Estação espacial é prova de amizade entre nações

Pontes visitou Moscou no cinquentenário do voo de Gagárin/Foto:Reuters/Vostock-Photo

Pontes visitou Moscou no cinquentenário do voo de Gagárin/Foto:Reuters/Vostock-Photo

Primeiro astronauta brasileiro volta à Rússia 5 anos depois.

Como é sua relação com os cosmonautas?

Eu tive um contato muito bom com eles, e, de forma geral, com todos na Rússia. Aliás, eu tive a impressão, na época em que eu estava lá, de que fui mais bem tratado que qualquer astronauta de outra nacionalidade ali.

Foi muito bom esse contato. Eu estudei um pouquinho de russo, o necessário para ver os checklists, o painel, entender o controle. E isso me ajudou a ter contato com o pessoal de forma geral, tanto no centro de preparação quanto com as pessoas que o visitavam. Fazia questão de estar ali com eles em todo momento livre que eu tinha.

Você já retornou à Rússia?


Só recentemente, cinco anos depois. Eu fui para lá convidado pela Roscosmos (Agência Espacial Federal Russa) para as comemorações dos 50 anos do voo de Iúri Gagárin. Participei de dois dias de eventos, e foi muito bom rever o pessoal. Eu tenho, para falar a verdade, uma saudade muito grande.

Como foi o reencontro com a equipe que viajou com você em 1996 [o cosmonauta Pável Vinogradov e o astronauta Jeffrey Williams]?


Tenho contato com Jeffrey em Houston [nos Estados Unidos]. Também tinha encontrado o Pável aqui no Brasil, quando ele veio em 2007.

Lá de cima, a gente olhava o Brasil passando, eu ficava falando: “lá é tal lugar, lá é tal lugar!” Eles ficaram curiosos. Então, quando todos voltaram da missão, liguei para eles e perguntei: “E aí, querem conhecer o Brasil agora?”

O Pável e o [cosmonauta] Oleg [Kotov] vieram. Foram a São Paulo, a Bauru, que é minha terra, a Pirassununga, a São José dos Campos, ao Rio de Janeiro.

Agora que você está baseado em Houston, como seu trabalho será afetado pela freada que os Estados Unidos deram no programa espacial?


O programa continua. O que está parando agora em julho, ou um pouco depois, são os voos de ônibus espacial.

O Discovery já parou, o Endevour fez a última missão esse mês, o Atlantis voa em julho e aí para. O programa da Lua, pelo que fui informado, também foi cancelado.

Mas os outros programas continuam. A NASA, o programa Constelação, que envolve a fabricação de dois foguetes, a operação da estação espacial, a exploração de Marte continuam. Minha função é ficar à disposição do programa espacial brasileiro para outras missões.

Eu gostaria que me escalassem rápido, mas com a parada dos ônibus espaciais as probabilidades diminuem. Ao mesmo tempo, eu também tenho que observar o que acontece no projeto espacial americano e ficar de olho no que pode aparecer de interessante, tanto no setor público, quanto no privado, para as empresas brasileiras.

Você considera isso uma oportunidade para estreitar os laços entre cosmonautas e astronautas?

Acho que é uma comprovação desses laços, que foram estreitados a partir a década de 1970, quando começou a haver esses contatos no espaço.

A estação espacial, aliás, é uma demonstração clara de que a gente tem capacidade de trabalhar com culturas diferentes. Muitas vezes, lá do espaço quando você olha para a Terra, fica imaginando que aqui tem tanta discriminação, tanta divisão... Um país aqui, um país ali. Tem fronteiras, tem guerra, tem tudo isso. E, ali em cima, a gente consegue trabalhar com culturas diferentes e ideias diferentes. Todos juntos, trabalhando pela solução dos mesmos problemas.

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