Destino quente em pleno Ártico

Formado por barracas com banheiros externos e temperaturas ambientes de 30°C, o acampamento pode ser visitado por valores que variam de 10 e 30 mil euros/Foto: Iúri Lepski

Formado por barracas com banheiros externos e temperaturas ambientes de 30°C, o acampamento pode ser visitado por valores que variam de 10 e 30 mil euros/Foto: Iúri Lepski

Apesar do frio congelante, visitar o Polo Norte, com direito a uma passagem pela estação de pesquisa russa Barneo, pode ser uma das experiências mais interessantes da vida de um turista

Existe todo tipo de hotel no mundo. Na Flórida, o turista encontra quartos debaixo d’água e, na Turquia, é possível passar a noite sobre as árvores. Outras opções são dormir em uma mina de carvão na Suécia, em cápsulas numa estação de trem japonesa, numa antiga igreja na Escócia ou em uma prisão desativada na Eslovênia. No entanto, repousar no Polo Norte é uma experiência ainda mais inusitada.

O acampamento da estação de pesquisa russa Barneo, no Ártico, não possui endereço. Há mais de uma década, ela aparece no mapa por apenas 40 dias por ano, entre o fim de março e o início de maio. Lá, diversas barracas e uma pista de pouso flutuam sobre as correntes oceânicas, fazendo com que as coordenadas da tela do GPS mudem a cada segundo.

O local é a única acomodação existente no ponto mais a extremo norte da Terra, além de único abrigo na imensidão do Oceano Ártico destinado a pesquisadores, cientistas e turistas de todos os continentes que querem brincar de exploradores polares e chegar à ponta do planeta. Neste refúgio, nunca se fica parado: as pessoas invariavelmente se movem enquanto dormem ou comem, mesmo quando tentam em vão distinguir o leste do oeste, já que todas as direções apontam para o sul. Além do mais, no dia polar, não há nascer ou pôr do sol.

De acordo com os organizadores do acampamento, achar uma área adequada para acomodá-lo não é tarefa simples. Duas bases são selecionadas no início de março, a primeira a quase 87 graus de latitude e a segunda mais próxima ao polo. Um grupo de reconhecimento sobrevoa a região na busca de um grande bloco sólido de gelo. Quando o objetivo é alcançado, as coordenadas do lugar são enviadas uma equipe sediada em Murmansk (capital da região homônima, que fica a 200 km do Círculo Polar Ártico), que envia um avião com tratores. Cria-se uma pista de pouso e a comissão chega de Krasnoiarsk para aprovar a escolha. Em seguida, a mão-de-obra é levada à área para o início dois trabalhos de construção do acampamento.

Para muitos turistas, a estação não é o ponto principal da viagem, mas sim uma parada temporária onde se passa diversas horas ou dias, antes ou depois do grande evento: a conquista do Polo Norte. Eles são levados ao acampamento por meio de um avião. De lá, o caminho é feito por esquis, trenós puxados por cães ou por helicóptero – dessa forma, para se chegar ao solo, o único jeito é saltar de paraquedas.

Os organizadores do acampamento fazem de tudo para atender a todos os caprichos dos visitantes, pois sabem que uma viagem ao Polo Norte com passagem pela Barneo é tão cara quanto os pacotes mais confortáveis para os destinos tradicionais. E não é qualquer pessoa que sente prazer em pagar de 10 e 30 mil euros para dormir em barracas com banheiros externos e temperaturas ambientes de -30°C, por vezes com tempestades de neves.

Apesar do preço e das condições adversas, a Barneo acolhe milhares de exploradores amadores e profissionais, bem como celebridades e curiosos, todos os anos. O príncipe Albert II de Mônaco, por exemplo, visitou o Polo Norte em 2006. O príncipe inglês Harry havia partido de lá apenas alguns dias antes da minha chegada.

Durante a viagem do herdeiro da coroa britânica, uma rachadura de meio metro se abriu no meio da pista, cortando a ligação aérea do acampamento com o mundo externo. Felizmente, as placas de gelo se uniram novamente após dois dias – se isso não acontecesse, os organizadores do acampamento seriam obrigados a escolher outra plataforma de gelo para construir uma pista de pouso.

Situações curiosas


Quando estive no acampamento, não foi possível encontrar Matvei Chparo, um dos integrantes da nova geração de exploradores polares russos, pois ele estava acompanhando um grupo de jovens esquiadores para o Polo Norte. No entanto, havia ali dezenas de turistas felizes. Era evidente que, para eles, dinheiro não era problema, assim como a infraestrutura simplória do local. Todo mundo estava contente apenas de poder dizer “eu também já estive lá”.

É incrível como esse pedaço de gelo à deriva, cuja continuidade depende não das pessoas, mas da vontade de Deus e das condições climáticas, vem se tornando um ponto imperdível no caminho ao Polo Norte. Partindo da ilha de Spitsbergen, na Noruega, em direção a Barneo, a única coisa que se pode ver do avião é água e gelo. No momento em que se pousa, porém, não há mais tempo para ter medo.

Os turistas do voo em que estávamos foram recepcionados pelo piloto e explorador polar Aleksandr Orlov, também diretor da Barneo, e por Víctor Boiárski, diretor do Museu do Ártico e da Antártica de São Petersburgo – mais do que isso, uma lenda viva que conquistou todos os Polos – além de Aleksandr Bakhmetiev, comandante da unidade aérea de Krasnoiarsk.

Logo no início do passeio, fomos convidados para um jantar de boas-vindas, cujo cardápio era formado por fatias de peixe fresco com vodca, servidas em um tambor de combustível vazio. Em seguida, não houve tempo para descansar. Tínhamos dez minutos para carregar nossas mochilas até o acampamento, fazer o check-in, vestir roupas mais quentes e correr para o helicóptero. O motor e as hélices começaram a acelerar. Poucos minutos depois, o enorme MI-8, lotado de pessoas e equipamentos, finalmente saiu, cortando o ar.

A próxima parada era próxima à região de 89 graus de latitude norte, onde nos deparamos com cinco australianos que queriam chegar ao Polo Norte com esquis. Após essa pequena pausa, o helicóptero estava no ar novamente e, em 15 minutos, chegou ao local. Ali, um casal de meia idade da Nova Zelândia pegou uma mala com tacos e logo começou a jogar golfe. Quatro japonesas sacaram suas máquinas e tentaram tirar fotos. O guia abriu uma garrafa e encheu taças de champanha, mas a bebida congelou antes que qualquer um conseguisse bebê-la. Depois ficamos vendo, atentos, um Romeu inglês de joelhos pedindo sua Julieta chinesa em casamento.

De volta ao acampamento, fomos recebidos com uma refeição quentinha. A tradicional sopa Borshtch com sour cream, uma espécie de coalhada fresca, foi o primeiro prato. “É natural, trazida diretamente de Moscou”, gabou-se o cozinheiro do acampamento. O sour cream e o iogurte, por sinal, podem ser armazenados nas barracas aquecidas por um longo período em virtude da existência de um sistema de climatização. 

O segundo prato não era carne enlatada, e sim costeletas frescas. “A Barneo é o melhor freezer para armazenar carne”, brincou o cozinheiro. Como acompanhamento, havia macarrão com molho pesto. Por ter aquecimento, a sala de estar serve como ponto de encontro. Ali, é possível adoçar o chá ou o café com bolachas e relatos exóticos.

Em uma das mesas, cientistas americanos lamentavam a perda de uma caríssima baliza flutuante que foi levada pelo mar. Em outra, o guia local estava compartilhando sua rica experiência com um casal de noivos: ele garantiu ter presenciado tanto casamentos quanto divórcios no Polo Norte. Uma vez, um cliente que tinha chegado ao local ligou imediatamente para sua mulher pelo telefone via satélite, gabando-se de seu triunfo, e disse que tinha decidido se separar dela. Em uma terceira mesa, um grupo de empresários turistas se ocupava trocando cartões.

É assim que o gelo brilha como ouro para os operadores de turismo no Ártico. Afinal, parece que o espírito aventureiro ainda está vivo nesse mundo e muitas pessoas estão preparadas para pagar somente para aprender como Robert Peary e Umberto Nobile se sentiram quando permaneceram longe de suas casas.

 

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