Nova fase para antigas relações

Foto: Serguêi Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia. RG

Foto: Serguêi Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia. RG

As relações da Rússia com a América Latina e o Caribe (LAC) têm raízes profundas e que existem há séculos. Ao longo de sua longa trajetória, esse intercâmbio passou por altos e baixos – incluindo, algumas vezes, um duro confronto ideológico.

 

Apesar de todas as vicissitudes do destino, porém, estes povos nunca deixaram de ter interesse um pelo outro. A distância geográfica não se tornou um obstáculo ao respeito mútuo, à amizade e à cooperação em vários setores. Os países dos quais falamos são, de fato, civilizações únicas, com rico patrimônio histórico e cultural, além de um potencial econômico significativo.


De acordo com o conceito de política externa da Federação Russa, aprovado pelo presidente Dmítri Medvedev, desenvolver uma política de cooperação com os governos da LAC é uma das prioridades das atividades internacionais do país. A estratégia da Rússia para reforçar a multifacetada parceria tem objetivos em longo prazo e é baseada no pragmatismo e no desejo de se materializar em negócios concretos a atração mútua e a simpatia existente entre nossos povos.


Objetivos em comum

 
Russos e latinos estão unidos pela proximidade de pontos de vista sobre questões-chave da política e da economia mundial. Isto é de particular importância, uma vez que a LAC tem conquistado um peso cada vez maior nos assuntos internacionais, tornando-se um dos centros emergentes da ordem mundial. Foi concebida para se tornar mais democrático e estável, contando com ações coletivas e coordenadas à luz das normas geralmente reconhecidas do direito internacional e das tradições culturais e históricas.

 

Os principais Estados da região participam cada vez mais ativamente na formação da agenda global. Brasil, México e Argentina entraram no seleto grupo das vinte maiores economias do mundo. Com o Brasil, a Rússia também está trabalhando em cooperação, junto com China, Índia e África do Sul, no formato dos Brics. 

 

Os latino-americanos são nossos aliados naturais em questões como a necessidade de apoio às regras do direito internacional, o fortalecimento de mecanismos multilaterais para a resolução de problemas internacionais, o papel central da ONU e a busca de respostas coletivas aos desafios contemporâneos e aos problemas ambientais globais. Na prática, nossos pontos de vista coincidem em vários outros pontos: a reforma da arquitetura financeira global e as regras do comércio internacional, a importância do respeito à diversidade cultural e civilizacional e a não admissão de rupturas no que diz respeito à civilização.

 

Recentemente, o desenvolvimento das relações da Rússia com os governos da América Latina e do Caribe adquiriu uma forte dinâmica positiva. Nossos países têm demonstrado foco no alinhamento de uma cooperação intensiva com base na igualdade e nos benefícios mútuos relativos a uma ampla gama de questões.

 

Apenas nos últimos três anos, foram realizados 22 cúpulas e mais de 60 reuniões de alto nível, além de terem sido assinados mais de 70 documentos bilaterais – quase a metade dos cento e cinquenta assinados dos anos 90 para cá. Os encontros se tornaram regulares no que diz respeito a estruturas governamentais, diálogos interparlamentares e consultas entre os ministérios de Negócios Estrangeiros. Minha visita recente a El Salvador, Peru e Venezuela pretende dar um novo impulso no fortalecimento da nossa cooperação.

 

Aproximação por meio do comércio

 

Atualmente, a nossa tarefa fundamental é reforçar o diálogo político desenvolvido pelo sistema de relações comerciais e econômicas. É preciso dizer que o ritmo de desenvolvimento econômico da região é bastante elevado. O volume de negócios, que diminuiu no período da crise em quase um terço, chegando a US$ 12,4 bilhões no ano passado, atingiu US$ 7,4 bilhões nos cinco primeiros meses deste ano, dando a impressão de que o futuro será mais favorável.

 

É urgente não apenas revelar o aumento do volume de comércio, mas também a expansão de sua escala, em primeiro lugar, à custa de produtos de alta tecnologia. É bem conhecido que muitos países latino-americanos estão desenvolvendo alta tecnologia, incluindo a nuclear. Esforços conjuntos estão sendo promovidos em vários projetos promissores na área aeroespacial.

 

O interesse dos círculos de negócios russos na região é cada vez maior. Grandes empresas locais, como a Lukoil, a Gazprom, a UES RAO e a Russal, estão trabalhando no México, na Venezuela, na Bolívia, na Colômbia, nas Guianas, em Cuba. Além disso, negociações para aprofundar a cooperação com a Argentina, o Brasil, o Peru e o Chile estão em curso e estratégias para conectar as pequenas e médias empresas de ambas as regiões estão sendo estudadas.

 

Não é apenas o valor monetário

 

A criação de ramificações das relações interbancárias é um fator de aprofundamento da cooperação mútua entre a Rússia e os países da LAC. Já está em funcionamento o banco russo-venezuelano e foram assinados acordos decooperação com o russo Vnesheconombank e com a Corporação Andina de Fomento e com a Associação Latino-Americana de Instituições Financeiras de Desenvolvimento. A possibilidade de a Rússia aderir ao Banco Interamericano de Desenvolvimento também está sendo considerada.

 

Com satisfação, observamos a experiência positiva de cooperação em operações humanitárias, de salvamento e de assistência a países afetados por desastres naturais. Estamos trabalhando para estabelecer um centro regional do Ministério de Emergências russo na Venezuela, além de sistemas de alerta a situações de emergência e de eliminação de seus efeitos na Nicarágua. 

 

Restabelecemos as boas tradições do intercâmbio no campo cultural russo-latino-americano. Nos países da região, estão cerca de 300 mil dos nossos compatriotas, que atuam como peça fundamental para o lançamento de ações conjuntas humanitárias. O trabalho progride na área da educação, com a criação da Confederação Latino-Americana de graduados em russo.

 

A entrada de latinos sem visto na Rússia cresce gradualmente, o que contribui para a expansão das relações de negócios e do contato entre as pessoas das duas regiões. Há tratos de livre circulação com a Argentina, o Brasil, a Venezuela, a Colômbia, Cuba, a Nicarágua, o Peru e o Chile. Um acordo semelhante foi assinado com o Equador e outros estão em fase de desenvolvimento com a Guatemala, o Panamá e o Uruguai.

 

Como resultado disso, aumentamos a cooperação com todas as organizações políticas regionais, incluindo a Organização dos Estados Americanos. Conduzimos um diálogo político com o Grupo do Rio e promovemos contatos com o Mercosul, a Aliança Bolivariana para os Povos das Américas, o Sistema de Integração Centro-Americano e a Comunidade do Caribe. Observamos com interesse as atividades da União dos Estados Sul-Americanos e a formação da Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe, que têm todas as chances de consolidar os processos de integração na região para dar-lhes um denominador comum. Ressaltamos a importância de que Cuba esteja plenamente integrada na comunidade latino-americana.


Sem clichês ideológicos

Novas perspectivas motivam a cooperação multilateral no âmbito da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico). Em 2012, pretendemos reforçar iniciativas conjuntas, incluindo o desenvolvimento da infraestrutura comercial e econômica e a políticas de cooperação para a modernização das nossas economias e para a garantia de segurança energética.

Estamos convencidos de que o aumento da colaboração entre as duas regiões, que queremos construir em cima de princípios pautados no pragmatismo, na falta de ideologias, na igualdade e no benefício mútuo, responderá aos nossos interesses comuns. Esperamos que esse curso continue a encontrar uma repercussão positiva por parte dos nossos parceiros e que sua consistente realização evidencie que se consolide esta nova fase em nossos relacionamentos.


Serguêi Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia.

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