Sokurov faz Veneza relembrar pacto com o demônio

Sokurov recebe prêmio máximo em Veneza Foto: AP

Sokurov recebe prêmio máximo em Veneza Foto: AP

O mais recente filme do aclamado diretor russo recebe prêmio máximo em Veneza, mas, para Sokurov, esses festivais são geralmente superestimados

A esperada obra cinematográfica de Aleksandr Sokurov, “Fausto” – inspirada na interpretação clássica de Goethe sobre a lenda alemã –, estreou na competição do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Segundo os críticos, o filme rodado em alemão, que levou o Leão de Ouro nesta edição do evento, pode muito bem reafirmar o lugar de Sokurov à mesa dos grandes diretores do cinema russo.

Porém, durante entrevista em sua cidade natal, São Petersburgo, antes de partir para Veneza, Sokurov disse que não estava ansioso para participar da mostra.   

O cineasta é, por si só, uma lenda dos festivais. Sua trilogia de filmes sobre ditadores – Hitler, Lênin e o imperador japonês Hirohito em “Moloch”, “Taurus” e “O Sol”, respectivamente – é uma espécie de prólogo para “Fausto”, um arquétipo da velha história do pacto com o diabo. Mas, antes disso, “Arca Russa”, filmado no museu Hermitage de São Petersburgo, já havia fascinado os adoradores de cinema artístico de todo o mundo em 2002.

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“Estive em diversos festivais, como o de Cannes e o de Veneza. Eu não gosto de estar nesses lugares e também não aprecio o sistema de competição”, disse Sokurov, em um parque próximo a sua casa em São Petersburgo. “Como você pode dizer que eu sou melhor que outra pessoa? Os diretores de renome não deveriam competir com novos cineastas”, completou. “Devemos dar espaço para os jovens”.  

Essa não é sua única crítica em relação ao sistema dos festivais.

“Quantas vezes você se depara com um júri no qual não conhece dois terços das pessoas que o constituem? Como isso é possível?”, disse. Darren Aronófski foi o presidente do júri deste ano, composto por sete membros. Ele é mais conhecido pelo recente thriller psicológico “Cisne Negro”, estrelado por Natalie Portman, e por “O Lutador”, que levou o ator Mickey Rourke de volta às telas de cinema. 

A sinceridade de Sokurov ao falar dos festivais é típica de sua personalidade. O diretor é conhecido por falar o que pensa. Os seus primeiros filmes foram proibidos pelas autoridades soviéticas, o que, de certo modo, lhe deu mais visibilidade internacional. A obra “Dolorosa Indiferença”, que escandalizou o governo russo e teve suas filmagens interrompidas diversas vezes, foi lançada somente em 1987. 

Sokurov diz que sua obsessão por ditadores e pelo próprio “Fausto”, que é ponto culminante d e sua tetralogia do poder, teve origem há 30 anos. “É incrível que tão pouca atenção tenha sido dada a Fausto”, disse. “Se qualquer político lesse Fausto, veria que tudo está ali. É como se tivesse sido escrito no século 21, e não no século 19”.   

O filme, que conta com um profundo embasamento histórico, foi rodado em locações na Espanha e na Islândia, onde foram construídas réplicas de cidades alemãs do início do século 19. 

Sokurov, uma figura cuja incapacidade de ceder o tornou mais festejado no exterior do que em casa, não recebeu qualquer financiamento do ministério da Cultura para fazer este filme – e por esse o motivo, “Fausto” chegou a correr o risco de não ser produzido. A verba só apareceu depois de o primeiro-ministro Vladímir Pútin se pronunciar em apoio às filmagens.

Por quê Pútin apoiou o filme ainda é um mistério para Sokurov, que se encontrou com o primeiro-ministro e reconheceu a importância da iniciativa do político. “O fato de esse filme retratar a vida de Fausto foi um fator importante”, acredita ele.

“Eu não sei se [o filme] vai realmente interessá-lo, embora ele saiba alemão e tenha proximidade com a cultura germânica”, disse. “Mas não entendo por que recebi essa ajuda, eu não sou partidário daqueles que sustentam a cultura política na Rússia”.  

Pelo contrário, Sokurov tem sido um defensor ferrenho da preservação da arquitetura histórica de sua cidade natal, disparando críticas ferozes ao governo de São Petersburgo – uma ópera que ele estava exibindo no Teatro Mikhailovski foi cancelada depois de Sokurov ter assinado uma carta condenando as políticas da cidade. 

“Eles me ligaram e perguntaram se eu queria que minha assinatura fosse tirada do documento, se eu não achava aquilo um erro”, disse. Sokurov se recusou. “No dia seguinte o espetáculo foi encerrado e eu fui demitido”.   

Sokurov também está na linha de frente da campanha para salvar o Lenfilm, o segundo mais famoso estúdio de cinema russo depois do Mosfilm. O estúdio pode passar a ser controlado pelo conglomerado de mídia do grupo Sistema Financial Corp, uma empresa de serviços ao consumidor chefiada pelo oligarca Vladímir Ievtuchenkov.

As promessas do grupo de preservar o estúdio foram recebidas com descrença por uma grande quantidade de diretores russos, que se pronunciaram contra a medida. Sokurov começou sua carreira no Lenfilm depois do seminal diretor Andrêi Tarkóvski, autor de “Andrêi Rubliov” e “Solaris”, ter enviado uma carta de recomendação ao estúdio. O Lenfilm de São Petersburgo é há muito tempo conhecido por ser mais solidário aos diretores de cinema artístico do que o seu rival Mosfilm. No entanto, o estúdio tem realizado poucos filmes por ano e enfrenta dificuldades.

“Eu não entraria pro Mosfilm, pois não é o tipo de estúdio que me agrada”, disse. “Quando Tarkovski morreu, os integrantes do Mosfilm ficaram bem contentes, pois o odiavam e tinham inveja dele”.

Sokurov disse que não estava ansioso para debater com os críticos sobre “Fausto” em Veneza. Ele também não simpatiza muito com essa classe. Uma das poucas exceções era a falecida Susan Sontag, que, segundo o diretor, tinha uma visão única sobre seus filmes, sempre adicionando algo ao seu próprio entendimento.

“Ninguém vai ser mais duro que eu nas críticas”, acrescenta. “Eu sei o que queria fazer e o que não funcionou melhor do que ninguém. Uma vez que eu começar a falar sobre as falhas de “Fausto”, ninguém vai conseguir me parar”, disse.  

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