Memórias da menina que fugiu da guerra

Foto:Vladímir Golenkov

Foto:Vladímir Golenkov

Em “Adeus, Stálin”, a psicanalista russa Irene Popow narra seis anos de sua infância, das passagens por campos de concentração na Europa até a chegada ao Rio de Janeiro.

O livro “Adeus, Stálin”, da psicanalista russa Irene Popow , radicada no Brasil , narra seis anos da vida da família da autora em sua peregrinação por campos de concentração de uma Europa arrasada e caótica, constituindo uma longa viagem em busca da sobrevivência.

No livro, a pequena Irene – ou Ira, como passou a ser carinhosamente chamada – relembra os episódios mais marcantes de sua infância até a chegada ao Rio de Janeiro, cidade pela qual se apaixonou e onde criou os filhos: o mais novo deles é o conhecido cineasta brasileiro Andrucha Waddington, hoje com 40 anos.

“O livro nos surpreendeu de imediato. Linda história, a daquela menina, e que autora inesperada! Ela conseguiu recontar sua trajetória sem ressentimentos e com uma sinceridade comovente”, elogia Isa Pessôa, diretora da Objetiva, editora carioca que lançou o livro. “Os originais foram preparados impiedosamente, com foco, o que acredito ter contribuído para dar consistência e aperfeiçoar a engenharia do texto sem que o calor do relato seja perdido.”

Pessoalmente, dona Irene tem o mesmo carisma que demonstrou nas páginas. E também possui muito humor, especialmente quando fala das profissões que exerceu durante a vida. “Fui caixeira-viajante no campo de concentração. Depois, trabalhei como babá, professora de línguas, faxineira, tradutora, terapeuta, agente de turismo, psicanalista e, agora, escritora”, afirmou.

“Quando cheguei ao Rio, fui atendente de um consultório médico. Ganhava mil cruzeiros por três dias por semana, meio expediente. Para dobrar a renda, trabalhava como babá para uma família tcheca que conhecemos no navio. Aos poucos, eles foram me pedindo para lavar uma louça, passar uma roupa, encerar um assoalho... Virei faxineira!”, diz ela, aos risos.

A psicologia apareceu tarde em sua vida, mas ela se dedicou à profissão com o mesmo vigor com que se entregou a todas as outras atividades. Fez vestibular para psicologia na Universidade Santa Úrsula e se formou em 1978.

“Quem já leu o livro se espanta com a minha memória”, fala Irene. “Mas, na verdade, quem passou pelo mesmo que nós passamos não se esquece. É muito diferente de quem nasce, cresce e vai à escola no mesmo lugar.”

Os detalhes da história da psicanalista russa estão em todas as 228 páginas de "Adeus, Stálin!", que é ricamente ilustrado por cerca de 30 fotografias de época, selecionadas em meio às lembranças guardadas por ela ao longo de sua vida.

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