Prôkhorov impulsiona agenda de negócios

Mikhail Prôkhorov/Foto:RIA Nóvosti

Mikhail Prôkhorov/Foto:RIA Nóvosti

O ambicioso programa de privatização do Kremlin foi impulsionado pela eleição do bilionário Mikhail Prôkhorov para a liderança do partido Causa Direita e pelo compromisso assumido por Aleksêi Kúdrin, ministro das Finanças, de avançar com as vendas das empresas estatais depois das eleições de 2011-12.

Sem qualquer oposição, Prôkhorov foi eleito líder do Causa Direita, no sábado, dia 25 de junho, em uma conferência realizada em Moscou, reforçando a ala direita dos principais círculos governamentais que, segundo especialistas, está pronta para o desafio de adquirir mais poder nas próximas eleições.  

Na conferência sobre investimento do banco Renaissance Capital, na última segunda, 27, Kúdrin estabeleceu planos para estender o programa de privatização de 30 bilhões de dólares, incluindo, assim, ativos do Estado nos setores de aviação, petróleo e bancos.

“Dentro dos próximos 3-5 anos, o governo deve retirar o seu controle sobre as principais empresas nas áreas de finanças, petróleo e telecomunicações, bem como no que se refere ao transporte”, Kúdrin disse aos investidores durante a conferência em Moscou.

“A Aeroflot, a maior companhia aérea da Rússia, está no topo da lista de empresas candidatas à privatização,” contou aos jornalistas em um momento paralelo à conferência. “A receita gerada pela primeira fase da privatização pode atingir a marca dos 30 milhões de rublos nos próximos três anos,” acrescentou, “e aumentar em até 50 por cento depois da segunda parcela.”

Durante o seu discurso na conferência, o conselheiro econômico do presidente Dmítri Medvedev, Arkádi Dvorkovitch, pediu um rápido aumento do pluralismo político, para assim avançar com a modernização econômica.

“Precisamos ter uma maior concorrência política”, disse aos investidores presentes na conferência de segunda-feira. “Vemos que novas forças políticas estão entrando na arena, os políticos estão se tornando mais ativos. Isso nos permite ter mais esperança de que novas decisões serão tomadas como resultado de sérias discussões, e de que as resoluções serão mais previsíveis e equilibradas. Mesmo assim, como em qualquer outro país, também pode fazer com que o processo se torne ainda mais lento.”

Outro partido no poder


As declarações foram feitas dois dias depois de Prôkhorov ter sido eleito líder do Causa Direita. Prôkhorov afirmou ter planos de tornar o partido liberal o “segundo partido no poder”, atrás do Rússia Unida do primeiro-ministro Vladímir Pútin.

Embora a candidatura de Prôkhorov pela liderança do Causa Direita – partido de direita visto por alguns críticos como um fantoche do Kremlin – tenha levado semanas, a sua eleição como presidente do partido é um marco, pois, pela primeira vez, um grande empresário entra abertamente na arena política desde as tentativas frustradas do diretor da Iukos, Mikhail Khodorkovski, em 2003. 

Prôkhorov, que anteriormente sugeriu uma carga de trabalho de 60 horas semanais,  fugiu da ideia de atingir apenas o eleitorado ligado aos negócios.

“Não seria correto”, disse ao jornal Kommersant, “ser um partido dos negócios e da intelligentsia”.

“E o slogan anterior do Causa Direita – capitalismo para todos – deve ser extinto”, disse Prôkhorov.

“Não é verdade, não acontece dessa forma. O capitalismo é para as pessoas que gostam de assumir riscos, e um governo justo deve oferecer ao povo apoio e garantia social”, afirmou.

Prôkhorov também disse que o partido tem uma proposta clara e ambiciosa – “entrar na Duma (Câmara dos Deputados na Rússia) com o maior número possível de votos.”

Como o próprio partido, os seus eleitores são “chefes de família – homens e mulheres que tomam decisões importantes todos os dias.”

Ele acrescentou que se recebesse a proposta para assumir o cargo de primeiro-ministro de Pútin, ele não recusaria a oferta.

De acordo com alguns analistas, a agenda do partido, a qual Prôkhorov se refere, colocou-o em uma posição favorável para promover algumas das reformas de mercado menos populares que os principais liberais do governo, como Kúdrin e Dvorkovitch, estão almejando.

“Se e quando o Causa Direita entrar na Duma, é possível que as medidas socioeconômicas menos populares que estão sendo discutidas como parte do programa 2020 sejam realizadas por alguém deles”, disse Nikolai Petrov, analista político do Centro Carnegie de Moscou, ao The Moscow News. “Na minha opinião, seguindo a lógica do Kremlin, uma força liberal deve desempenhar o papel de um kamikaze – liderar um governo que irá adotar medidas impopulares, para depois ser substituído. Pelas palavras de Prôkhorov, ele poderia desempenhar um papel neste contexto”, disse.

Não é oposição


No entanto, os comentários de Prôkhorov deixaram claro que, embora seja necessário renovar o sistema político, não há intenção do partido se opor ao status quo.

“Precisamos tirar a palavra ‘oposição’ do nosso vocabulário”, sugeriu, em uma reportagem publicada no jornal Kommersant. “Afinal, para os nossos cidadãos, a oposição não está tão associada aos partidos políticos, mas aos grupos marginais que há muito tempo perderam a noção de realidade.”

Em uma evidente ruptura à retórica de oposição dos líderes anteriores do Causa Justa – que incluía membros da União das Forças de Direita – , Prôkhorov afirmou que não há nada errado em formar uma coalisão com o Rússia Unida, se ambos os partidos têm visões semelhantes sobre algumas questões.

Os analistas afirmam que essa medida está alinhada ao papel do governo, que deve monitorar de perto a formação do partido.

“Coisas como essa são sempre acertadas e aprovadas previamente”, disse Olga Krishtanovskaia, sociologista e coordenadora da ala liberal do Rússia Unida, ao The Moscow News. 

Os principais funcionários do governo de Pútin – incluindo Aleksêi Kúdrin e o primeiro vice-premiê Igor Chuvalov – tinham sido anteriormente apontados como possíveis candidatos à liderança do Causa Direita.

O anúncio de Prôkhorov, em maio, de que estava interessado no cargo, teria sido precedido por reuniões primeiro com Medvedev e depois com Pútin, nas quais discutiram planos para o partido. 

Medvedev, que já havia apontado Kúdrin como um bom candidato para ocupar a posição, disse em entrevista ao Moskovskie Nóvosti, na última quinta-feira, 23, que Prôkhorov possuía “pontos fortes e fracos” como líder, e que era muito cedo para falar como ele se sairia no Causa Direita. “Ele acredita ter potencial”, comentou o presidente.

Durante o encontro de segunda-feira com Prôkhorov, Medvedev se referiu a algumas de suas ideias como “revolucionárias”, segundo a agência de notícias RIA Nóvosti.

De acordo com sociólogo russo conhecido, Olga Krichtanovskaia,  essas ideias vão de encontro aos planos do governo de estabelecer mais de um partido – planos estes que remetem ao segundo mandato de Pútin como presidente.

“Parece que haverá dois partidos nos corredores do poder, um de centro-direita (Causa Direita) e outro de centro-esquerda (Rússia Unida)”, disse Krichtanovskaia. “No entanto, os partidos terão várias alas”, completou.

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