Bolshoi, seis anos depois

Trabalho, iniciado em 2005, chegou a envolver 3,2 mil pessoas ao mesmo tempo

Fotos: Ruslan Sukhuchin

Entre as paredes do Teatro Bolshoi vive o coração da cultura russa. Ao longo de sua ilustre história, ali já se viu o balé de Maia Plisêtskaia, o canto lírico de Fiódor Chaliápin e o discurso revolucionário de Vladímir Lênin. Hoje, as recém-reformadas colunas de calcário brilham ao sol e acendem a fachada do local, enquanto Apolo, sentado, vigia todos do topo do prédio. Muitos moscovitas passam por ali em seus intervalos de almoço e param no pequeno parque em frente ao teatro. Tem-se a impressão de que o Bolshoi já está aberto.

Visitantes e moradores, porém, precisarão esperar mais um pouco para se juntarem no teatro e ter o prazer de assistir à Dança dos Pequenos Cisnes, de Tchaikóvski. Depois de seis longos anos de trabalho de restauração, o mundialmente famoso espaço de ópera e balé irá reabrir em 28 de outubro deste ano com apresentações de Lago dos Cisnes, O Quebra-nozes e Boris Godunov, de Mússorgski.

Atualmente, dois trabalhadores estão no topo de um guindaste à esquerda das colunas, polindo e limpando uma placa na qual o nome “Lênin” aparece em letras garrafais. Foi aqui que, em 1922, o líder dos soviétios realizou seu último discurso antes de morrer. É uma das poucas ligações do Bolshoi com as sete décadas de regime comunista. O teatro teve sua fase mais proeminente no século 19.

História e acústica

Fundado em 1776, o teatro passou por diversas modificações ao longo das décadas seguintes. Em 1853, precisou ser completamente reconstruído após ser destruído por um incêndio. Mas a arquitetura clássica russa assinada pelo arquiteto ítalo-russo Alberto Camillo Cavos, que o mundo associa ao Bolshoi, ainda está ali. E faz toda a diferença.

Filho de um compositor, Cavos ocupou uma posição importante na acústica da nova estrutura. Ele não apenas revestiu as paredes com madeira de ressonância, mas também usou madeira no revestimento do teto e do chão. Ornamentos, como, por exemplo, o Atlas, não foram construídos de gesso, mas sim de papel machê, para que não prejudicassem as ondas sonoras. O salão de ópera do teatro não só tem formato de violino, como também produziu por muitos anos um som tão puro como o desse instrumento.

Economia à soviética

Durante os tempos soviéticos, nunca havia tempo suficiente para restaurar o edifício por completo, já que o teatro abrigava não somente espetáculos de ópera e balé, como também assembleias e congressos. Nessa época, muitos dos materiais originais de altíssima qualidade foram substituídos por outros, mais baratos, e tais mudanças provocaram danos que foram além da acústica. “Havia enormes rachaduras, de até 30 centímetros de comprimento, nas paredes principais”, explica Mikhail Sídorov, representante da Summa Capital, empreiteira responsável pelo projeto de restauração desde 2009. “Existia um perigo real de o prédio desabar”, conta.

A primeira fase da reconstrução, portanto, consistia na recuperação do edifício. Sete mil colunas de aço foram fincadas na terra e, em seguida, a fundação antiga foi removida. “O edifício inteiro ficou então pairando no ar”, lembra Sídorov.

A nova fundação não foi finalizada até setembro de 2009, quando os pilares de aço puderam ser removidos. Desde então, o canteiro de obras no centro de Moscou, a menos de cinco minutos a pé do Kremlin, transformou-se em um formigueiro. Três mil e duzentas pessoas trabalharam no projeto ao mesmo tempo.

Enquanto alguns operários de uma empresa especializada cobriam os ornamentos da sacada com ouro, outros reinstalavam as tapeçarias de seda restauradas.

Sob a terra, era um barulho só: uma novíssima sala de espetáculos, que também pode ser usada para ensaios da orquestra e do coral, foi construída. Outra novidade do teatro é o maior palco hidráulico da Europa. Construído pela empresa alemã Bosch Rexroth, ele abrange uma extensa área de 21m².

Os lugares do fundo da orquestra também foram ampliados e agora têm capacidade para 130 músicos. 

Dentro do teatro, a restauração tentou recriar a atmosfera dos tempos áureos do século 19. Os brasões soviéticos foram removidos e substituídos por emblemas tsaristas, o piso foi recoberto com carvalho, e o número de assentos do salão principal foi reduzido de 2,1 mil para 1,7 mil.

Símbolo russo

A restauração do Bolshoi é o símbolo do renascimento da cultura russa, cerca de 20 anos depois. Simultaneamente, contudo, tornou-se o exemplo perfeito dos evidentes problemas associados ao sistema de poder vertical do hoje primeiro-ministro Vladímir Pútin, no qual a maioria dos assuntos e projetos só funciona bem quando há pressão de cima.

Depois do fechamento do teatro em 2005, o projeto de restauração chegou a um impasse quando representantes do governo, o prefeito de Moscou e o arquiteto-chefe Nikita Shanguin se desentenderam sobre o projeto. Em 2008, Shanguin abandonou a reforma e previu que a restauração não ficaria pronta antes de 2013. Foi então que veio o empurrão do presidente. No início de 2009, Dmítri Medvedev confiou a um de seus assessores mais próximos a tarefa de garantir que o teatro ficasse pronto até 2011.

Processos judiciais foram abertos contras diversos grupos envolvidos na obra, acusados de pagar diversas vezes o mesmo fornecedor. O órgão de auditoria da Rússia acusou que os custos do projeto de restauração tinham ultrapassado mais de 16 vezes a estimativa inicial. Hoje, há quem diga que o custo da reforma está em 1,5 bilhão de euros, mas o ministro da Cultura da Rússia divulgou recentemente um valor de cerca de 500 milhões de euros. “Quando tudo estiver pronto e todas as contas estiverem pagas, nós saberemos o quanto custou”, diz Sídorov.

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