Campo fértil para crescimento

A plantação de chá mais setentrional do mundo, em Krasnodar, na Rússia Foto: RIA Nóvosti

A plantação de chá mais setentrional do mundo, em Krasnodar, na Rússia Foto: RIA Nóvosti

Vacas solitárias, kolkhózi arruinadas e campos abandonados estão sendo substituídos por investimentos milionários.

Pastagens, campos de girassóis e grãos prontos para a colheita margeiam uma esburacada estrada no sudoeste da Rússia, a 100 quilômetros de Kursk. Uma solitária vaca branca e preta pasta junto à estrada, pela qual os agricultores Klaus John e Serguêi Iarovôi estão a caminho da fazenda onde trabalham, pertencente à empresa Prodimex.

Entre guerras e kolkhózi, a agricultura russa desde 1900

Por volta de 1900 a Rússia era o maior exportador de grãos do mundo. Quase um terço da exportação mundial provinha do Império Russo. A Primeira Guerra Mundial, a revolução e anos de guerra civil levaram à queda do contingente populacional dos campos e a grandes interrupções na produção agrícola. Foi somente na segunda metade dos anos 20 do século passado que as safras começaram a render novamente.

Em 1929, Stálin decidiu coletivizar todo o setor agrário. Muitos agricultores, contudo, preferiram abater seus cavalos, vacas e porcos a entregá-los para os kolkhózi (“fazendas coletivas”) que estavam em formação por todos os cantos. Isso gerou uma nova interrupção na produção rural, sobretudo na produção pecuária.

Em 1940, com o aumento do uso de máquinas, a produção de grão novamente atingiu os níveis pré-crise. Porém, a Segunda Guerra Mundial cortou a produção de carne e grãos pela metade. No início dos anos 80, a União Soviética era a maior produtora de trigo, centeio, cevada e algodão do mundo, com os kolkhózi e sovkhózi (“fazendas soviéticas”) sob comando do Estado. Depois da queda da União Soviética, esse tipo de produção entrou em colapso.

Em 1998, a Rússia produziu apenas metade da quantidade de grãos cultivados na década de 1990. Só recentemente houve recuperação. Em 2008, primeiro ano de fôlego, a safra foi de 108 milhões de toneladas. Na pecuária, o declínio foi ainda mais drástico. Em muitos lugares, empresas inteiras tiveram que abater o gado para gerar lucro rápido. O setor ainda não se recuperou.

Hoje, existem apenas 11 milhões de vacas nos campos do país, isto é, 31 milhões a menos do que na década de 80. O agronegócio emprega 10% da população atualmente. A receita gerada pelo setor em 2009 chegou a 1,53 bilhões de rublos (o equivalente a R$ 85,68 milhões).

John aponta para o animal e diz: “Essa é a imagem da indústria de laticínios na Rússia.” A observação pode soar como brincadeira, mas não está longe da realidade. Muitos russos produzem leite para o próprio consumo, e também plantam verduras e batatas em suas datchas (casas de campo).

Mais da metade da carne bovina da Rússia é proveniente de abatedouros privados, e mais de 90% das batatas são cultivadas nos jardins das casas.

Nos vilarejos, as crianças diariamente reúnem as vacas antes de levar o rebanho para o pasto. “Como Pedro, o menino pastor, que caminha com as cabras pelos Alpes. Parece uma cena idílica, mas isso não alimenta um país de 147 milhões de pessoas”, explica John.

Crédito x subsídios

 

A Rússia precisa importar um milhão de toneladas de carne suína só dos Estados Unidos a cada ano.  

Por isso, a autossuficiência no setor foi instituída como um dos pontos principais dos Princípios de Segurança Alimentar do Estado. Segundo foi estabelecido, até 2020 85% da carne e 90% do leite devem ser produzidos internamente. Isso significa um aumento de 20% da produção local.

O auxílio do governo vem na forma de créditos a baixo custo – sobretudo para manter os animais. Antes, cerca de 7 bilhões de euros saíam dos cofres de Moscou com destino ao setor agrário, número significativamente menor do que os valores observados na União Europeia. O bloco distribui 100 bilhões de euros aos agricultores anualmente. Mas, segundo John, “na Rússia, já se pode produzir a preços de mercado mundial”.

O país é atualmente um dos maiores importadores agrícolas do mundo. Embora os pastos russos sejam povoados por 11 milhões de vacas, o cenário ainda está distante dos 42 milhões de vacas leiteiras quando do colapso da União Soviética.

A importação de leite, soja e carne bovina ainda devem se estender por um longo período. Mas a Rússia pretende se tornar capaz de suprir a demanda interna de carne de porco em dez anos. Essa produção aumentou 8,6% nos últimos anos, enquanto a de aves subiu 10%.

Os grãos e a canola já produzem excedentes que são exportados. Em 2008, foram colhidas 108 milhões de toneladas de grãos. Embora em 2010 a colheita tenha caído para 60 milhões de toneladas devido à seca e aos incêndios, uma boa colheita é novamente esperada para 2011. Em comparação, a Alemanha produz cerca de 45 milhões de toneladas de grãos anualmente.

Valorização de 400%

Quem investe atualmente no setor agrário russo espera uma grande valorização do mercado. Em julho, um grupo tcheco-holandês comprou a empresa RAV Agro-Pro, que detém 160 mil hectares na região econômica de Tchernoziômni (em português, “de terra negra”), um dos tipos de solo mais férteis do mundo. O grupo acredita em uma valorização de 400% nos próximos anos.

446

milhões de dólares de recursos estrangeiros injetados em 2010

Há investimentos em empresas novas e já instaladas. Em 2008, cinco produtores alemães de sementes se uniram para formar a Aliança Alemã de Sementes, focada na Rússia. No entanto, grande parte das zonas rurais da Rússia ainda não é aproveitada. “A maioria das empresas é ineficiente. A área de Tchernoziômni poderia gerar um adicional de 40% ou mais à produção atual”, afirma o agricultor Serguêi Iarovôi.

77,9

milhões de hectares foram usados como áreas de cultivo em 2010

Os sinais de que o potencial é enorme estão por todos os lados. Não é raro que ele e John, ao  se embrenhar pelas fazendas, encontrem farta produção mesmo nas áreas onde caminhões de pesticida deixaram de pulverizar a plantação. No horário do almoço, a ceifeira, instrumento de colheita, permanece imóvel por horas. Além de só colher, em média, metade da produção, o custo para adquirir uma colheitadeira é consideravelmente maior na Federação Russa quando comparado à Europa Central. Esse tipo de perda de produtividade faz diferença. Mas ainda assim o negócio continua a valer a pena.  

Ineficiência

Outra razão para a ineficiência é a estrutura do agronegócio. As plantações de agricultores autossuficientes são muito pequenas, enquanto os conglomerados agrícolas existentes são muito grandes.

108

milhões de toneladas de grãos foi a safra de 2008. Seca diminuiu para 60 milhões a safra de 2010

Para um conjunto de empresas com campos tão vastos quanto cidades inteiras da Alemanha, é difícil controlar cada divisão ou gerenciar grandes variações de receita. Além do mais, as sociedades anônimas distribuem seus ganhos entre os acionistas. Logo, não existe uma reserva para as épocas de dificuldade.

Isso ficou claro com a crise financeira de 2008 e suas repercussões. Alguns conglomerados não puderam pagar salários durante meses. É por isso que especialistas agrícolas sugerem a estabilização a partir da camada mais baixa. A ideia é que pequenos agricultores constituam empresas familiares de médio porte e comercializem seus produtos.  

Mão de obra

Muitos pais, porém, como Olga Iuiúkina, não veem o futuro dos filhos na plantação. O filho de Iuiúkina cresceu em meio a tratores, feno e vacas. Agora ele irá para a cidade estudar. “Ele deve virar um administrador”, diz a mãe.

Já os agrônomos de grandes empresas se queixam da idade avançada dos trabalhadores rurais. “Não conseguimos encontrar um número suficiente de pessoas que sejam qualificadas e possam trabalhar com as tecnologias mais novas”, diz o agrônomo Aleksandr Musnik, que trabalha em uma empresa de agronegócios perto de Kursk chamada Soldatskaia. Depois dos estudos, poucos querem voltar à terra natal.   

“Não existem nem salas de cinema e só uns poucos restaurantes, e todos os nossos amigos vivem na cidade”, explica Serguêi Iarovôi, que é graduado. Ele trabalha na cidade de Voronej e só volta para a cidade natal aos fins de semana. Mesmo os profissionais formados em universidades agrárias não se sentem tentados a deixar as cidades e seguir para o campo em buscade salários mais altos. Aqueles que vivem em vilarejos são depreciativamente chamados de caipiras.

2010

Nesse ano a criação de aves aumentou 10% em comparação ao ano anterior

Por isso, a busca por profissionais qualificados tem ultrapassado fronteiras. “Sair do país não é algo que compense financeiramente para os russos bem instruídos”, diz John. Por outro lado, é interessante para os estrangeiros trabalhar na Rússia, e não apenas pelo dinheiro. “Vim porque considero a vida mais emocionante aqui”, diz o sueco Torbjörn Karlsson.

Ele não é o único. À noite, profissionais agrícolas da Alemanha, África do Sul e Suíça se encontram para tomar cerveja depois do trabalho em Voronej, onde estão localizadas suas empresas. Falam do preço de grãos, níveis de umidade do solo e experiências turbulentas com a polícia russa. Todos trabalham para diferentes conglomerados, mas, ainda assim, a concorrência não é grande. Por enquanto, as terras e os lucros bastam para todos.

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