Escolhida pelo Kamtchatka

Foto: Irina Dalétskaia

Foto: Irina Dalétskaia

Fotógrafa que registrou a península no extremo oriente russo por quase três décadas fala sobre seu trabalho à Gazeta Russa

Fotos:Irina Dalétskaia

“Não fui eu que escolhi Kamtchatka, mas sim Kamtchatka que me escolheu. Por isso, tenho a missão de apresentá-la para as pessoas”, conta Irina Dalétskaia. Ela é uma mulher bonita e elegante, do tipo que seria difícil imaginar imersa nas condições difíceis do norte do país, lutando contra fortes geadas e nevascas.

“É uma região única, selvagem e primitiva, uma espécie de museu a céu aberto. Acredito que nosso planeta era assim quando a vida surgiu”, continua. “No entanto, é muito complicado chegar a alguns dos lugares mostrados nas fotos, porque é preciso um helicóptero”, disse.

Quando estudava geologia na Universidade de Kiev, na Ucrânia, Irina já sonhava em viajar para Kamtchatka. “Nas poucas fotos que estavam disponíveis naquela época, esta fantástica região me surpreendia e atraía como um imã”, contou. Após receber seu primeiro salário em uma expedição às áreas próximas ao Pólo Norte, Irina foi ao encontro do seu sonho, acompanhada apenas por uma máquina fotográfica.

Nesta viagem, ela conheceu doutor em ciências Aleksandr Sviatlovski, que se impressionou com a capacidade da jovem geóloga de capturar a beleza da natureza em suas fotos icônicas. Então, ele a incluiu como integrante da expedição que havia organizado para produzir o álbum “Os Vulcões Ativos de Kamtchatka”.

Lá, Irina trabalhou ao lado do proeminente fotógrafo soviético Vadim Guippenréiter, que acabou se tornando seu professor. “Quando trabalhei com Guippenréiter nos mesmos lugares, até dentro do mesmo helicóptero, meu objetivo era criar um estilo próprio. É muito difícil estar ao lado de um mestre e buscar novos enfoques sobre o mesmo objeto, com um tom pessoal”, contou.

O tempo acabou confirmando o talento de Irina. “Para mim, ela foi a única pessoa que conseguiu encontrar um estilo próprio na hora de fotografar Kamtchatka”, disse o fotógrafo Vladímir Zikov. “Consegue encontrar perspectivas de uma forma magistral, além de ser extremamente criativa”.

Em relação às fotografias de lugares selvagens e poucos acessíveis, Dalétskaia salienta que, às vezes, por trás de uma imagem há vários anos de trabalho e horas de voos de helicóptero. Se o roteiro planejado para um retrato em particular não puder ser realizado, a próxima tentativa acontecerá apenas no ano seguinte.

“Em 2008, após diversos anos de tentativas, pude finalmente captar o momento exato da erupção do vulcão Karimski, que estava inativo havia cinco meses”, contou ela. “Após um árduo dia de trabalho, por causa do frio, do vento e da caminhada que fizemos carregando uma mochila pesando 20 quilos, passamos a noite à espreita.

Com todo o equipamento preparado, não tirávamos os olhos do vulcão, esperando pela erupção, que poderia nem acontecer. O Karimski entrou em atividade às 4h, iluminando o céu, pois vários raios se formaram devido à fricção das partículas das cinzas. A erupção durou um pouco menos de um minuto e, no dia seguinte, o vulcão voltou a ficar calado, continuando assim por um bom tempo”, completou.

Momentos únicos

De cada uma de suas expedições, Irina carrega consigo uns três ou quatro “achados”, obras-primas obtidas por um acúmulo, difícil de repetir, de condições da natureza. “Essas imagens não são milagres de uma lente ou do computador, mas uma combinação de elementos únicos da natureza associados a raríssimos estados da atmosfera. Os fenômenos naturais superam todos os meus planos”, confessou.

Em suas inúmeras expedições, a fotógrafa já criou um plano detalhado sobre como deseja mostrar Kamtchatka ao público. “O álbum que vou lançar deve conter todos esses ‘achados’, que ainda não tenham ficado comuns e representem um grande acontecimento para a geografia”, garante.

Para não violar a integridade do seu plano, antes de publicar o álbum fotográfico, Irina se negou a colaborar com a Cobris, uma agência fotográfica de prestígio, mesmo nos tempos difíceis da perestroika. “Nessa época, eu não tinha de onde viver, como muitos outros, mas agi de forma consciente para preservar a exclusividade do meu material”, afirma.

“Pago para trabalhar, e não o contrário”, prossegue a fotógrafa. “Todo mundo gasta dinheiro em carros, casas ou cruzeiros, enquanto eu invisto todos os recursos possíveis e impossíveis na realização do projeto da minha vida. É o projeto da minha vida: mostrar que Kamtchatka é uma obra-prima do nosso planeta”, disse.

O caráter criativo das fotografias é, para ela, resultado de momentos surpreendentes de fusão com a natureza selvagem. “Um dia, estávamos tirando fotos quando uma ursa e seus filhotes se aproximaram de nós. O guarda-florestal ficou alerta. A ursa rugiu, mandando os filhos se sentarem perto do grupo, e foi pescar. As crias, obedientes, começaram a brincar, sem sair daquele lugar, e ficamos fascinados por protegê-las enquanto a mãe estava ocupada”, contou. Vale lembrar que os ursos machos são canibais e, portanto, representam um perigo grave para os filhotes.

De acordo com Irina, os ursos têm personalidades muito distintas, assim como as pessoas. Os guardas e os fotógrafos colocaram apelidos nos filhotes levando em conta o comportamento de cada um. “Um dos ursos, por exemplo, que mergulhava fundo, foi batizado de ‘o mergulhador’”, contou a fotógrafa. “Essa característica se tornou uma vantagem competitiva, pois ele não passava fome, enquanto os demais ficavam mais na superfície e à espera de um peixe”.

 

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