Entre Chávez e Lula

Humala garantiu ser mais parecido, em termos de ideias sobre politica e economia, com o ex-presidente brasileiro Lula do que com Hugo Chávez/Foto:Reuters

Humala garantiu ser mais parecido, em termos de ideias sobre politica e economia, com o ex-presidente brasileiro Lula do que com Hugo Chávez/Foto:Reuters

Pela primeira vez em quatro décadas, um representante da esquerda vence eleições presidenciais no Peru. O que pode acontecer com o país?

As eleições ocorridas no domingo passado no Peru foram um marco importante para o país sul-americano. Pela primeira vez durante os últimos quarenta anos, o cargo de presidente foi conquistado por um representante da esquerda: Ollanta Humala, líder do Partido Nacionalista Peruano (PNP).

Esse fato significou, em primeiro lugar, o rompimento da antiga tradição de eleição de candidatos de direita para o posto. Além disso, durante os últimos anos a situação econômica, no Peru tem sido estável: na opinião dos especialistas, a chegada da esquerda ao poder na Venezuela e na Bolívia se deveu, principalmente, à falência das finanças locais. E as posições da outra candidata à presidência, Keiko, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, pareceram convincentes. Todavia, nas regiões meridionais e centrais do país, habitadas pela população indígena, preferiu-se votar no líder do Partido Nacionalista, em cujas veias corre sangue nativo.

É curioso que o próprio Humala, ex-tenente-coronel do Exército Peruano, participou da revolta armada contra Fujimori e o ex-diretor do Serviço de Reconhecimento Vladimiro Montesinos em dezembro de 2000. Segundo os dados da Comissão Eleitoral Nacional, obtidos no momento em que 99% dos votos foram calculados, o líder do bloco da esquerda “Gana Peru” conquistou 51,5% dos votos. Keiko Fujimori, de 36 anos de idade, do bloco eleitoral de direita "Fuerza 2011", colheu 48,5%.

O presidente boliviano Evo Morales e o líder chileno Sebastián Piñera foram dois dos primeiros chefes de Estado a dar parabéns ao novo gestor do Peru. Esse gesto dos vizinhos permite esperar que a situação diplomática melhore na América do Sul e que os velhos conflitos com Chile sejam superados.

Essa foi a segunda tentativa de Humala de se eleger presidente. A primeira ocorreu em 2006, quando ele venceu o primeiro turno, mas perdeu cerca de 6% dos votos para Alan García, líder da Aliança Popular-Revolucionária Americana (APRA), que está de saída do cargo. 

Em comparação com o pleito anterior, o tenente-coronel reformado recorreu a uma nova postura. Segundo Emil Dabaguian, colaborador científico do Centro de Estudos Políticos do Instituto da América Latina da Academia das Ciências da Rússia, Humala reconheceu que errou ao seguir ideias de Hugo Chávez. Desta vez, os seus conselheiros estão ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro. Ele se declarou partidário do modelo brasileiro de centro-esquerda e de seu ex-presidente Inácio Lula da Silva.

Uma das particularidades das eleições presidenciais passadas foi que até os participantes da corrida eleitoral, pertencentes aos círculos conservadores de direita – um deles, o ex-presidente Alejandro Toledo – pediram votos para Humala. Ele foi apoiado pelo conhecido escritor Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura, que não partilha as mesmas convicções políticas dele, mas disse estar confiante de que o cenário político da Venezuela não vai se repetir em seu país. Na opinião de Llosa, isso será impedido pela classe média e pelos empresários locais.

No decurso da campanha eleitoral, o próprio Humala declarou repetidas vezes que, se chegasse ao poder, não mudaria a Constituição nem faria que o país ingressasse na ALBA (Aliança Boliviana para os Povos da Nossa América). Prometeu também concluir, como fez García, novos acordos de livre comércio. Desse modo, ele confirmou que havia se tornado um moderado. O líder do PNP também salientou que pretendia criar um governo de unidade nacional e queria dialogar com os seus adversários.

Não obstante, restam algumas dúvidas no que diz respeito à sua capacidade de cumprir as promessas pré-eleitorais e não assumir posições radicais de esquerda. O analista político americano Michael Shifter disse duvidar que um “chavista” poderia ser converter em um “lulista”.

Respondendo a uma pergunta da Gazeta Russa sobre a eventual intensificação das relações russo-peruanas após a vitória de Humala nas eleições presidenciais, Dabaguian salientou: “Nos tempos de Juan Velasco Alvarado, no fim dos anos 60, a cooperação entre Moscou e Lima foi bastante estreita. Essa política foi prosseguida por Alan García, que declarou ser favorável ao aumento do comércio entre os dois países. Além disso, o novo presidente peruano visitou a Rússia no fim de abril do ano passado e afirmou, por mais de uma vez, que era necessário ampliar essa cooperação econômica.

“Humala quer que o Estado passe a controlar alguns setores e, em particular, a indústria extrativa, fundamento do crescimento econômico. Qual será a reação dos investidores, graças a quem o Peru obteve êxito nos últimos anos, a essas transformações? Por enquanto, a atitude deles é bastante tranquila”, acrescentou o analista.

Os especialistas que analisam os resultados das eleições peruanas interessam-se, sobretudo, pelas futuras relações entre Lima e Washington. No período do mandato de García, não houve sérios conflitos nas relações com a administração americana. As convicções radicais do “populista de esquerda” Ollanta Humala serão modificadas? Vamos ver. Em muitos países, aliás, investidores e observadores estão à espera dos primeiros passos do novo presidente peruano.

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