Presidente russo apresenta plano de desenvolvimento

Foto:ITAR-TASS

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Em discurso, o chefe do estado russo Dmítri Medvedev diz ser necessário tirar o excesso de poder da burocracia estatal, mas não há certeza de que ele será o responsável pela realização desse plano.

No fórum econômico de São Petersburgo, o presidente Dmítri Medvedev apresentou um programa de desenvolvimento para a Rússia para os próximos anos. Em sua opinião, o sistema do governo vigente nos últimos dez anos, em que tudo é subordinado às ordens recebidas do Kremlin, tem pouca resistência e deve ser mudado rapidamente: segundo ele, a estabilidade oculta a atual estagnação do país.

Medvedev declarou que a Rússia precisa descentralizar a administração estatal e entregar uma parte das funções estatais às regiões e às cidades. Em primeiro lugar, diz ele, deve-se modificar a esfera fiscal e os princípios de relações orçamentárias. Essa missão será feita por um grupo especial de trabalho, a ser criado por ele em breve.

O presidente russo também propôs medidas que visam resguardar as receitas orçamentárias da influência da burocracia. Declarou guerra ao capitalismo estatal e aos princípios de administração manual, garantindo que o processo de privatização deve ser acelerado. Disse ainda que os planos quinquenais – base do programa eleitoral da Frente Popular Nacional da Rússia, do primeiro-ministro Vladímir Pútin, segundo o curador Nikolái Fiódorov – não podem evitar que a economia perca a capacidade de disputar espaço.

Medvedev também quer demitir os funcionários e policiais corruptos, recuperando o dinheiro obtido por vias ilegais e os obrigando a ressarcir o Estado pelas quantias subtraídas graças às suas ações. Essa seria uma das resoluções que integram um pacote anticorrupção do governo russo. À Assembleia Federal do país, o presidente disse que essas pessoas não devem desacreditar o Estado com o seu comportamento corrupto, mas não explicou como elas serão castigadas.

Tal iniciativa foi publicamente apoiada por Pútin, que propôs que os funcionários estatais prestassem contas anuais não só de suas receitas, mas também de suas despesas – o Kremlin, porém, se pronunciou de forma contrária a essa medida, de acordo com informações de um funcionário da administração federal.

Dmítri Medvedev quer reduzir radicalmente o número dos empregados do governo e policiais: o quadro de funcionários públicos e do Ministério do Interior, por exemplo, pode ser diminuído em 20%. No fórum, o vice-primeiro-ministro Alekséi Kúdrin informou que só a redução de folha de pagamento pode economizar, em três anos, 37 bilhões de rublos.

Ainda de acordo com ele, algumas instituições estatais serão transferidas para espaços situados além dos atuais limites da capital Moscou. Iúri Chuvalov, vice-diretor do aparelho da Duma Estatal, garantiu que os deputados e senadores também podem se mudar, juntamente aos funcionários federais, para um possível novo centro parlamentar.

Indecisão

 

Apesar de todas essas declarações, Medvedev mostra que não tem certeza de que será responsável por realizar todas essas iniciativas. Ele prometeu que a maior parte dessas medidas deve ser tomada no decorrer de um ano. Kúdrin, por sua vez, declarou que as reformas serão feitas independentemente de quem comandar a Rússia nos próximos anos, mas podem ser suspensas às vésperas das eleições.

Com as declarações do presidente e dos seus subordinados, porém, deduz-se que muitas dessas iniciativas ainda não saíram do papel. Inicialmente, Medvedev afirmou que o CFI (Centro Financeiro Internacional) poderia se instalar no centro de Moscou, nos edifícios a serem abandonados pelas instituições estatais, mas o atual presidente da Sberbank, Guerman Gref, propôs que ele fosse transferido para além da Estrada Circular de Moscou. Essa iniciativa acabou sendo aprovada.

Durante seu último ano, Medvedev não avisou seus planos aos funcionários do governo, utilizando o efeito de surpresa para colocá-los em prática. “De outra forma, é impossível fazê-los trabalhar”, disse um alto funcionário do Kremlin. Ao Vedomosti, participantes do fórum opinaram que o discurso do presidente foi pré-eleitoral. “Foi politico”, confirmou Arkádi Dvorkovitch, auxiliar de Medvedev, “mas não pode ser classificado assim”. Segundo o analista político Gleb Pavlóvski, “Medvedev propõe um programa para a consolidação da classe governante, com o objetivo de sanar um sistema que ameaça se desmoronar a qualquer momento”.

O programa de Medvedev não significa a destruição do Estado. Ao contrário, mais ainda, só pode ser realizado com um governo forte, diz o analista político Dmítri Orlov. De acordo com ele, a diferença entre a retórica dos líderes do partido de Pútin e o discurso de Medvedev é o alvo: o discurso da Frente Popular Nacional da Rússia dirige-se aos eleitores, enquanto o presidente russo transmite mensagens às elites e aos investidores estrangeiros.

Para alguns participantes do evento, o discurso do presidente russo foi de despedida: pela primeira vez na história, ele inaugurou e encerrou um fórum, fazendo um balanço de sua administração. Nele, Medvedev enumerou os principais êxitos obtidos durante o seu mandato: o projeto Skôlkovo, os programas governamentais de modernização e o aumento do número de famílias com acesso à internet de banda larga durante os últimos três anos, entre outras vitórias.

Em seus pronunciamentos, Medvedev disse “nós” quando se referia ao passado e “a minha escolha” ao abordar as futuras transformações a serem sofridas pelo país, mesmo salientando que muitas camadas sociais estejam interessadas nessas mudanças. Na opinião de Pavlóvski, porém, o presidente trava uma luta com Pútin e, embora exista nos bastidores a certeza de que ele será derrotado, tornou pública a sua posição. E ela não pode mais ser ignorada.

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