Vinte anos depois, o urso voltou

Comitê Olímpico russo procura um novo mascote: o preferido é um animal igual ao amado Mísha, símbolo dos Jogos Olímpicos de 1980. Especialistas, porém, reprovam a escolha.

 

Durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 1980, milhares de espectadores cantaram, com lágrimas nos olhos, o hino não oficial dos Jogos: “Adeus, Querido Urso”. Ao som daquela triste melodia, o mascote – um urso de aspecto bondoso – subiu pelos céus de Moscou amarrado em balões. Vinte anos depois, ele parece estar de volta. A verdade, porém, é que o tempo afetou o seu caráter e a sua aparência. Além de parecer mais agressivo e determinado, também desenvolveu um forte espírito empreendedor. De acordo com os planos do Comitê Olímpico russo, a marca “Team Russia” (equipe Rússia) não apenas pretende unir atletas e torcedores, mas também tem como objetivo gerar receita para o orçamento olímpico.

 

O papel que o novo mascote do Team Russia vai desempenhar foi rapidamente definido. No fim de julho, o presidente Dmítri Medvedev anunciou que o país necessitava de um novo conjunto de símbolos esportivos de apelo universal. “Se tudo correr bem, nossa atuação nesse cenário será diferente”, concluiu ele. Como resultado, a agência de marcas Mildberry Sports apresentou, um mês depois, uma cara esportiva ao mesmo tempo nova e antiga. Entre outras opções, os designers preferiram usar marcas já existentes e dar a elas um novo sentido em vez de inventar novos símbolos, segundo disse Oleg Beriev, sócio-gerente da empresa, ao jornal “Védomosti”.

 

Beríev afirma que os russos identificam o urso como um símbolo nacional, mas o significado que os designers atribuíram ao logotipo é um tanto controverso. “A imagem seria adequada para uma equipe de rúgbi ou de boxe e tem uma mensagem clara: somos a Rússia e vocês devem nos levar a sério”, comenta Aleksêi Andréiev, presidente da Associação Russa de Agências de Marcas. “Mas, no fim das contas, o que vemos é um símbolo grosseiro. As nações mais poderosas do mundo, por sua vez, tendem a ser irônicas em relação a si mesmas”, completa.

 

“O urso em si não tem nada de errado, mas será que ele conseguiu refletir a proposta?”, comenta Della Bezeliánskaia, diretora do centro artístico Chorus. “A sensação é que os autores se viram pressionados a criar algo novo e chamativo e essa pressão resultou em algo artificial. O projeto norte-americano ‘Team USA’tinha menos ambição e, portanto, era mais autêntico”, destaca. 

 

Os fãs de esporte não se oporão à eleição do animal, mas têm dúvidas sobre a marca de modo geral. Um correspondente do Russia Hoy falou com alguns deles, que voltavam do estádio Lujniki, de Moscou, após uma partida de futebol. "Usaria esse logotipo todos os dias, mas sem as palavras ‘Team Russia’ nem o desenho tricolor”, declarou Anna, de 20 anos. Já seu namorado Oleg acredita que as cores patrióticas devem permanecer. “Não é uma roupa para usar na rua ou na academia. É uma bandeira de torcida de estádio, que grita e enlouquece”, garantiu.

 

Atualmente, poucos especialistas conhecem a marca “Team Russia”, mas, quando setembro chegar, o urso fará uma apresentação triunfal para todo o país. O Comitê Olímpico está preparando uma campanha publicitária em grande escala. O desenho do urso – que, aliás, ainda não tem nome definido – será estampado em outdoors e na TV, além de invadir a internet e, ainda, os uniformes esportivos dos atletas. Sua imagem agressiva também vai estar presente nos eventos esportivos populares, como o “Dia das Corridas” e o basquete de rua. 

 

Por enquanto, o desenvolvimento da marca custou 120 mil euros (US$ 170 mil) ao cliente e calcula-se que os custos com publicidade chegarão a uns US$ 5 milhões. Os números são meras estimativas, já que tudo vai depender da dimensão total do projeto. Os organizadores olímpicos estão convencidos de que tal gasto será recuperado e de que, muito em breve, o urso pardo irá injetar capital nos cofres do orçamento público russo.

 

“Esse tipo de marca já está funcionando em muitos países: ‘US Team’, nos Estados Unidos; ‘Italy Team’, na Itália; e ‘GB Team’, na Grã-Bretanha. São marcas que custam muito dinheiro e os anunciantes colaboram com elas ativamente”, destaca Fiódor Scherbakóv, diretor-geral da organização Professional Sports, responsável por angariar fundos para o Comitê Olímpico russo. 

 

Scherbakov prevê que, se as federações se unirem para promover a marca “Team Russia” em 2011 e 2012, será possível arrecadar até US$ 1 bilhão. É verdade que, até hoje, a agência só tem contratos assinados com a federação russa de esqui alpino, de snowboard e de golfe, mas, antes que o verão termine, espera-se fechar novos contratos com outras dez associações esportivas.

 

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