Ipea identifica semelhanças entre Rússia e Brasil

Publicações oficiais  abordam  liberalização comercial e privatização Foto: AP

Publicações oficiais abordam liberalização comercial e privatização Foto: AP

Instituto do governo verde-amarelo realiza estudos que analisam as proximidades entre as duas economias, participantes dos Brics, sistemas políticos e atividades comerciais.

Apesar das diferenças culturais e históricas, Brasil e Rússia têm muita coisa em comum, especialmente em relação ao desempenho econômico das últimas duas décadas. Essa é a avaliação de um grupo de pesquisadores e de técnicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão ligado ao governo federal que voltou os olhos para o país do leste europeu há dois anos. O interesse cresceu na medida em que foram sendo identificadas semelhanças na economia das duas nações, nos últimos 20 anos. O resultado foi o lançamento de três publicações sobre o país nos últimos três meses.

A Rússia começou a ser estudada pelos técnicos do instituto por fazer parte, junto com Brasil, Índia, China e África do Sul, dos Brics - bloco de que se destaca pelo forte crescimento econômico. “Começamos com dois estudos de aspectos que poderiam ajudar o Brasil no futuro: gestão do petróleo, uma vez que o país é um grande produtor, e políticas de apoio à internacionalização de empresas”, diz André Pineli Alves, pesquisador que estuda a Rússia dentro do Ipea. Com o avanço dos estudos, os pesquisadores observaram uma série de semelhanças. “Vários problemas e experiências que a Rússia enfrentou também ocorreram no Brasil”, assinala Pineli Alves.

Os dois países, acrescenta, passaram por processos de liberalização comercial, privatização de empresas e serviços, políticas de combate à inflação, crises financeiras e aumento da participação do Estado na economia ao longo dos últimos 20 anos. Esses são alguns dos aspectos abordados no livro “Uma Longa Transição: Vinte Anos de Transformações na Rússia”, no comunicado “Ameaça ou oportunidade? Desdobramentos da crise financeira global para as empresas transnacionais russas”, e no boletim “Os condicionantes políticos de uma nova estratégia de desenvolvimento da Rússia”.

As publicações abordam ainda a transição política na Rússia, estratégias de desenvolvimento no período pós-crise, a internacionalização de empresas russas, o sistema bancário e a conjuntura político-econômica do país. O Ipea conseguiu articular uma rede de pesquisas com especialistas de outras instituições para viabilizar as publicações. Entre os estudos sobre países emergentes, as pesquisas sobre Rússia e China foram as que mais prosperaram na Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais. A expectativa do órgão é lançar um segundo livro sobre o país europeu, abordando aspectos como a modernização tecnológica, política industrial e desindustrialização. “Dessa forma, estaremos cobrindo praticamente todas as áreas de interesse”, aponta Pineli.

“O governo brasileiro tem intensificado os contatos com a Rússia. Procura-se conhecer a forma de pensamento do povo e dos dirigentes russos, o funcionamento de sua sociedade e dos sistemas político e econômico para saber como melhor se relacionar com esse país”, afirma Angelo Segrillo, coordenador do laboratório de estudos da Ásia no departamento de história da Universidade de São Paulo. Ele contribuiu para o livro do Ipea com um texto sobre os dois últimos presidentes russos, Vladímir Pútin, hoje primeiro-ministro, e Dmítri Medvedev. 

De acordo com Segrillo, os levantamentos do instituto oferecem uma “visão brasileira” sobre a Rússia e fornecem subsídios não apenas ao governo, mas também às empresas e organizações do país. “O estudo da experiência econômica russa pode ser muito proveitoso para o Brasil, tanto em aspectos bem-sucedidos quanto no sentido de aproveitar lições das políticas malsucedidas”, afirma Segrillo. A avaliação é reforçada pelo coordenador do centro de estudos russos da Universidade de Brasília, Paulo Afonso de Carvalho. “Como não estudar um país que, assim como o Brasil, é continental, apresenta um mercado interno dinâmico, depende de exportações de produtos primários, passou por experiências neoliberais depois fracassadas e por um processo de aumento da participação do Estado?”

 

Modelo diferente


Contudo, o parecer não é unânime. “A economia russa é própria. O modelo deles é diferente de qualquer outro”, afirma o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil–Rússia, Antonio Carlos Rosset. “A forma como Rússia superou problemas foi completamente diferente daquilo que o Brasil enfrentou. Não dá para o Brasil aprender com os russos. São realidades totalmente distintas”, completa. Mesmo no setor do petróleo o Brasil teria pouco a aprender. “As grandes jazidas na Rússia são controladas pelo governo, assim como no Brasil, mas a forma de explorar os poços e de administrar a extração é diferente.

Além disso, lá a extração é feita no continente, em condições climáticas inóspitas. Já aqui, ocorre em alto mar.” Mesmo assim, defende Rosset, o Brasil deve apostar na aproximação comercial com o país europeu e na troca de tecnologias. “É importante conhecer para explorar o mercado russo, seja na exportação ou na importação.” De acordo com Rosset, o Brasil engatinha em tecnologias dominadas pelos russos, como nas áreas ferroviária e de semicondutores.

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