Alimento para a consciência

Foto: Kommersant

Foto: Kommersant

Há um crescente interesse pelos alimentos orgânicos na Rússia, mas muitas barreiras devem ser rompidas antes que esses produtos se tornem comuns nos supermercados de todo o mundo.

“Dois anos atrás, ninguém conhecia comida orgânica”, comenta Ivan Iakúchkin, vice-presidente do Fundo Cultural da Paz Mundial, grupo envolvido na promoção de cultivo e consumo de comida orgânica que é afiliado à Federação Internacional de Movimentos de Agricultura Orgânica.  Na Rússia, os consumidores mais antenados já começam a procurar supermercados e restaurantes que disponibilizam estes produtos.

 

Isaac Correa, proprietário do grupo Icon Food e dono dos restaurantes Correa's e Corner Burger e do café Upside Down Cake, em Moscou, e Ian Zilberkweit, diretor-executivo da filial russa Le Pain Quotidien, também garantem que mais gente está indo a seus estabelecimentos em busca de saber a origem e a forma de cultivo dos produtos vendidos ali. Segundo Correa, esse crescente interesse vem do fato de que as pessoas estão preferindo comer alimentos mais leves e frescos, demanda atendida pela comida orgânica. 

 

Leia mais:



- A hora dos orgânicos

 

Em uma cidade na qual preços mais altos geralmente são vistos como indicadores de qualidade, os alimentos orgânicos são bem mais caros.  No supermercado Azbuka Vkusa, em Moscou, por exemplo, o leite da Eto Leto de 750 ml custa 99 rublos (US$ 3,50).  Já na loja de produtos orgânicos Bio Market, o suco de laranja orgânico alemão custa 235 rublos (US$ 8) e apenas 100g do café instantâneo Clipper saem pelo exorbitante valor de 1.060 rublos (US$ 36). Num país onde o trabalhador comum ganha em média cerca de US$ 770 ao mês, comprar alimentos verdadeiramente orgânicos, a esses preços, acaba não sendo prioridade.

 

Mesmo pagando caro, muitos consumidores ainda correm o sério risco de levar gato por lebre. Na Rússia, qualquer empresa pode qualificar os seus produtos como “orgânicos” ou “naturais”, já que não existem leis para limitar o uso de tais termos. “Existem muitas mercadorias cultivadas de forma orgânica no país”, diz Zilberkweit. “São produtos que crescem em fazendas pequenas e sem uso de pesticidas. No entanto, ser ‘orgânico’ é apenas uma marca”.

 

“Para que esses alimentos realmente se tornem populares na Rússia, é necessário certificá-los. É preciso que as pessoas confiem na qualidade do alimento”, afirma Iakúchkin. “É preciso haver certificação adequada. Enquanto não houver, todo o movimento orgânico será negativamente afetado”. De acordo com Zilberkweit, na Rússia se presume que tudo é de má qualidade até que se prove o contrário. “Por esse motivo, o produto precisa ser adequadamente certificado para ganhar credibilidade no mercado”, completa.

 

“As pessoas precisam saber não apenas que se trata de um produto orgânico, mas também conhecer toda a origem daquele alimento”, explica Iakúchkin, levantando outra questão em torno do assunto. “Elas precisam acreditar que, se 1% da receita é destinada para o fazendeiro, esse dinheiro realmente cairá nas mãos do produtor. Talvez não sejam capazes de fazer doações para uma instituição de caridade ou trabalhos voluntários, mas podem fazer uma escolha simples no supermercado para ajudar o planeta ou um pequeno produtor”, continua. “Os russos não têm essa opção. Muita gente está pronta para comprar orgânicos, mas devem ter acesso a eles. O alimento orgânico não deve ser mais caro, a ideia é que seja mais simples”, acrescentou. 

 

É preciso mudar


Desenvolver na Rússia um padrão autêntico de certificação para produtos orgânicos e de fair trade – movimento social e modalidade de comércio internacional que busca o estabelecimento de preços justos, bem como de padrões sociais e ambientais equilibrados nas cadeias produtivas – poderia beneficiar os fazendeiros e os produtores, assim como os próprios consumidores.   

 

De acordo com Correa, apesar de os mercados não garantirem um fluxo constante de abastecimento de alimentos orgânicos, podem se tornar uma boa fonte de produtos do gênero para os restaurantes: "Eu poderia ir ao mercado e encontrar lá algum produto ideal para ser usado em nossos pratos, mas os produtos deveriam ser devidamente registrados", disse.

 

Iakúchkin ressalta que essa certificação poderia alavancar o potencial de exportação dos orgânicos. “Somos famosos pelo mel, que já é orgânico em muitos casos. Entretanto, uma vez que não há um padrão de registro, o potencial de exportação some”, ressalta. Na verdade, os produtos russos poderiam ser mais bem-sucedidos fora do que dentro do próprio país.

 

Em parte, as pessoas compram alimentos orgânicos porque querem fazer escolhas certas para si e para o planeta. Mas, para o diretor-executivo da Le Pain Quotidien, os russos têm uma conduta fatalista perante a vida, o que pode afetar a escolha dos produtos a serem consumidos. “Eles se sentem impotentes e deprimidos por causa de todo o sistema: têm a impressão de que, se quiserem fazer algo de bom, serão esmagados. Isso significa que a nossa população não se preocupa consigo mesma. As pessoas sentem que não têm poder de mudar as coisas”, finalizou.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.