Poder para as mulheres

Valentina Matvienko presidente do Conselho da Federação e ex-governadora de São Petersburgo Foto: RIA Nóvosti

Valentina Matvienko presidente do Conselho da Federação e ex-governadora de São Petersburgo Foto: RIA Nóvosti

Com papel reduzido desde a era soviética, mulheres buscam espaço na política e criaram até uma ONG com o intuito de eleger a primeira presidenta do país em 2018.

Não existe espaço para as mulheres na política da Rússia atual. A famosa frase de Lênin dizia que  “toda cozinheira deve saber administrar o Estado” e realmente permitiu que as mulheres fossem representadas nos órgãos do poder na União Soviética. Esse direito, garantido por cotas especiais, é definitivamente coisa do passado.

Podem-se contar nos dedos as mulheres que estão no topo da cena política, como Valentina Matvienko, ex-governadora de São Petersburgo que na úlitima quarta-feira (21) foi nomeada presidente do Conselho da Federação (Câmara Alta do Parlamento Russo).

“É a única com real importância política, além de ser uma administradora extremamente eficaz e experiente”, afirma a pesquisadora do Instituto de Sociologia da Academia de Ciências, Olga Krichtanóvskaia.

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Matvienko chegou onde está por mérito próprio e ela mesma não gosta de questões que girem em torno de gênero. Na coletiva de imprensa de despedida em São Petersburgo, a ex-governadora assumiu que nunca gostou de responder a perguntas sobre mulheres e política.

Quando as eleições se tornaram livres e as cotas de gênero soviéticas foram abolidas, no início dos anos 1990, as mulheres desapareceram da cena política. “Elas não se apresentam mais como candidatas e, assim, as pessoas não veem razões para votar no sexo ‘mais fraco’”, acredita Krichtanóvskaia.

Maternidade x política

Hoje, o sistema sociopolítico está, de um modo geral, baseado na tradicional visão das relações de gênero. O fenômeno é intensificado pela crescente preocupação, em nível federal, de um desastre demográfico, e pela urgente necessidade de ter mais crianças no país para evitá-lo.

Torna-se cada vez mais difícil ser mãe e trabalhar ao mesmo tempo, considerando o número reduzido de creches e pré-escolas disponíveis e o custo das instituições particulares. As novas normas do direito de família tendem a trancafiar as mulheres nos lares em vez de conduzi-las ao trabalho. Somado a isso, a mentalidade machista triunfa. “Uma mulher, independente de seu status ou das qualidades e aptidões que possua, estará sempre sujeita à desconfiança”, explica a política Irina Khakamada.   

Figura emblemática da participação feminina na política da Rússia pós-soviética e candidata presidencial em 2004, Khakamada se aposentou dos assuntos governamentais. “Durante 13 anos, gastei 70% do meu tempo e energia provando ser uma política com direitos iguais aos dos homens. Só restou 30% para realmente aprovar leis”, confidenciou à rádio Eco de Moscou.

Khakamada se opõe ferozmente às cotas, que, segundo ela, são humilhantes e discriminatórias para as mulheres e não representam um progresso real. “O que precisamos alterar é a mentalidade e o ambiente”, acredita.

Irina Khakamada.

“Os homens na política russa costumam ser apáticos porque, para eles, o sistema funciona. Ainda que sejam desinteressantes, tornam-se líderes. Já as mulheres devem se fazer notar. Elas têm que ser extraordinárias.”

Irina Khakamada política, membro da coalizão «Outra Rússia»

Em um sistema mais baseado em camaradagem que em princípios democráticos, até mesmo o carisma e o talento de um homem são menos importantes do que sua aliança com o poder e o apoio garantido em troca. As mulheres então têm que se esforçar em dobro quando se trata de causar impressão.

Os 12% de deputadas na Duma (câmara dos deputados na Rússia) não ajudam a desfazer o preconceito que cerca as mulheres na política do país. No geral, propõem leis apenas sobre família, infância, educação, esportes e saúde. “Elas não são políticas no real sentido da palavra, com uma ideologia e visão ampla, mas sim profissionais contratadas”, diz Krichtanóvskaia.

Ainda assim, algumas se destacam na multidão, como é o caso da ex-campeã olímpica de patinação de velocidade Svetlana Jourova, membro dos comitês de família, educação, cultura, educação física e juventude e  vice-porta-voz da Duma, além de membro do comitê olímpico.

“As mulheres são capazes de negociar e cooperar, mirando o impacto de suas decisões em parcelas concretas da sociedade”, afirmou Jourova à revista alemã Neue Zeiten, clamando que as colegas do sexo feminino participem mais ativamente das principais definições do governo.

 

Elas para presidentas

Krichtanóvskaia não só desenvolve teorias sobre o lugar das mulheres na política como também é uma figura pública ativa,  membro do partido governante Rússia Unida desde 2009 e presidente de uma nova ONG chamada “Otlítchnitsi” (“a primeira da classe”, em português), cujo objetivo é eleger uma mulher presidente nas eleições de 2018.

A candidatura de Matvienko em 2012 já tem apoio. Mas a batalha será difícil. Uma recente pesquisa do VTsIOM,  órgão de estatísticas oficial do governo, revelou que um quarto dos russos acredita que já existe uma quantidade abundante de mulheres na política. Além disso, segundo os entrevistados, uma candidata à presidência poderia perder as eleições simplesmente devido ao gênero.

Mulheres da política russa


Valêria Novodvórskaia - defensora dos direitos humanos, representante da oposição liberal da Rússia.

Irina Khakamada - política, membro da coalizão da oposição «Outra Rússia».

Elvira Nabiúlinaeconomista russa, política, ministra do Desenvolvimento Econômico da Rússia.

Svetlana Júrova - atleta, deputada do parlamento russo pelo partido Rússia Unida.

Svetlana Khórkina - famosa ginasta russa, deputada do parlamento russo pelo partido Rússia Unida.

Alina Kabáeva - famosa ginasta russa, deputada do parlamento russo pelo partido Rússia Unida.

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