Romancista exilado, Dovlatov ganha museu

Foto: Vladímir Ruvínski

Foto: Vladímir Ruvínski

Admiradores restauram última morada de dissidente para reacender interesse por sua obra, que vive primeiro impulso na Rússia e começa a ser esquecida nos EUA.

Foto: Vladímir Ruvínski

O público do escritor Serguêi Dovlatov pode ter se dissipado desde sua morte, em 1990, em Nova York. Mas agora fãs e amigos mais abastados do soviético exilado reuniram-se para transformar em museu seu último lar na Rússia. O objetivo da empreitada é reavivar o interesse dos leitores pelo trabalho de Dovlatov, especialmente as obras de ficção que 25 anos atrás estampavam as páginas da revista The New Yorker.

A casinha simples na propriedade da família do aclamado poeta Aleksandr Púchkin foi paradeiro de Dovlatov em 1979. Antes de deixar a União Soviética, o escritor trabalhou como guia turístico na reserva florestal do poeta do século 19, no povoado de Mikhailovskoie (extremo oeste russo), onde alugou um quarto em uma casa de madeira.

Profundamente frustrado com as dificuldades em publicar seu trabalho, Dovlatov vivia na pobreza e atormentado por dívidas.  Sua experiência pessoal como um intelectual fazendo bico de guia virou a base do romance “Zapovednik” (“A Reserva Florestal”, 1983), considerado pela crítica como uma de suas melhores obras.

Prestígio estrangeiro

Muita coisa mudou desde que Dovlatov viveu na propriedade. As “multidões de turistas” que tiravam o autor do sério já se foram. “Sumiram junto com a União Soviética”, diz a gerente de um hotel literário local, Svetlana Kovschirko.

Quase todas as casas da região foram compradas por desconhecidos e reformadas, mas a em que Dovlatov viveu é uma das poucas exceções. Sua estrutura foi mantida porque os proprietários não tinham dinheiro para modernizá-la. Quando Dovlatov alugou um dos quartos, a propriedade pertencia ao lenhador Ivan Fiodorovitch e sua mulher, Elizaveta.

O cenário é associado à ficção de “Zapovednik” e também aos planos de emigração do escritor. Apenas um ano depois de chegar ali, Dovlatov partiu para encontrar a mulher nos Estados Unidos, onde enfim foi reconhecido.

Durante os anos 80, ele publicou histórias na The New Yorker e lançou uma sucessão de livros – tristes, irônicos e imbuídos de compaixão pelos seres humanos. Uma de suas maiores recompensas foi um comentário do poeta russo e Prêmio Nobel Joseph Brodsky, que disse valorizar a “silenciosa harmonia do senso comum” presente no trabalho de Dovlatov.

Descoberto em casa

Mais tarde, Dovlatov gozou de imensa popularidade em sua terra natal e a expressão “uma história de Dovlatov” passou a denotar um acontecimento paradoxal que resiste aos estereótipos. Os textos dele só chegaram ao leitores russos na década de 1990, depois de sua morte. Mas o senso de liberdade presente nas obras encontrou o ambiente certo para ecoar.

Há cerca de um ano, um grupo de admiradores adquiriu a propriedade, que se encontrava em estado deplorável. “Cães vira-latas entravam na casa pelos buracos do chão”, já havia descrito Dovlatov. E a situação pouco mudou desde que ele deixou o local.

Nos anos 1990, o proprietário Fiodorovitch morreu em consequência de alcoolismo e Elizaveta vendeu a pequena casa para Vera Khalizeva, uma aposentada de Moscou que mandou cobrir os buracos no chão com madeira compensada.

Hoje o piso está afundando e o teto é sustentado por vigas de madeira. Alguns dos objetos usados pelo escritor ainda estão presentes: uma cama de ferro, um banquinho de madeira e um pedaço de espelho. O papel de parede da década de 1970 continua a revestir o interior da moradia.

“Nossa tarefa é preservar tudo que existe ali, substituindo o que está destruído”, explicou à Gazeta Russa um dos envolvidos na restauração que não quis ser identificado.

“Os investidores são pessoas bem sucedidas que não têm nenhum desejo de lucrar”, explicou o representante dos novos proprietários, Igor Gavriuschkin. Segundo ele, o grupo é motivado “pelo amor e respeito a Dovlatov”.

Segundo Gavriuschkin, a ideia é ter a casa ao menos parcialmente reformada até 3 de setembro, data do 70° aniversário do escritor.

Os novos proprietários ainda esperam obter objetos pessoais de amigos e parentes do autor. Apesar das boas intenções, o próprio Dovlatov talvez não aprovasse um memorial em sua homengaem. “É sempre assim: primeiro eles acabam com a vida de uma pessoa, e depois começam a ir atrás dos seus pertences”, escreveu ele sobre Púchkin.


 

Serguêi Dovlatov

nascimento:  3 DE SETEMBRO DE 1941, UFA - URSS

morte: 24 de agosto de 1990, Nova York – EUA

Reprovado no curso de Letras (finlandês) da então Universidade Estatal de Leningrado - hoje Estatal de São Petersburgo -, Serguêi Dovlatov foi designado ao cargo de agente penitenciário durante o serviço militar. 

Sua história como escritor só começa de fato com a emigração para os Estados Unidos, em 1979, quando entra para a elite literária local.

Até 1989, um ano antes de sua morte, era um desconhecido na terra natal. Mas sua popularidade tem se invertido, e seus livros, antes acessíveis nos EUA, tornaram-se tão raros que hoje são vendidos por mais de US$ 100 no país.

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