Rússia espera por sua Evita Perón

Ilustração:  Aleksêi Iorsh

Ilustração: Aleksêi Iorsh

Sem exemplo forte ou cotas nas eleições, mulheres do país ainda estão presas ao papel de mães e senhoras do lar.

Nos idos de 2006, a manchete de um popular jornal russo me chamou a atenção: “Presidente Vladímir Pútin se reuniu com presidente chileno Michel Bachelet.”

O fato de que o autor deste título simplesmente não sabia que no comando do Estado chileno estava uma mulher diz muito sobre as posições ocupadas pelas representantes do sexo feminino na política russa.

Na opinião unânime dos futurólogos, este século será “a era das mulheres” em todas as esferas da vida. Mas as mudanças mais evidentes ocorrem na política.

O tradicional domínio masculino nunca havia sido posto em questão, sempre encarado com naturalidade. Talvez seja por isso que o autor da curiosa manchete tenha confundido o gênero da ex-presidente do Chile.

Nos últimos tempos, pode-se dizer que a representação feminina no poder mudou substancialmente. Na própria América Latina, só nos últimos 5 anos, quatro mulheres venceram as eleições e passaram a ocupar os assentos presidenciais de seus respectivos países: no Chile, a já mencionada Michelle Bachelet; na Argentina, Cristina Fernández de Kirchner; na Costa Rica, Laura Chinchilla; e no Brasil, Dilma Rousseff.

Infelizmente, as russas não podem se orgulhar de semelhantes êxitos. O país continua sendo conservador quando se trata da presença feminina no âmbito da política pública e do poder. Por que na América Latina, uma região que sempre foi caracterizada pelo machismo, as mulheres têm alcançado altos cargos do poder e na Rússia continuam no final da fila do feminismo mundial?

Essa irrevogável constatação é ainda mais surpreendente quando voltamos ao passado.

Historicamente, tanto a Rússia como a América Latina sempre foram sociedades patriarcais, onde as mulheres ocupavam posições inferiores. No período pré-revolucionário do Império Russo, a desigualdade entre os sexos era parte da realidade.

O “doméstico” era um conceito fixo na mente dos russos, e a desigualdade estava presente tanto nas tradições quanto na vida cotidiana.

Mulheres exemplares  deviam ater-se ao espaço reservado a elas dentro de casa e raramente apareciam para os convidados e vizinhos. Quando o faziam, era preciso receber permissão prévia do marido.

Uma situação semelhante também era observada na América Latina, onde os conquistadores espanhóis impunham um estilo similar de clausura – herdado, por sua vez, dos mouros que dominaram a Península Ibérica durante séculos. As senhoras e senhoritas da nobreza só saiam de casa para ir à igreja.  

Em ambos os continentes, a política pública continuou sendo durante um longo período uma espécie de “clube do Bolinha”, para o qual o ingresso era vetado às mulheres. Na Rússia e na maioria dos países da América Latina, as ideias de emancipação feminina só foram difundidas muito tempo depois.

Nesse aspecto, ficamos extremamente atrasados em relação à esclarecida e progressista Europa e aos Estados Unidos. Para nós, o movimento chegou apenas no primeiro trimestre do século passado.

Na União Soviética, a ala feminina teria de agradecer a Lênin pelas conquistas obtidas na luta por seus direitos. As teses do líder sobre “a necessidade de todas as cozinheiras aprenderem também a conduzir o Estado” contribuíram para a efetiva incorporação das mulheres na vida social e, posteriormente, à atividade política.

A preocupação com “o papel político da mulher na sociedade” revelou-se na grande quantidade de mulheres que passaram a ocupar cargos em órgãos representativos do poder.

Na Rússia, lamentavelmente, esse sistema foi deixado para trás, enquanto na América Latina passou a funcionar com plena eficiência. Nesse conjunto de 14 países existem cotas legais que reservam de 20% a 40% das candidaturas para quaisquer cargos elegíveis a mulheres.

Na URSS, a incorporação das mulheres na vida sociopolítica foi feita num modelo vertical, de cima para baixo. Entretanto, os “departamentos femininos” criados dentro das estruturas partidárias já existentes ainda se ocupavam de tarefas estritamente domésticas e triviais.

No mesmo período, diversas mudanças continuaram a tomar espaço na América Latina. Na Argentina, por exemplo, os homens foram submetidos à “rainha dos desamparados e líder dos descamisados”, Eva Perón, que contribuiu para o feminismo latino-americano mais que qualquer outra.

Evita colocou as mulheres no mesmo patamar dos homens, concedendo-lhes direito ao voto. E, embora agisse pelo desejo de garantir o eleitorado do marido, Juan Perón, sua defesa aos mais necessitados não caiu em esquecimento.

Atualmente, uma imponente estátua dela decora a fachada do edifício onde funciona o ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social, em Buenos Aires.

Ao inaugurar a escultura, a atual presidente Cristina Kirchner disse que Evita foi “não só uma figura política, mas também o símbolo mais expressivo das mudanças ocorridas no país”. Pode-se dizer, sem exageros, que o surgimento de Eva Perón promoveu transformações não somente no próprio país, mas em todo o continente.

Tanto a presidente Cristina, como outras mulheres que ocupam altos cargos em países da América Latina são figuras consolidadas que seguem as mesmas regras adotadas no universo masculino. Quem as ensinou o caminho para lidar com esse mundo foi a pequena e carismática loira, que é considerada uma das mulheres mais importantes do século 20.

No já iniciado “século das mulheres”, os políticos russos do sexo masculino apelam para o estereótipo conservador e patriarcal com frequência cada vez maior. A imagem da mulher que deve desempenhar apenas o papel de mãe e senhora do lar ainda é muito forte na consciência da maioria dos russos.

O cenário atual não contribui para uma maior integração das russas aos ambientes tradicionalmente “masculinos” da vida social. Na história da Rússia não existiu nenhuma Evita, e nossas mulheres ficaram às margens do panorama político.

Anna Scherbakova é pesquisadora colaboradora do departamento de investigações políticas do Instituto Latino-Americano da Academia de Ciências da Rússia.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.