Tudo deveria ser combinado pessoalmente com Gaddafi

Foto: Getty Images

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As empresas russas na Líbia terão dificuldades em recuperar seu negócio, já que seus acordos anteriores com Gaddafi não têm mais validade e as novas autoridades líbias não lhes devem nada .

O ex-embaixador da extinta União Soviética na Líbia Oleg Peresípkin estimou os interesses da Rússia no país árabe em US$ 10 bilhões, incluindo projetos no setor de gás e petróleo no valor de US$ 3,5 bilhões, contratos de venda de material de guerra russo no valor de US$ 4 bilhões e o projeto de construção de uma estrada de ferro no valor de 2,5 bilhões de euros. As empresas mais ativas na região foram a Tatneft, a Gazprom e a Caminhos de Ferro da Rússia.

Em abril de 2008, a Líbia e a Caminhos de Ferro assinaram um contrato no valor de 2,5 bilhões de euros para a construção de uma estrada de ferro de alta velocidade, de 550 km de extensão, entre as cidades de Sirt e Benghazi. Com construção a cargo da Zarubejstroitecnologia, subsidiária da empresa russa, a linha férrea deveria estar concluída em 2012 ou 2013 e faria parte de um corredor de transporte internacional no norte da África.

Em junho do ano passado, entrou em funcionamento, na cidade líbia de Ras Lanuf, uma planta de soldagem de trilhos de ferrovias. No entanto, já em fevereiro, a Caminhos de Ferro teve de retirar urgentemente seus funcionários do país. “Era um contrato muito bom”, afirma o presidente Vladímir Iakúnin. “Investimos mais de 10 bilhões de rublos neste projeto para a contratação de trabalhadores, a compra de equipamento e a construção de equipamento ferroviário. Os contratos foram cumpridos, mas não temos quem os pague por eles!”.

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Como é prática usual, a Zarubejstroitecnologia executou as obras previstas pelo contrato com o dinheiro emprestado pela Caminhos de Ferro e deveria pagar sua dívida à companhia. No entanto, dada a presente situação na Líbia, isso dificilmente será possível. Segundo a prática universalmente aceita, a guerra não é um risco coberto pelo seguro.

“Temos medo de perder o dinheiro e o projeto”, continua Iakúnin. Para ele, a iniciativa da Caminhos de Ferro ajudou o governo russo a resolver, em parte, o problema da dívida líbia junto à Rússia pelo fornecimento de equipamento de guerra: o país pagava parcialmente o débito com a construção da ferrovia. “Agora só podemos constatar que o Estado não conseguiu defender os interesses das empresas russas na Líbia”, resume Iakunin.

“A proteção de que necessitamos poderia ter sido assegurada se tivéssemos um sistema de seguros estatal que protegesse os empresários russos contra riscos em regiões de interesses geopolíticos”, continua o presidente. “Quanto à retomada dos projetos, acho que esta questão não será resolvida nem em um ano. A Líbia não tem um governo real, com o qual podemos falar. Enquanto houver guerra lá, ninguém vai se importar com o desenvolvimento das indústrias civis locais.”

Gazprom 

 

Diferentemente da Venezuela, do Egito e da Argélia, a Líbia foi uma plataforma economicamente vantajosa para a empresa Gazprom. “Lá, houve um sistema de licitações e de venda de lotes de terreno muito bem organizado”, diz o gestor de uma das subsidiárias da companhia.  A empresa levou muitos anos tentando entrar no mercado líbio, conseguindo-o apenas em 2007 mediante uma troca de ativos da jazida de Iujno-Russkoie com a BASF: em contrapartida, a empresa russa ficou com 49% de participação nas concessões de petróleo C96 e C97 na Líbia. O parceiro foi a Wintershall, uma subsidiária alemã da BASF.



Em abril de 2008, a Gazprom assinou um memorando de cooperação com a Corporação Nacional de Petróleo da Líbia (NOC, na sigla em inglês), que lhe permitiu disputar licitações para a exploração de jazidas petrolíferas. No fim de contas, a empresa conseguiu o contrato para a realização de trabalhos de prospeção geológica nos locais licenciados de números 19 e 64.

A Gazprom levou três anos negociando com a italiana Eni a compra de uma parte de ações do projeto de petróleo Elephant, na Líbia, e só em fevereiro deste ano fechou um acordo sobre a compra de 16,5 % das ações por 163 milhões de dólares. O contrato devia ser submetido ao exame do governo líbio para o efeito de aprovação, mas começou a guerra e o negócio ficou congelado.

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“Por um lado, os preços de jazidas na Líbia eram bastante altos e as condições de acordos de produção partilhada bastante rígidas, sendo que o quinhão destinado ao investidor estava na faixa de 8%”, continua o representante da empresa. “Todavia, a julgar pela combinação de fatores, como uma infraestrutura boa e o acesso a jazidas, a Líbia era, pelo visto, o único país do gênero onde a Gazprom pudesse conseguir resultados”.

A situação atual do país é bem diferente: todos os projetos estão congelados, o pessoal foi evacuado e não sabemos o que acontecerá no futuro. “Pode ser que tudo já tenha ido pelos ares”, adianta uma fonte, avaliando em 5% a probabilidade de as empresas russas conseguirem retomar seus contratos anteriores nas mesmas condições e compensar os prejuízos sofridos, estimados na casa da centena de milhões de euros. “Os projetos que tocamos em parceria com a Wintershall estão, em maior ou menor grau, protegidos. Mas perdemos os demais, assim como o dinheiro neles investido” concluiu.

Outras empresas 

 

A Tatneft opera na Líbia há seis anos. Em outubro de 2005, obteve um contrato de concessão para a exploração de jazidas petrolíferas na bacia de Ghadamis (a 82-4) e, em dezembro do ano seguinte, venceu a licitação para a exploração de três jazidas nas bacias de Ghadamis e de Sirt, na condição de concluir um Acordo de Produção Partilhada com a NOC. Em 2011, a empresa planejava começar a exploração em grande escala. De acordo com um relatório de execução financeira, a empresa investiu US$ 43,8 milhões em seus projetos na Líbia no ano passado.

O porta-voz da empresa não quis comentar sobre os projetos da Tatneft na Líbia. “Lá, não havia altos burocratas de longa data”, diz o coproprietário de uma grande empresa petrolífera russa que não conseguiu obter um contrato no país. “As autoridades se revezavam constantemente em seus cargos, pois tudo devia ser acordado pessoalmente com Gaddafi. É o que todos faziam. Agora, todos os contratos celebrados sob o antigo regime serão anulados e as empresas russas estão na expectativa. Acho que vão buscar um acordo com o novo governo líbio. No fim de contas, o país precisa de uma estrada de ferro e alguém deve explorar suas jazidas petrolíferas”.

Enquanto isso, ao menos uma empresa já está colaborando com a “nova” Líbia. Segundo informações da agência Reuters, a suíça Gunvor deve fornecer gás liquefeito aos rebeldes líbios em Benghazi. Cerca de 30 mil toneladas desse produto já estão sendo transportadas pelo navio-tanque Norient Star, que deverá chegar à costa líbia em 31 de agosto. O representante de Tímchenko não comentou essa notícia. 

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