Projeto de revitalização pretende acabar com imagem negativa do parque Górki

Embora já tenha sido o lugar favorito dos moradores de Moscou, o parque acabou caindo em desuso. Entretanto, a questão agora é outra: será que o bilionário plano de revitalização do local irá excluir a classe média russa das suas dependências?

O ônibus espacial decolou a caminho de sua jornada final, mas poucas pessoas o viram partir. Esta não foi a última odisseia do Atlantis, mas a de um ônibus espacial soviético, o Buran. Ele deixou o Parque Górki, antiga preciosidade da realeza da ex-União Soviética, pela manhã, em um barco ao longo do rio Moscou. Habituados a novidades, alguns moscovitas pararam para assistir à nave ser transportada para longe do seu antigo lar.

A remoção do ônibus especial, que tinha se tornado mais uma atração capenga do parque durante a década de 90, foi um dos primeiros sinais do ambicioso plano de 2 bilhões de dólares para revitalizar uma das poucas áreas verdes de grande escala – mais precisamente, 300 acres – do centro da cidade. A iniciativa é apoiada pelo bilionário empresário Roman Abramovitch e pelo prefeito de Moscou Serguêi Sobiânin.

O parque, que no inverno é mais conhecido por sua enorme pista de gelo ao ar livre, se tornou emblema da União Soviética quando os leitores ocidentais se apaixonaram pelo suspense “Parque Górki”, de Martin Cruz Smith, escrito em 1981. O romance começa com um passeio panorâmico pela pista; três corpos sem rosto e sem dedos são descobertos perto de algumas árvores próximas a esta área. O livro também apresentou aos leitores o detetive Arkádi Renko, que lutou contra a corrupção da elite em diversos romances. Mas não existiu um Renko na realidade; com as suas atrações aparentemente frágeis e pouco seguras, barracas ilegais de comida, infraestrutura decadente e um aspecto geral um tanto perigoso, o parque conquistou uma péssima reputação, geralmente sendo mais frequentado por turistas russos e estrangeiros do que por moradores da região. 

Serguêi Kapkov, assessor de Abramovitch que anteriormente dirigiu a Academia Nacional de Futebol, organização que financiou o desenvolvimento do futebol russo, ficou encarregado do parque e já prometeu a construção de uma roda gigante no estilo da London Eye, de Londres, no lugar da atual atração Monte Rushmore. Kapkov também anunciou um investimento de até dois milhões de dólares nos próximos dois a três anos, com a esperança de atrair até nove milhões de visitantes anualmente.

De acordo com a nova gestão, haverá uma concurso para determinar o arquiteto responsável pelo novo projeto do parque. Já é possível notar algumas mudanças simbólicas. A entrada para o parque é agora gratuita e uma rede Wi-Fi está disponível em toda a sua extensão. Uma pista de skate foi inaugurada e há planos de lançar um sorvete próprio, além de reduzir o asfalto que foi colocado no parque ao longo dos anos. Uma praia temporária também foi criada e um longo caminho ligará o parque às Colinas dos Pardais.

Revitalizando um parque em ruínas

 

 

O parque, projetado pelo famoso e vanguardista arquiteto soviético Konstantin Mélnikov na década de 20, foi criado com a intenção de ser um lugar para o público soviético relaxar e aprender – havia um teatro e um cinema – e atraiu multidões de moscovitas em uma cidade que, na época, tinha pouquíssimos lugares de lazer.

“Foi uma das poucas coisas bem executadas pelo soviéticos”, disse Aleksêi Klimenko, assessor independente para assuntos da cidade. “É um monumento nacional que, mais tarde, foi tomado pelo crime”.

“O atual plano de restauração do parque é prioridade do governo de Sobiânin”, disse um dos consultores do projeto, Ilia Oskolkov-Tsentsiper, do instituto de arquitetura e design Strelka. Segundo ele, pela velocidade com a qual o projeto está avançando, isso só poderia acontecer em Moscou.

“O parque Górki é maior do que o Hyde Park e pode ser melhor que ele”, disse Oskolkov-Tsentsiper. A comparação com o parque de Londres começou com o presidente Dmítri Medvedev, responsável pela nominação de Sobiânin no ano passado. A necessidade da capital ter um parque de verdade já tinha sido pauta de conversas.

“Estive em Londres há pouco tempo e dei uma olhada no Hyde Park. É um lugar muito bonito, é claro. Precisamos conversar com as autoridades de Moscou, para que construam o seu próprio Hyde Park”, disse Medvedev em 2009.

O estado deplorável do parque Górki é resultado de mais de uma década de subinvestimento, corrupção e exploração. Os primeiros planos de revitalização do parque foram discutidos em 2006 pelo então prefeito Iúri Lujkov, mas acabaram sendo engavetados depois de preocupações expressas pelas autoridades de que uma reconstrução sob o comando de Lujkov, para quem o terreno da construção era um dos prediletos, resultaria em enormes arranha-céus espalhados pela área.

“Mais de 50 dos quiosques que vendiam fast food e outros itens eram ilegais”, disse Kapkov, que ficou responsável pela remoção de tais estabelecimentos nos últimos meses.

A obra-prima construtivista projetada por Ivan Joltovski, "Hexágono", que um dia foi o maior cinema da Europa e agora está em ruínas, também será restaurada e promete ser uma das principais atrações.

A inauguração de um restaurante à beira da praia, chamado Praia das Oliveiras, deixou muitas pessoas se perguntando se o novo projeto irá excluir a classe média russa das dependências do parque. O Praia das Olivas foi inaugurado pelo grupo de restaurantes Projeto Guinza, que ficará responsável pelos demais estabelecimentos de comida do parque. A questão é que poucos, se é que algum, dos restaurantes do grupo em Moscou são estabelecimentos focados em famílias e acessíveis do ponto de vista financeiro, o que também é uma necessidade do parque.

Kapkov disse que a ideia é atrair uma grande variedade de pessoas e também receber aqueles que já o frequentam, como os fãs da autora inglesa J.R.R. Tolkien, que reencenam batalhas do livros de Harry Potter; os dançarinos de salão que se apresentam à beira do rio aos fins de semana; e os jogadores de tênis de mesa que treinam no parque há décadas.

De acordo com Klimenko, “é importante que o parque seja uma área pública e leve em consideração os interesses da sociedade”. 

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