. Em uma dramática inversão de fortunas, a Europa, que vigorosamente se opôs a um maior poder de votos para as economias emergentes no Fundo Monetário Internacional (FMI), se vê agora procurando ajuda dos países do Brics para afastar a pior crise que atinge a zona do euro.

Com mais de US$ 4 trilhões em reservas, as maiores economias emergentes do mundo – China, Brasil, Índia e Rússia – podem muito bem se tornar os salvadores da Europa. Embora não esteja claro qual será o modelo desse pacote de resgate, considerando as diferentes posições entre os países do Brics sobre os riscos de um pacote de apoio para os Pigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), nações que mergulharam a economia europeia em uma espiral descendente, o simbolismo da situação não tem passado despercebido pelos analistas do cenário internacional.

Para evitar o pior, os ministros das Finanças e os diretores de bancos centrais dos países do Brics se encontraram recentemente em Washington e pediram às nações do G20 para agir rapidamente a fim de aliviar a crise da dívida na zona do euro, advertindo que o fracasso em atuar de forma coordenada poderia levar à repetição da crise financeira mundial de 2008. Eles também afirmaram estar considerando oferecer dinheiro ao FMI e a outros órgãos financeiros mundiais, para aumentar suas capacidades de combater as crises financeiras.

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Acompanhando de perto a crise na zona do euro, as economias emergentes temem que a estagnação que vem tomando conta dos EUA e da Europa possa gerar um impacto negativo no mundo em desenvolvimento ao longo da Ásia, América do Sul e África. “Há um risco de que a crise da dívida soberana de alguns países se transforme em uma nova crise financeira”, alertou o ministro brasileiro das Finanças, Guido Mantega. Tendo isso em mente, os ministros do Brics pediram ao Banco Mundial que mobilizem mais recursos para aumentar a assistência aos países em desenvolvimento.

Mais importante ainda, eles aproveitaram a oportunidade para pedir ao FMI que acelere as reformas de cotas e de governança. “É também preciso avançar com a revisão abrangente da fórmula de cotas até janeiro de 2013 e com a conclusão da próxima revisão de cotas até janeiro de 2014”, disseram os líderes econômicos dos cincos países em um comunicado conjunto. “Isso é necessário para aumentar a legitimidade e a eficácia do Fundo.” Em 2010, os 187 países-membros do FMI e do Banco Mundial concordaram em deslocar cotas das economias desenvolvidas para mercados emergentes e economias em desenvolvimento.

A consolidação do grupo Brics na esteira da crise na zona do euro aumentou a especulação sobre as intenções desses países, que estariam tentando obter grandes benefícios das nações desenvolvidas em troca do resgate. Afinal, as lembranças do FMI ditando punitivos programas de ajuste estrutural para o hemisfério Sul ainda estão bem frescas em suas mentes.

Por exemplo, será que a Índia e o Brasil vão exigir uma posição permanente no Conselho de Segurança da ONU para salvarem a zona do euro de uma catástrofe? Ou a China irá buscar para si um papel mais importante nas instituições de Bretton Woods? Essas questões permanecem, na melhor das hipóteses, como especulação, mas fato é que, ao serem propostas, evidenciam a ascensão do Brics como uma extraordinária força global em uma ordem internacional que está rapidamente se transformando, marcada pelo deslocamento tectônico do poder do Ocidente para o Oriente e do hemisfério Norte para o Sul. 

Em praticamente três anos desde que a Rússia sediou a primeira cúpula do grupo em Iekaterinburgo, em junho de 2009, no auge da crise econômica mundial, o Bric, termo cunhado em 2001 por Jim O’ Neill, do banco de investimentos Goldman Sachs, para se referir às economias emergentes com mais rápido crescimento no mundo, evoluiu para um poderoso grupo unificado e guiado pelo projeto abrangente de dar forma à arquitetura pós-crise econômica e aumentar a participação das economias emergentes nas instituições globais de tomada de decisão, as quais vinham sendo há um bom tempo dominadas pela tríade composta por Estados Unidos, Europa e Japão.

O Bric se transformou em Brics quando a África do Sul, a maior economia do continente africano, foi formalmente incluída no grupo durante a cúpula de Sanya, na China, em abril de 2011. Na verdade, a criação de uma ordem multipolar, equitativa e, inclusive, internacional, a reforma das instituições de Bretton Woods e o maior envolvimento dos países emergentes e em desenvolvimento nas relações internacionais têm sido temas-chave que ressoaram em todas as três cúpulas, realizadas em Iekaterinburgo (2009), Brasília (2010) e Sanya (2011).

“Devemos dar as mãos para garantir uma transformação pacífica e organizada da ordem mundial, refletindo as realidades contemporâneas e emergentes. Esse deve ser o objetivo, seja na reforma das estruturas de governança política e de segurança da ONU ou no sistema internacional monetário, de finanças e de comércio”, disse o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, na cúpula de Sanya, ao sintetizar a importância estratégica e econômica do Brics.

Além do perfil estratégico ascendente, os países do Brics, que juntos reúnem 300 bilhões de pessoas – ou praticamente metade da humanidade – e respondem por 21% do PIB mundial, decidiram ampliar sua cooperação em diversos campos, incluindo comércio, segurança, energia e cultura. O plano de ação estabelece, entre outras coisas, reuniões constantes dos ministros das Relações Estrangeiras em paralelo à Assembleia Geral das Nações Unidas, além de encontros entre as autoridades sênior dos países sobre questões de segurança, e dos ministros do Comércio Exterior e da Saúde.  

Quando O’Neill lançou o termo Bric em 2011, ele não tinha noção de que a mudança aconteceria tão rapidamente. Uma década depois, a China se tornou a segunda maior potência mundial, enquanto o Reino Unido perdeu seu posto dentre as cinco maiores potências, ultrapassado pelo Brasil. As economias da Índia e da Rússia estão crescendo de forma acelerada. As relações entre países do Sul e o multilateralismo comercial adquiriram uma nova ressonância.

Stephen Jennings, presidente do banco de investimento moscovita Renaissance Capital, prevê um crescimento ainda maior dos acordos entre países em desenvolvimento do hemisfério Sul. “Os tradicionais centros financeiros e o modelo econômico ocidental estão perdendo sua hegemonia”, afirmou Jennings em um discurso feito a investidores em Moscou, em junho deste ano. “Há um deslocamento gravitacional de empresas, capital e ideias, em direção às economias de mercados emergentes. As economias de rápido crescimento, incluindo a Rússia, estão se tornando líderes na nova ordem econômica.”     

A hierarquia diplomática também sofreu alterações com o surgimento do Brics, sendo este geralmente comparado ao G7 ou considerado um concorrente para o clube dos países desenvolvidos, e é impensável realizar qualquer acordo global importante em questões comerciais ou mudanças globais sem a presença dos integrantes do Brics. Todos os cinco países do grupo estão simultaneamente no Conselho de Segurança da ONU como membros permanentes e não permanentes.

“Ao fortalecer o quadro econômico do mundo multipolar, o Brics está objetivamente contribuindo para criar condições de fortalecimento da segurança internacional”, disse o presidente russo Dmítri Medvedev. Quando as negociações sobre mudança climática em Copenhague estavam empacadas, em dezembro de 2009, o presidente norte-americano Barack Obama se reuniu com os líderes dos países BASIC, que compreende China, Índia, Brasil e África do Sul. E agora, a infestação da crise na zona do euro está acelerando a redistribuição de poder e a ascensão do Brics, o poderoso fruto da crise financeira mundial de 2008.


Manish Chand é editor sênior da agência de notícias indiana IANS e escritor de Nova Déli sobre relações internacionais. 

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