O parlamento russo dará guinada à esquerda?

Caricatura:Niyaz Karim

Caricatura:Niyaz Karim

Entrada da Frente Popular da Rússia na lista eleitoral do Rússia Unida, planejada por Pútin, poderá dar perfil sociailista à Duma de Estado. No entanto, pouca coisa deve realmente mudar.

As próximas eleições legislativas na Rússia não serão diferentes das campanhas eleitorais da época de Pútin, a não ser em relação a dois aspectos marcantes: o partido Rússia Unida vestirá as cores da Frente Popular da Rússia e, pela primeira vez após um hiato de 12 anos, um partido de tendência liberal, Causa Direita, terá a chance de alcançar o sucesso. Se a primeira novidade eleitoral foi idealizada por Vladímir Pútin, a segunda foi obra de Dmítri Medvedev.

Como líder do Rússia Unida, Pútin inventou a Frente Popular da Rússia apenas para camuflar a sua sigla, que está com a imagem e a reputação manchadas – não só pelas revelações do blogueiro Alexêi Naválni, que chamou a agremiação de “partido de burlões e ladrões”. O escândalo não foi além do raio de ação dos usuários de Internet na Rússia, que ainda são minoria no eleitorado nacional. O mais importante, porém, é que o povo começou a encarar o Rússia Unida como um partido de burocratas, alheio a seus reais anseios e problemas.

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A popularidade do partido de Pútin está caindo, segundo algumas pesquisas secretas. É claro que o Rússia Unida ainda tem condições suficientes de obter uma maioria simples – 50% mais um assentos – na Duma de Estado (Câmara Baixa do parlamento russo), mas seu objetivo é mais ambicioso: preservar a maioria constitucional, ou seja, conquistar novamente dois terços das vagas para deputados no parlamento federal.

Para a viabilização dessa meta, a imagem da sigla foi submetida a uma reforma com o objetivo de transformá-la em um legítimo representante de todo o povo e de toda a sociedade russa. Os métodos utilizados para esta metamorfose foram puramente burocráticos. Inicialmente, o partido uniu-se à recém-criada Frente Popular, que já contava com centenas de organizações sociais e sindicatos filiados. Os líderes e ativistas dessas organizações deverão ser incluídos na lista eleitoral do partido – nesta eleição, os deputados da Duma só conseguem se eleger desta forma. Além disso, Pútin e seus aliados prometeram aos seus ativistas 25% dos lugares na relação do Rússia Unida, em sua linha de frente. Com estas condições, eles têm grandes chances de se eleger.

Por causa deste acordo, burocratas e funcionários terão que dar lugar aos novos candidatos, proeminentes figuras públicas, incluindo os que não militam no Rússia Unida. É o sinal de uma estreita ligação do partido com a sociedade e o povo, como querem seus dirigentes? A verdade é que a sigla realizará a sua campanha eleitoral sob a bandeira da Frente Popular, que se servirá da ainda alta popularidade de Pútin, fundador e promotor da agremiação.

Esta manobra terá como consequência uma brusca virada à esquerda da retórica eleitoral do Rússia Unida, uma vez que a Frente tem em suas fileiras a Federação de Sindicatos Independentes e outras organizações sociais que, em sua maioria, têm foco em justiça social. Ao se eleger para a Duma de Estado, elas defenderão a implantação de variados benefícios para a população, o aumento das pensões e subsídios e o reforço da presença do Estado na vida do país.

Saída pela direita

 

A nova tendência esquerdista do maior partido do parlamento russo gera, inevitavelmente, a necessidade de um contraponto, de direita e de tendência liberal. Pelo visto, essa função caberá ao Causa Direita, que passou recentemente a ser liderada por um dos homens mais ricos da Rússia: o presidente do grupo Onexim, Mikhail Prôkhorov.

A ideologia personificada por esse grande empresário – ou seja, a liberdade para se fazer negócios, a retração do papel do Estado nos assuntos econômicos, a aposta em suas próprias forças e não na ajuda do Estado – não é muito popular entre a população russa. Mesmo assim, pelo menos 7% dos eleitores se declaram dispostos a apoiá-la, entre representantes da classe média e empresários de pequeno e médio porte. Até recentemente, este pessoal nem se dirigia às urnas ou votava no Rússia Unida, que preenche todo o espectro da política nacional: no partido, há tanto liberais quanto socialistas e nacionalistas.

Medvedev e Pútin não podem permitir que, na Rússia de hoje, exista um só partido. Eles precisam apresentar ao Ocidente um parlamento multicolor e multipartidário, em que haja tanto comunistas quanto liberais e anticomunistas explícitos. Prokhorov tem a missão de convencer seus eleitores em potencial a comparecer às seções eleitorais e a votar no Causa Direita. Para isto, o multimilionário conta com a ajuda de Medvedev, que já deu apoio à sigla reiteradas vezes. Esta iniciativa foi um sinal nem tanto para o eleitorado, mas principalmente para as comissões eleitorais de diferentes níveis e os titulares de cargo de nível regional: “Não incomodem o Causa Direita!”.

A experiência da política na Rússia mostra que, com uma ajuda de cima como esta, qualquer partido poderá passar para a Duma de Estado. Em 1999, este esquema deu resultado à União das Forças de Direita que obteve 8,52% dos votos. Em 2007, ocorreu o mesmo com o Rússia Justa, surgido literalmente do nada para obter 7,8% dos votos. Sendo assim, Prokhorov e o Causa de Direita podem conseguir aproximadamente o mesmo resultado. Não se espera nada mais do que isto.

Força descartada

 

Graças a tamanha movimentação, tornou-se desnecessária a existência da bancada parlamentar do Rússia Justa na Duma de Estado. Por isto, o líder da sigla, Serguêi Mironov, perdeu a confiança dos dirigentes do país. Seu partido, de tendência social-democrata ou socialista, era necessário à medida que o Rússia Unida desempenhava o papel de bancada dos conservadores de direita. Além disso, a agremiação devia ter servido de spoiler do Partido Comunista, mas falhou no cumprimento da missão. Então, dificilmente chegará novamente ao parlamento russo.

A verdade é que não há lugares na Duma de Estado para o Rússia Justa. É possível comprovar isso com um cálculo bem simples: o parlamento tem 450 lugares. O Rússia Unida deve ocupar 2/3 deste montante, cerca de 300 lugares. Ao que tudo indica, o Causa de Direita ficará com 30 ou 40 lugares. E ainda temos o Partido Comunista e o Partido Liberal Democrata, que deverão manter suas posições pela simples razão de que têm um eleitorado real.

Uma percentagem dos eleitores russos tem votado no Partido Comunista por causa de seu nome e de sua ideologia. Outra parte é eleitora do Partido Liberal Democrata porque se sente atraída pelo carisma de seu principal líder: o populista, demagogo e brilhante orador Vladímir Jirinóvski. Ele é capaz de angariar votos de protesto e convertê-los em lugares no parlamento – no entanto, assim que tomam posse, os integrantes da sigla assumem uma posição de apoio total ao governo.

Na verdade, Jirinóvski e seu partido são necessários exatamente para isso. O Kremlin e a Casa Branca (sede do governo russo) não podem permitir que os votos de protesto se direcionem para um político ou partido incontrolável. Tais agremiações, aliás, já tiverem acesso negado à Duma de Estado. A oposição real foi afastada ainda na fase preliminar da eleição, quando as autoridades se recusaram a registrar novas siglas, de esquerda ou de direita, de matriz ocidentalista ou nacionalista.

A última vítima deste processo foi o Partido da Liberdade do Povo encabeçado pelo ex-primeiro-ministro Mikhail Kassianov e pelo ex-vice-primeiro-ministro Boris Nemtsov. Mesmo que eles tivessem sido admitidos às eleições, teriam chances de sucesso muito pequenas. Ainda assim, os líderes de Estado não querem correr nenhum risco. Eles precisam de um parlamento totalmente controlado e, não importa como, atingirão o seu objetivo. Neste cenário, então, a troca de Mironov por Prokhorov, ou do Rússia Justa pelo Causa Direita, não deverão provocar nenhuma mudança. 

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