Moscou oferece ajuda à Noruega

Soldado passa por bandeira norueguesa hasteada no que restou do mastro em frente à sede do governo um dia depois do duplo ataque extremista. Fonte: AFP/East News

Soldado passa por bandeira norueguesa hasteada no que restou do mastro em frente à sede do governo um dia depois do duplo ataque extremista. Fonte: AFP/East News

Depois do terrível ataque terrorista, Rússia estende a mão à Noruega, levando em conta a experiência adquirida em virtude da crescente onda extremista em casa.

Na última sexta-feira (22) uma bomba explodiu nos prédios do governo no centro de Oslo, causando a morte de pelo menos sete pessoas. Pouco tempo depois, um homem vestido com uniforme policial  abriu fogo em um acampamento de férias do partido governista, em uma pequena ilha próxima à capital, matando 86.

O ultranacionalista norueguês Anders Behring Breivik, 32, reivindicou a autoria do ataque e disse à polícia ter agido sozinho. Segundo ele, o “horrível, porém necessário” ataque foi planejado durante anos para difundir seus ideais de “conservadorismo cultural”.

Breivik já tinha publicado um manifesto on-line de 1,5 mil páginas criticando o multiculturalismo, os "marxistas culturais" e o "marxismo econômico" - os quais, segundo ele, destruíram a Rússia. Embora ligado a extremistas de direita nos últimos anos, Breivik não parece ter nenhum vínculo atual com grupos organizados, legais ou ilegais.

Ajuda russa    

                                                  

Um dia depois dos ataques, o governo russo prestou condolências à Noruega e ofereceu assistência na investigação sobre o ultranacionalista que admitiu ser responsável pelo duplo atentado que causou a morte de pelo menos 93 pessoas. "Medvedev propôs todo tipo de ajuda que a Rússia poderia oferecer à Noruega para superar esta tragédia", disse a porta-voz do presidente russo, Natália Timakova.

O presidente do Comitê de Assuntos Internacionais do Conselho Federal da Rússia, Mikhail Margelov, declarou ainda que a ajuda poderia incluir assistência na investigação, considerando a experiência russa no combate ao extremismo. “Infelizmente, temos construído um triste conhecimento nesse assunto”, afirmou Margelov à RIA-Nóvosti.
A polícia norueguesa não fez comentários sobre a oferta.

Tanto Medvedev quanto o primeiro-ministro Vladímir Pútin expressaram suas condolências, e dezenas de pessoas deixaram flores na embaixada da Noruega em Moscou e no consulado em São Petersburgo.

Aleksêi Vôlokhov, diretor de um acampamento de férias ligado ao partido governista russo na região do lago Seliguer, a cerca de 100 km da capital, disse, no domingo, que um ataque similar não aconteceria ali. Segundo ele, o Seliguer tem uma equipe de segurança com mais de cem funcionários e um sistema difícil de acesso, pelo qual não se pode passar sem identificação e checagem de malas.

Precedentes extremistas

Um incidente relativamente parecido aconteceu em Moscou, em 2003, quando duas mulheres-bomba islamistas provocaram uma explosão no festival de rock Krilia, causando a morte de 20 pessoas. As explosões não ultrapassaram os pontos de verificação da entrada - o que, segundo as autoridades, ajudou a evitar um número maior de mortes.

Embora os islamistas, e não os ultranacionalistas, venham sendo acusados pela maioria dos ataques na Rússia, os representantes de grupos de extrema direita do país disseram que os acontecimentos na Noruega podem ser usados pelas autoridades como um pretexto para intensificar a repressão.

“É o que indica a reação das autoridades ao redor do mundo”, disse o representante da Força Eslava, Dmítri Bakhariov.
O grupo definiu Breivik como “um herói branco” em seu site, e publicou um relatório dos ataques na Noruega acompanhado de uma citação do jornal on-line norueguês Nettavisen: “O ataque já era esperado, era só questão de tempo para acontecer.”
Bakhariov culpou as políticas liberais de imigração na Noruega pela tragédia. “A Noruega é um desses países que acolhem os radicais tchetchenos”, disse, referindo-se às dezenas de tchetchenos que se mudaram para a Escandinávia desde o fim da Segunda Guerra na Tchetchênia, na metade dos anos 2000.

“Breivik não estava envolvido com nenhum grupo radical; ele só não concordava com a situação existente, já que o seu país recebe todos os tipos de imigrantes de qualquer lugar do mundo”, disse Bakhariov.

No ano passado, a extrema direita norueguesa manteve fortes ligações com um membro da União Eslava, Viatcheslav Datsik. Ex-campeão de artes marciais já condenado por roubo, Datsik fugiu de um hospital psiquiátrico perto de São Petersburgo e foi detido na Noruega. Ele carregava uma arma, cuja origem nunca foi explicada de maneira convincente. Ajudado por ultranacionalistas locais, Datsik tentou obter asilo no país, mas acabou sendo deportado para a Rússia em março.

Líder do Veredito Russo, grupo público que presta apoio jurídico a radicais de direita, Aleksêi Baranovski afirmou não esperar que o governo assuma uma postura mais dura em relação aos ultranacionalistas russos depois do acontecimento na Noruega. “A situação já está dramática e tende a ficar ainda mais, e para isso nem há necessidade de qualquer outro fator externo”, disse.

O grupo de Baranovski auxiliou o casal de ultranacionalistas Nikita Tikhonov e Evguênia Khasis durante seu julgamento, mas não o impediu de ser condenado, em abril deste ano, pelos assassinatos do advogado de direitos humanos Mikhail Markelov e da jornalista Anastassia Baburova em 2009.

De acordo com Baranovski, o massacre da Noruega é um exemplo de como certas políticas do governo podem ser contraproducentes. “Alguns políticos deviam enxergar a atitude que a oposição nacionalista pode tomar caso não seja permitido seu acesso às eleições parlamentares”, disse. As eleições para a Duma (câmara dos deputados na Rússia) acontecerão em dezembro deste ano.

Na década de 2000, o Kremlin foi acusado de envolvimento com o movimento ultranacionalista diversas vezes, como na criação do partido nacionalista Rôdina, em 2003, apenas dois meses antes das eleições para a Duma. Mais tarde, o Rodina foi expurgado da política e fundido ao partido Rússia Justa em 2006. 

Não existem partidos nacionalistas no Parlamento norueguês - ao contrário do finlandês, que teve 39 assentos conquistados neste ano pelo direitista Partido dos Verdadeiros Finlandeses.

“Depois dos ataques na Noruega, os agentes da lei irão intensificar a vigilância contra os grupos de direita, com o intuito de manter a tranquilidade às vésperas das eleições para a Duma e para a presidência, em março do próximo ano”, disse o analista do Centro de Informações Políticas, Aleksêi Múkhin.

Segundo ele, os ultranacionalistas russos não devem seguir o exemplo de Breivik por receio de sofrerem retaliação, mas não se pode descartar a possibilidade de uma reprodução da cena. “Não dá pra se proteger de gente louca”, disse.


Reportagem originalmente publicada no jornal The Moscow Times.

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