Educação tenta se livrar dos métodos soviéticos

Alunos russos não são incentivados a debater em sala de aula/Foto:AP/Fotolink

Alunos russos não são incentivados a debater em sala de aula/Foto:AP/Fotolink

Com resultados ruins no exame internacional de ensino, a Rússia quer se livrar de herança autoritária e elevar o nível da educação.

Uma incrível versão da origem do homem tirada de um livro recentemente aprovado para alunos da 5ª série levou alguns pais a escreverem uma carta ao presidente Dmítri Medvedev, reclamando da incompetência do Ministério da Educação na Rússia.

O texto dizia: “Ao longo dos anos, os macacos se aventuraram na água cada vez mais e mais, cada vez mais longe da praia e aprenderam como nadar e mergulhar atrás de comida. Eles desenvolveram uma postura ereta. Por alguma razão ainda desconhecida, alguns macacos continuaram seus meios de vida na terra, enquanto outros se tornaram tão adaptados à vida no mar que permaneceram lá para sempre e se transformaram em golfinhos.”

O episódio chocou pais e professores, mas não chegou a surpreender. Além da idade avançada dos professores, a falta de recursos está contribuindo para a deterioração das escolas russas.

“Alguns temas dúbios foram incluídos recentemente no currículo, e essa baboseira toma tempo das disciplinas principais. Não é nenhum assombro que a qualidade da educação esteja caindo”, lamenta o professor de língua russa Serguêi Ráiski.

Ráiski, de 41 anos, é considerado jovem entre seus colegas, cuja média de idade é de 48 anos. Um em cada cinco professores já passou da hora de se aposentar, e devido aos baixos salários, em torno de R$ 770 por mês, os jovens não querem enveredar pela profissão.

O sistema de ensino de línguas estrangeiras também está ultrapassado. Na maioria das escolas públicas, os alunos estudam uma língua, geralmente o inglês e ocasionalmente o alemão, duas vezes por semana, e só aprendem decorando. A conversação, segundo os críticos, é deixada de lado. “Nos últimos anos, nossas escolas têm oferecido apenas conhecimento, e não educação”, diz o conselheiro para assuntos educacionais Aleksandr Kondakov.

Os exames do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), consequentemente, colocaram a Rússia, um território antes conhecido por suas façanhas educacionais, em 43º lugar entre os 65 países de todo o mundo avaliados. Aplicado a cada três anos e divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OECD), o exame de 2009 deixou o Brasil em 53º na lista.

Mudanças futuras

Os pais russos sabem bem que as crianças em escolas privadas levam muita vantagem sobre aquelas que frequentam escolas públicas sem recursos, assim como acontece no Brasil. Para tentar diminuir um pouco esse abismo, o governo pretende introduzir práticas das escolas particulares na rede do Estado e prepara uma reforma escolar em grande escala, visando ao aprendizado individual.

As reformas nas escolas do ensino fundamental estão previstas para começar em setembro. Algumas aulas, por exemplo, serão realizadas fora da sala, em dez horas semanais de passeios, caminhadas e trabalhos criativos em espaços culturais. Além disso, o governo prometeu um aumento de 30% nos salários dos professores já para este ano. As reformas no ensino médio, porém, ainda estão em fase de elaboração.

“A escola terá mais poder de decisão para formar seu próprio currículo de acordo com o desejo dos estudantes”, afirma Irina Abânkina, diretora do Instituto de Estudos Educacionais da Universidade de Pesquisa Nacional Russa.

O estudante, que poderá escolher seis temas adicionais e decidir se quer estudá-los em um nível básico ou profissional, precisará passar em pelo menos quatro matérias no Exame Unificado Estadual, que foi introduzido em 2009 para definir as admissões universitárias.

Herança autoritária

As inovações foram desenvolvidas para levar à Rússia um sistema educacional na linha do modelo europeu. Mas nem todos os pais aprovaram. Houve quem se indignasse com as mudanças temendo o fim da educação clássica. Em dezembro, um grupo de nacionalistas chegou a ir ao centro de Moscou para encenar um protesto contra a reforma na educação.

Segundo o conselheiro Kondakov, após o colapso da União Soviética um novo pensamento foi adotado, mas o sistema de ensino permaneceu: alunos ouvem palestras, não discordam dos professores e qualquer tipo de debate dentro da sala de aula é visto como rude. “A escola é menos autoritária que a soviética, mas não existe um modelo de parceria de ensino, de igualdade entre professor e aluno. O professor perdeu autoridade e tenta usar da severidade”, ressalta. “Ainda temos muito a aprender sobre como organizar um trabalho de equipe na sala de aula, no qual o interesse no aprendizado e no ensino seja recíproco.”


Como funciona o ensino na Rússia

Foto:ITAR-TASS

Por lei, as escolas e o material escolar são gratuitos na Rússia. Os pais devem pagar apenas pelo uniforme e pelas refeições. Isso se aplica a 48.809 escolas regidas pelo Estado – as privadas somam um número muito menor, totalizando 665.

As crianças começam a estudar aos 7 anos de idade e o ano escolar vai de 1º de setembro a maio do ano seguinte, com férias curtas no inverno, no outono e na primavera, e durante todo o verão.

Para passarem de ano, os alunos fazem testes e, após o 1º ano de ensino médio, são submetidos ao Exame Unificado Estadual, com provas de matemática e duas matérias a escolher, cujos resultados são utilizados para definir sua admissão na universidade.


A lista de espera do jardim de infância

Russos que planejem ter filhos já deviam inscrevê-los na pré-escola agora mesmo.

A queda da taxa de natalidade em quase 50% nos anos 1990 levou ao fechamento de mais de 600 jardins de infância no país. Agora, quando os prédios escolares estão sendo vendidos ou repassados a outros órgãos estatais, a taxa de natalidade voltou a crescer.

Como resultado, não há vagas nas pré-escolas públicas para mais de 1 milhão de crianças, mesmo que a educação primária seja direito de todos. Para inscrever uma criança na pré-escola, os pais são forçados a pagar matrículas que variam de R$ 2,3 mil a R$ 5,7 mil.

Das crianças de 2 a 6 anos de idade, 60% estão matriculadas em um total de 45,3 mil pré-escolas mantidas pelo Estado.

De acordo com a lei russa, os jardins de infância são separados das escolas, e a participação não é obrigatória. 

O número de pré-escolas privadas é desconhecido devido à incerteza gerada em torno de seu status legal: existem jardins de infância familiares, criados quando um grupo de pais organiza uma cooperação não comercial, e existem os empreendedores privados, que agora podem se organizar sem obter uma licença.

Em algumas regiões, os pais que não conseguiram matricular seus filhos na pré-escola recebem uma compensação mensal. Na região de Perm, por exemplo, o valor é de R$ 303. É claro que isso não é o suficiente para pagar uma escola privada, cujas mensalidades custam em média R$ 980 por mês.

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