Táxis ilegais deverão deixar as ruas de Moscou

Foto: RIA Nóvosti

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Nova lei direcionada de regulamentação de táxis entrou em vigor no dia 1o de setembro, mas poucos acreditam que vá alcançar os objetivos esperados.

Nova lei direcionada de regulamentação de táxis entrou em vigor no dia 1o de setembro, mas poucos acreditam que vá alcançar os objetivos esperados

Desde a última quinta-feira (1) os táxis clandestinos tiveram que deixar as ruas de Moscou – ao menos de acordo com a nova lei que entrou em vigor nesta data. A nova regulamentação vem sendo fonte de frequentes e calorosas discussões desde o dia em que foi anunciada. Motoristas de táxi promoveram protestos nas principais cidades da Rússia e enviaram petições ao primeiro-ministro.

A lei exige que os motoristas de táxi privados possuam uma licença e que os seus carros sejam equipados com taxímetro, luz laranja sobre o capô e listras quadriculadas pintadas nas laterais. Os carros também deverão passar por uma inspeção a cada seis meses, e cada região tem o direito de definir que os táxis daquela determinada área sejam pintados de uma mesma cor.  

O motorista deve ter licença há pelo menos cinco anos e deve preencher um recibo ou um modelo de relatório a cada corrida realizada.

De acordo com a nova lei, os táxis serão controlados por policiais de trânsito (GIBDD) e pela Rostransnadzor, a agência reguladora da segurança de transporte na Rússia. Eles tentarão flagrar táxis irregulares fingindo ser passageiros e filmando toda a operação.

Atualmente existem mais de 40 mil motoristas de táxis clandestinos somente em Moscou, segundo a União de Transporte de Moscou, uma associação das companhias de transporte da cidade. Estima-se que esses táxis ilegais faturem mais de 1 bilhão de rublos anualmente em isenção fiscal. Ao mesmo tempo, existem hoje apenas cerca de 9 mil táxis oficiais rodando pela capital.  

Como era de se esperar, as empresas de táxi regular de Moscou são grandes defensoras da lei. “A anarquia dos táxis privados, com seus motoristas sem experiência e sem conhecimento da língua russa ou da cidade, chegará ao fim”, disse Félix Margarian, diretor geral da Companhia Novo Transporte, que opera os táxis da marca Táxi Amarelo. “Os ilegais que vêm ocupando as áreas próximas aos terminais aéreos, estações de trem e estacionamentos perto dos shopping centers irão gradualmente legalizar suas atividades ou terão que sair do mercado. Tenho certeza de que a lei irá funcionar”.

Pessoas contrárias à nova lei argumentam que ela ignora os interesses dos trabalhadores autônomos. “A lista de exigências e documentos ainda está para ser aprovada. Colocar identificação nas laterais do carro ou uma luz não custa muito, mas o taxímetro já é outra história. Algumas pessoas dizem que o dispositivo pode ser comprado por 1,5 mil rublos, e outros dizem que basta instalar um programa no navegador. Se as restrições de cores foram realmente impostas, milhares de motoristas terão que repintar seus carros, e isso é caro”, disse Iaroslav Scherbínin, presidente da União Russa de Motoristas de Táxi.

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Segundo os motoristas de táxi privado, o principal problema da nova lei é que as licenças só serão concedidas àqueles que usarem carros próprios. Os motoristas que usam carros de terceiros com uma procuração não vão receber o documento. Além disso, não está claro como será realizado o check-up médico dos motoristas ou a inspeção de segurança dos veículos, nem onde esses testes serão feitos e quem irá administrá-los.

Praticamente todos os motoristas de táxi clandestino acreditam que a nova lei será ineficaz.   

Aleksêi Krikunov, que há vinte anos trabalha ilegalmente como taxista e não faz planos de regularizar sua situação, diz que a polícia dificilmente irá conseguir apreender um táxi ilegal. 

“Eu geralmente pego passageiros que estão indo para a minha região”, disse Krikunov. “Se um policial de trânsito me parar, posso dizer que se trata de um parente”.

Daria Bóldireva não se importa em usar táxis ilegais.  “Eu uso táxis da minha casa para o escritório. Há sempre diversos carros estacionados no mesmo lugar. Conheço muito bem todos os motoristas”, disse. 

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Mesmo os passageiros que pegam táxis com menos frequência não acham que o reforço da lei irá reduzir as corridas ilegais.   

“Metade dos carros que atualmente conduzem passageiros ilegais são táxis regularizados”, disse Anton Zaborov. “O motorista está trabalhando para essa ou aquela empresa, recebendo chamados da central, mas ainda assim se sente tentado a ganhar 300 rublos para pegar um passageiro sem documento. Eu não posso imaginar como essas leis mudariam isso”.

No entanto, Stanislav Krivocheiev, líder do Movimento dos Motoristas de Táxi da Rússia e chefe de reportagem do portal Taxist News, decidiu legalizar seu táxi.

 

Em breve, esse sinal será usado apenas para táxis completamente regularizados. Foto: Reuters/Vostock

“Conseguir uma licença em Moscou demorou menos de 20 minutos. O carro não foi inspecionado, e eu simplesmente preenchi a papelada”, disse. “Escolhi o taxímetro, um programa certificado e o instalei no meu GPS. Todos os procedimentos necessários levaram um mês e meio, e custaram 10 mil rublos. Resolvi seguir a regra por vontade própria, mas creio que a maioria dos motoristas de táxi vá achar mais fácil continuar trabalhando ilegalmente”. 

“Essas pessoas já são ilegais – os seus carros geralmente não possuem certificação, e eles são imigrantes ilegais – então é absurdo pensar que estarão preocupados com o fato de se tornarem ainda mais ilegais do que já são”, disse Zaborov. “A imposição de regras no mercado é sempre uma atitude louvável; isso torna os negócios mais transparentes. Mas não muda em nada a forma como a ilegalidade se apresenta na sociedade”.    

A lei pode, contudo, gerar um efeito colateral ao melhorar a imagem de Moscou como um destino de negócios e turismo. Alguns estrangeiros têm considerado a falta de táxis oficiais na cidade um problema. Empresários acostumados com Nova York ou Londres têm expectativa de que o centro de Moscou esteja cheio de táxis legais facilmente identificáveis. Os turistas, muitos dos quais não falam ou leem russo e se sentem intimidados com o metrô, geralmente enfrentam dificuldade ao tentar visitar os pontos turísticos por conta da falta de opções de transporte.  

Porém, alguns estrangeiros veem as corridas de táxis clandestinos como uma grande aventura. Tamara Smith, norte-americana que mora em Moscou há sete anos, contou ter começado a usar táxis ilegais por pura necessidade, apesar de seu receio inicial. Entretanto, de um modo geral, costuma gostar da experiência. 

“Conheci muitas pessoas interessantes que pegam passageiros para complementar a renda – cirurgiões, cientistas, e até mesmo um coreógrafo do Circo de Moscou! Pegar uma carona com eles foi uma excelente maneira de colher informações preciosas sobre como os locais se sentem em relação aos acontecimentos da atualidade”, disse Smith. Mas ela não se opõe à reforma. “Saber russo é essencial quando for preciso usar esses táxis clandestinos – logo, um sistema semelhante ao de Nova York ou de Londres seria muito mais conveniente e seguro”.

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