Rússia apoia ex-inimiga ucraniana

Policiais ucranianos cercam Iúlia Timochenko para prendê-la durante audiência no tribunal. Foto: Alexandr Prokopenko / Reuters

Policiais ucranianos cercam Iúlia Timochenko para prendê-la durante audiência no tribunal. Foto: Alexandr Prokopenko / Reuters

Iúlia Timochenko era odiada por Moscou, mas, agora que está atrás das grades, começa a ter suas ideias endossadas pelo governo russo.

Pouco tempo após a prisão de Iúlia Timochenko, ícone da Revolução Laranja e inimiga declarada do presidente ucraniano Víktor Ianukovitch, o Kremlin começa a demonstrar apoio às suas ideias. A tendência indica descontentamento do governo russo em relação às posições do governante do país vizinho, em quem apostou durante a revolta de 2004 que o alçou ao poder.

A mudança repentina não é tão estranha quando possa parecer, já que Iúlia foi colocada na cadeia durante o julgamento referente ao acordo de gás entre a Rússia e a Ucrânia, assinado por ela enquanto ainda era primeira-ministra, em 2009. Em declaração recente, Ianukovitch deu a entender que desejar rever o acordo, o que teria revoltado as autoridades russas.

A ex-primeira-ministra foi sentenciada a prisão preventiva pelo Tribunal do Distrito de Petchiórski, em Kiev, por desacato à autoridade durante o julgamento referente ao convênio estabelecido entre os dois países, em andamento desde abril. Ela desrespeitou os promotores e o juiz diversas vezes, acusando-os de promover um julgamento falso sob as ordens de Ianukovitch.

Embora não tenha explicitamente criticado a mudança, o ministro russo das Relações Exteriores manifestou sua desaprovação diante do caso e rejeitou as acusações contra Iúlia. “Todos os acordos de gás firmados em 2009 foram assinados em conformidade com a legislação de ambos os países e do Direito Internacional, além de autorizadas pelos presidentes da Rússia e da Ucrânia”, declarou ele em seu site. Em seu comunicado, ele também pede um julgamento “justo e imparcial” para a ex-primeira-ministra, seguindo normas e regulamentos humanitários básicos.

O Kremlin também não emitiu nenhuma declaração pública sobre o assunto, mas uma fonte não identificada da administração do presidente Dmítri Medvedev disse ao “Kommersant” que o caso terá “consequências duradouras” para Ianukovitch. De fato, a detenção de Iúlia foi também criticada pelo governo americano, pelos ministros das Relações Exteriores do Reino Unido e do Canadá e pelo líder do Parlamento Europeu, que demonstraram preocupação de que a prisão possa ser orientada por motivos políticos.

A ex-primeira-ministra e líder do bloco da oposição no Parlamento da Ucrânia, o Verkhovna Rada, pode pegar até dez anos de prisão sob a acusação de abuso de poder. Os promotores alegam que ela autorizou o acordo sem o consentimento obrigatório do gabinete ministerial.

Com duração de dez anos, o pacto, que elevou o preço pago pela Ucrânia para o recebimento de gás russo de US$ 230 para US$ 450 por mil metros cúbicos a partir de 2010, foi acertado após a chamada “guerra do gás”, durante a qual a Rússia cortou o fornecimento de gás ao país por alguns dias em janeiro de 2009.

Os promotores alegam que Iúlia foi chantageada a aceitar o acordo pela Rússia, que ameaçou usar um antigo caso de fraude contra ela. Seus adversários afirmam que a Sistemas de Energias Unificadas da Ucrânia, empresa chefiada por ela em meados dos anos 90, roubou US$ 323 milhões do Ministério da Defesa da Rússia, que contratou a organização num acordo relativo a materiais de construção para fornecimento de gás. Este processo foi encerrado em 2005.

Interesses eleitorais?


Ianukovitch vem repetidamente negando seu envolvimento no tribunal, mas muitos observadores, nacionais e estrangeiros, veem o caso como uma tentativa desajeitada de excluir sua principal rival das próximas eleições presidenciais na Ucrânia, em 2012.

Moscou apoiou o governante durante as eleições de 2004, que culminaram na Revolução Laranja e, por fim, o instalaram no poder, com Iúlia como primeira-ministra. Desde que se tornou presidente em 2010, ele firmou um acordo estendendo o leasing da Rússia na base naval de Sevastopol, mas, fora isso, seus projetos de cooperação se voltaram mais ao Ocidente. A Ucrânia também se negou a participar da união aduaneira entre a Rússia, o Cazaquistão e a Bielorrússia.

O analista político Serguêi Márkov, deputado da Duma (Câmara dos Deputados russa) pelo partido Rússia Unida, afirmou que a Rússia não estava apoiando Timochenko, mas sim tentando salvar o acordo de gás assinado por ela. “A Rússia não quer destruir as bases das relações econômicas com a Ucrânia”, disse ele, em entrevista por telefone realizada no último domingo. “Não sofremos qualquer decepção em relação a Ianukovitch, porque não temos ilusões sobre ele”, acrescentou. “Sabíamos que ele agiria em favor dos interesses da Ucrânia.”

Ianukovitch já afirmou que deseja rever o acordo de gás de 2009. O primeiro-ministro Azárov disse ao tribunal ucraniano, na semana passada, que a operadora nacional ucraniana Naftogaz vai sofrer um déficit de US$ 1,37 bilhão em razão deste contrato.

Não ficou claro por quanto tempo Timochenko continuará presa. Curiosamente, ela está sendo mantida no mesmo centro de detenção preventiva onde passou mais de um ano, entre 2000 e 2001, quando foi acusada de fraude no acordo anterior firmado entre a Rússia e a Ucrânia. O caso foi encerrado logo depois de ela se tornar primeira-ministra, em 2005.

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