Quem pode substituir Hugo Chávez?

Caricatura:Niyaz Karim

Caricatura:Niyaz Karim

No auge do poder da rica em petróleo Venezuela por mais de 12 anos, Hugo Chávez Frías é conhecido por seu excepcional dinamismo. Tem grande interesse nos assuntos internacionais e passa muito tempo ocupado com assuntos além das fronteiras do seu país. Suas ausências prolongadas e seus calorosos discursos, feitos durante horas a fio, se tornaram parte do cotidiano político. Embora ninguém o controle, um fato inesperado aconteceu recentemente. No mês passado, após o desembarque em Cuba, depois de visitar o Brasil e o Equador, o presidente foi internado em uma clínica de Havana.

Desde então, as informações sobre a saúde do presidente venezuelano têm sido extremamente sucintas e lacônicas. A princípio, ele teria apenas sido submetido a uma intervenção cirúrgica simples e estaria em processo de recuperação. Ao mesmo tempo, recebia a visita de companheiros e familiares, incluindo sua mãe e seu irmão mais velho, além de filhos e netos, o que levantou dúvidas sobre a veracidade das declarações oficiais sobre o seu real estado de saúde.

O jornal New Herald, de Miami, colocou mais fogo na situação, citando fontes do serviço de inteligência norte-americano para declarar que Chávez havia descoberto um câncer e se encontrava em estado grave. Oficiais de Caracas, porém, qualificaram prontamente a informação como calúnia.

A situação só foi esclarecida no fim do mês de junho, em um discurso televisionado à nação venezuelana, em que o próprio Chávez esclareceu a situação, reconhecendo que havia sido operado duas vezes de um tumor maligno. “Agora,” disse ele, “a saúde não apresenta perigo, embora seja necessário um tempo para a recuperação”.

É evidente, no entanto, que o chefe de Estado dificilmente conseguirá cumprir plenamente suas múltiplas e complexas funções nesse estado. Diante da situação – e em um país que já vive há algum tempo sem a presença constante de sua autoridade máxima – surge naturalmente a pergunta: quem poderia temporariamente substituí-lo?

De acordo com a constituição vigente, aprovada no referendo de 1999, no caso do chefe de Estado estar impossibilitado de cumprir com suas obrigações por um longo período, o poder é transferido ao vice-presidente. Este cargo é hoje ocupado por Elías Jaua, um sociólogo e professor universitário de 42 anos que participou ativamente da elaboração da Constituição e da criação do partido oficial do governo. Também já ocupou cargos de responsabilidade nos ministérios da Agricultura e da Economia Popular e chefiou a administração presidencial. Entretanto, como ele foi nomeado ao cargo, e não eleito, é possível pensar em outros postulantes a essa posição.

Candidatos

 

Dentre as pessoas que poderiam assumir o cargo de presidente da Venezuela, Nicolás Maduro merece certo destaque. Com 48 anos de idade, o político é, desde 2006, ministro das Relações Exteriores e vice-presidente do Conselho de Ministros. Antes disso, atuou como presidente do Parlamento do país. Viajou várias vezes a Cuba para informar a sociedade sobre o estado de saúde de Chávez.

Cilia Flores é a advogada responsável pela redação do decreto que livrou o presidente venezuelano do inquérito judicial aberto pelo seu envolvimento na revolta contra o então governante do país, Carlos Andrés Perez, em 1992. Posteriormente, foi eleita deputada e hoje é presidente da Assembleia Nacional, onde lidera o bloco do Partido Socialista Unido. É casada com Nicolás Maduro.

Rafael Darío Ramírez Carreño, um engenheiro de 48 anos formado pela Universidade Andina, é o experiente e poderoso ministro do Poder Popular para Energia e Petróleo. Desde 2004, combinou, de maneira inédita no país, essa função com a presidência da estatal PDVSA, petrolífera venezuelana que garante uma renda fabulosa aos cofres públicos. Carreño é considerado o segundo homem do governo e goza de excepcional confiança por parte do presidente.

Há também Diosdado Cabello, vice-presidente do país em 2002, quando substituiu temporariamente Hugo Chávez por 48 horas em virtude de um fracassado golpe direitista. Ele, que já havia ocupado diferentes cargos de destaque, decidiu, naquele momento crítico, enviar paraquedistas para garantir a libertação do colega.

Por último, temos Adán Chávez, irmão mais velho do presidente, cujas concepções são até mais radicais do que as dele. Na época em que era embaixador em Cuba, contribuiu muito para o reforço das relações com o referido país. Também atuou como ministro da Educação e diretor da administração presidencial. Atualmente, é governador de Barinas, seu estado natal. O jornal norte-americano The New York Times já adiantou a hipótese do irmão assumir o cargo de Chávez, imitando, assim, o caso de Cuba.

Todos são, na verdade, pessoas dignas do cargo, mas cabe lembrar que se espera qualquer coisa do imprevisível Hugo Chávez. Há rumores de que ele esteja também preparando a sua filha María Gabriela.

Embora o câncer seja uma doença grave, tem possibilidades de cura. Portanto, não se exclui a possibilidade do voluntarioso ex-coronel Chávez, que por três vezes (1998, 2000 e 2006) superou os seus concorrentes em eleições presidenciais, volte a ocupar o cargo político máximo da Venezuela. Neste caso, como não se lembrar da nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff? Apesar de ter descoberto uma doença similar, hoje ela conduz o destino da grande potência latino-americana. Uma situação parecida também ocorreu com o presidente paraguaio Fernando Lugo.

Por todos esses fatores, fica difícil adivinhar o que acontecerá com a Venezuela em um futuro próximo. Uma coisa, contudo, está clara: seria um absurdo permitirem que o presidente governasse a distância por um longo tempo.

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Emil Dabaguián é pesquisador científico, diretor do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia e Grã-Cruz da Ordem de Francisco de Miranda (Venezuela).

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