A campanha política de Prôkhorov

Mikhail Prôkhorov Foto: Reuters/VostockPhoto

Mikhail Prôkhorov Foto: Reuters/VostockPhoto

Líder do partido Causa Direita defende a ausência de visto para viagens à Europa e a substituição do rublo pelo euro como prioridades do seu partido diante das eleições da Duma em dezembro.

A ausência de visto para viagens e a substituição do rublo pelo euro, ideias defendidas pelo líder do partido Causa Direita, o bilionário Mikhail Prôkhorov, são consideradas por analistas políticos como uma tentativa de atrair votos, e não montar uma oposição à atual situação política da Rússia.

A ideia de uma “grande Europa” foi sugerida pela primeira vez pelo primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, em um artigo para o jornal alemão Sueddeutsche Zeitung, publicado no ano passado. A proposta de Putin se referia aos obstáculos enfrentados pela Rússia para entrar na Organização Mundial do Comércio (OMC) que, segundo ele, eram impostos pelos países ocidentais.  

Prôkhorov disse que uma eventual mudança do rublo para o euro ofereceria mais segurança para a população, inclusive para os aposentados. Para ele, o rublo “jamais poderá se tornar uma moeda regional forte porque depende dos preços do petróleo e do gás”.

“O conceito de ‘grande Europa’ será explicado em detalhes na campanha política do Causa Direita para as eleições da Duma (câmara dos deputados na Rússia)”, disse Prôkhorov, acrescentando que a ideia seria apresentada para avaliação pública pouco antes de um congresso do partido em setembro. 

O líder do partido também deu conselhos sobre como escolher e combinar unidades monetárias para manter a poupança em alta.

A tentativa de se aproximar dos cidadãos comuns não surtiu o efeito desejado, já que, segundo ele, seria necessário “manter o equivalente a dois anos de salário em moeda local e dividir o restante igualmente entre dólares e euros”. Considerando que a média salarial era de 20,3 mil rublos por mês (US$680) em maio deste ano, o valor da soma de dois anos de salário chegaria a aproximadamente 480 mil rublos, quantia que excede (em muito) as economias da maioria dos eleitores.

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O magnata também confirmou que deseja ocupar o mais alto cargo da câmara, mas disse que só aceitaria o desafio se o presidente – independente de quem for – apoiasse as suas propostas. 

Em um discurso caloroso, Prôkhorov elogiou Mikhail Saakachvili, inimigo político de Putin e do presidente russo, Dmítri Medvedev, por ter implementado medidas anticorrupção bem-sucedidas. “A mais corrupta república da União Soviética praticamente se livrou da corrupção”, disse.

Prôkhorov também condenou a reação de algumas autoridades contra a campanha de promoção do seu novo site – made-in-russia.ru –, para a qual espalhou cerca de 900 outdoors por todo o país. Embora não estejam formalmente relacionados à campanha para a Duma, que só começará no outono, os outdoors que estampam o rosto de Prôkhorov foram vistos como um truque publicitário pré-eleitoral. Aproximadamente 230 cartazes foram recentemente removidos nas cidades de Novosibirsk e Ekaterinburg.   

Prôkhorov se referiu ao fato como “imbecilidade” e afirmou serem ações expedidas por autoridades locais que são fiéis ao partido governista Rússia Unida. Ele se recusou a dar detalhes sobre o custo da campanha e prometeu processar os oficiais das regiões onde os outdoors foram retirados, além de publicar suas identidades no site do partido Causa Direita.  

O Rússia Unida prontamente rejeitou as propostas de integração europeia sugeridas por Prôkhorov. “Ele pode ter se infiltrado na zona do euro, mas ninguém nos convidou a participar do grupo”, disse em tom sarcástico o oficial sênior Iúri Chuvalov. “Mesmo que fôssemos convidados, isso não significa que deveríamos aceitar o convite de bom grado, pois colocaria em risco a soberania da Rússia”, disse Chuvalov, segundo informações da Interfax. 

Aleksêi Múkhin, analista do Centro de Informações Políticas, disse que a proposta do euro foi uma jogada inteligente para alcançar os eleitores que estão além do círculo liberal do partido. “Embora o público liberal vá admirar a ideia, ela também encontrará apoio entre as pessoas de uma geração mais antiga, que, independentemente dos conselhos de Prôkhorov, sabem que é melhor guardar suas economias em euro do que em rublo”, disse Múkhin. 

Mesmo assim, ele admitiu que os eleitores ainda veem Prôkhorov – cujo patrimônio líquido é estimado pela revista Forbes em US$ 18 bilhões – como um oligarca, termo geralmente associado a capitalistas corruptos ligados ao governo.

Aos 46 anos, Prôkhorov não teve nenhuma experiência política antes de ser eleito líder do Causa Direita em junho, mas promete dar ao partido a segunda maior fatia na Duma com a soma de 15% dos votos. Para alcançar esse objetivo, ele terá um longo caminho a percorrer nos três meses e meio que restam para as eleições, já que, de acordo com as últimas pesquisas, o apoio ao partido gira em torno de 2%. 

A agressiva campanha do Causa Direita é um bom começo, mas pode não ter a eficácia esperada, já que, apesar do vínculo do partido com o Kremlin, as recentes declarações têm provocado a ira de funcionários em vários níveis do "poder vertical".

O partido foi criado em 2009 como um projeto pró-Kremlin, com a intenção de unir os eleitores liberais. Medvedev, um liberal autoproclamado, se encontrou com Prôkhorov logo após este se tornar líder do Causa Direita e chegou a elogiar algumas de suas ideias.

“A retirada dos outdoors indica que o Causa Direita pode ter incomodado os membros da elite dominante, que, em sua grande maioria, veem o bilionário como um audacioso arrivista político”, disse o analista Mark Feiguin. “Eles podem estar irritados com o fato de Prôkhorov ser um homem rico e ambicioso que pode estar indo longe demais, e querem segurá-lo um pouco”, disse, por telefone, Feiguin, membro de um movimento da oposição chamado Solidariedade.

Segundo Feiguin, o Causa Direita pode seguir os passos do partido esquerdista Rússia Direita, criado em 2006 com a benção do Kremlin. O intuito do partido era ser um desmancha-prazeres para os comunistas, mas caiu em desgraça neste ano quando, em vez disso, começou a angariar votos do partido governista Rússia Unida.    

“Além do mais, o apoio de Medvedev a Prôkhorov não será bem visto por Putin, que é membro sênior da bancada do governo e dirigente do Rússia Unida”, disse Múkhin. “Prôkhorov pode estar entusiasmado com esse apoio, mas isso poderia provocar a insatisfação do primeiro-ministro, que, por sua vez, é responsável pelo estabelecimento de todos os partidos do país”, completou. 


Mikhail Prôkhorov – o líder bilionário do partido Causa Direita – pretende criar uma nova elite nacional. Este é o principal objetivo do projeto Made-in-Russia (em português, ‘Produzido na Rússia’) recentemente apresentado pelo empresário.  A ideia é reunir pessoas talentosas que constituirão o “futuro político e empresarial da nação”. O porta-voz do Causa de Direita afirmou que o Made-in-Russia não tem nada a ver com as atividades políticas de Prôkhorov, mas os especialistas tratam o projeto como uma jogada pré-eleitoral. Alguns heróis do Made-in-Russia já foram apresentados: Nikolai Fomenko (presidente da Marussia Motors e diretor do departamento de engenharia da equipe da Marussia Virgin Racing), Evguêni Kasperski (Diretor-executivo e cofundador do Laboratório Kasperski) e Maksim Odnobliudov (Diretor-executivo e presidente do Grupo Optogan). “Precisamos voltar ao projeto de criar uma grande Europa, de Lisboa a Vladivostok", disse Prôkhorov. “A Rússia precisa dar um passo estratégico ousado em direção à Europa, entrando no espaço Schengen e na zona do euro”.  

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