Vingança ou mera coincidência?

Foto:ITAR-TASS

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Uma das personagens mais polêmicas da Rússia nos últimos anos, o ex-coronel Iúri Budanov, preso pelo assassinato da tchetchena Elza Kungáeva, foi morto no dia 10 de junho.

Em Moscou, no dia 10 de junho, foi assassinado o ex-coronel das Forças Armadas da Federação Russa Iúri Budanov, que havia cumprido dez anos incompletos de cadeia pelos crimes que cometeu em 2000. Em 2003, ele foi condenado pelo assassinato da jovem tchetchena Elza Kungáeva e, cinco anos depois, ganhou liberdade condicional de forma antecipada.

 

Budanov foi uma das figuras mais comentadas da sociedade russa nos últimos anos. Em 27 de março de 2000, o coronel, que participou da guerra na Tchetchênia, foi preso pelo rapto e pelo assassinato de Elza. Ele alegou que tinha suspeitado de que a moça fosse atiradora das tropas inimigas e, por isso, deteve-a à força. Disse ainda que a matou porque ela havia confessado participação em vários crimes e o ofendido, além de ter ameaçado sua filha e, depois, tentado agarrar sua pistola – por fim, durante a luta, foi estrangulada “acidentalmente”.

Mais tarde, o ex-oficial das Forças Armadas garantiu que esteva em um momento de forte emoção e não se recordava praticamente de nada do que tinha acontecido. Em 25 de julho de 2003, porém, o tribunal militar do distrito do Caucaso do Norte o condenou a dez anos de cadeia, retirando sua patente de coronel e sua condecoração por Ordem da Valentia.

O processo de Budanov obteve ampla publicidade na Rússia. Os militares patrióticos apoiaram o ex-coronel, salientando os seus méritos militares e suas altas qualidades profissionais. De acordo com pesquisas, muita gente pensava que ele – na opinião deles, um herói, um oficial com experiências de combate – deveria ter sido posto em liberdade: o próprio ministro da Defesa do país, Serguêi Ivanov, o classificou em 2001 como “vítima das circunstâncias e dos defeitos da legislação”.

Nos oito anos e meia em que ficou atrás das grades, o ex-coronel dirigiu ao Poder Judiciário russo quatro pedidos de libertação condicional antecipada, todos rejeitados. Na quinta vez, ele obteve sucesso: em 24 de dezembro de 2008, o tribunal acolheu sua solicitação, colocando-o em liberdade. Logo após esse ato, houve diversos atos de protesto em Grozni, em que os tchetchenos exigiam um castigo mais rigoroso a ele.

Em 2009, as autoridades russas interrogaram Budanov a respeito de uma nova suspeita. Nove anos antes, 18 tchetchenos foram ilegalmente detidos em um posto de patrulha militar, situado nos arredores do povoado de Duba-Iurt. Posteriormente, três pessoas desse grupo foram encontradas mortas. Alguns habitantes da região, então, declararam que o ex-coronel – àquela época, comandante de um regimento blindado – estava envolvido no crime, mas ele sempre negou categoricamente qualquer forma de participação.  No fim das contas, esse processo nunca chegou até ao tribunal.

Assassinato


Budanov foi morto a tiros perto do edifício N38, localizado na avenida Komsomolski (centro de Moscou). Fontes em órgãos de investigação informam que o automóvel e a arma – uma pistola de gás, transformada em arma de fogo – utilizados pelos assassinos foram encontrados em uma região próxima ao local do crime. O veículo, utilizado pelos assassinos, foi encontrado pouco tempo depois abandonado e queimado num dos pátios vizinhos à região. A polícia fez a limpeza da área onde o delito ocorreu.

 

Os investigadores falam sobre o caso com muita prudência. “Evidentemente, seria simples estabelecer uma ligação entre o fato de Budanov ter sido condenado à cadeia e o seu assassinato”, comentou um dos policiais. “No entanto, devemos levar em consideração que já se passou muito tempo do crime, assim como da condenação judicial e de sua posterior libertação. Se alguém quisesse se vingar, poderia tê-lo feito bem antes. Ainda assim, porém, essa hipótese será considerada”.

Nada de vingança


O advogado de Iúri Budanov, Aleksêi Dulimov, falou à jornalista russa Margarita Polianskaia sobre os possíveis assassinos de seu cliente. Leia a seguir:

 

Quem pode estar envolvido nesse assassinato?


A meu ver, terroristas e extremistas que não compreenderam o sentido dos atos de Budanov. Ele defendeu sinceramente e de forma honrada os interesses russos durante aquela guerra absolutamente inútil na Tchetchênia.

Os defensores dos direitos humanos insistem em dizer que são evidentes os sinais de que houve vingança dos tchetchenos...


Não posso aceitar essa versão. A família Kungaev está na Noruega e não seria capaz disso.

 

O assassinato de Budanov está relacionado à morte de Elza Kungáeva? 


Penso que está ligado à luta dele contra os terroristas e os extremistas. Eles têm experiência e prática nesse assunto. Matam uns aos outros. É a única coisa que podem fazer.

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