Ajuda vinda pelos ares

Locomovendo-se por helicópteros, equipes médicas do governo russo prestam auxílio aos povos minoritários que vivem nas regiões de tundra.

Iaptik, Susoi, Niarui, Vanuito, Khudi, Tadibe, Okotetto, Serotetto, Ezyngui, Puiko e Khorolia e outros clãs da Nenétsia vagam pela tundra da península de Iamal em busca de alces, assim como fizeram seus antepassados por séculos e séculos. O trajeto é feito durante o verão, de sul para norte, em direção ao mar de Kara, onde faz mais frio e há menos mosquitos e insetos. No inverno, eles marcham no sentido inverso.

Foto:ITAR-TASS

No caminho, os clãs são sempre acompanhados por objetos voadores um pouco maiores que insetos: helicópteros de transporte médico. Ao oferecer a eles o suporte necessário, o governo mostra que está disposto a proteger, a qualquer custo, a cultura dos habitantes de Iamal. E o que pensam os médicos do departamento de transporte médico sobre os maus espíritos e as pessoas que acreditam neles?

Um helicóptero flutua por sobre a tundra, vazia e uniforme. Vez por outra, ouve-se o rugido de um motor, semelhante a um balde cheio de pregos e feito por mãos soviéticas. De vez em quando, o doutor Ivanov saca do bolso um aparelho de navegação ou um mapa. É preciso calcular a localização do acampamento para o qual a aeronave segue com a intenção de atender a um chamado: uma criança pequena está gripada.

Subitamente, a estibordo, surgem dois grandes pontos negros e outros tanto menores. Conforme nos aproximamos, eles transformam-se em tendas, em alces, em trenós. A imagem viva do acampamento indígena lembra o cenário do filme “Dança com Lobos”. Falta apenas a equipe de filmagem.

A aeronave toca a neve gentilmente, no exato ponto em que ela se acumulou com menor intensidade. Os pilotos do transporte médico são, sem qualquer exagero, ases, como todos os que guiam veículos de emergência.

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Ao que tudo indica, a família que habita o local não é das mais ricas. Vê-se cerca de trezentos alces, uma geladeira cheia de carne do animal, um depósito para os trenós, um carrinho de lenha. É preciso sempre carregar óleo para fogueira, pois há quilômetros e mais quilômetros de neve ao redor do acampamento. Não há uma árvore sequer, nem mesmo rasteira.

A enfermeira Irina cumprimenta o dono da casa, afasta com confiança a cortina da tenda e de lado, quase sentada, entra no recinto. O interior da residência parece vindo das páginas de uma revista de etnografia. O piso é de madeira pré-fabricada. Do forno metálico, sai uma longa chaminé. Em uma tigela, encontra-se a stroganina, prato típico da região. Com movimentos precisos, Irina examina a criança e aplica a injeção praticamente no escuro.

- Como você consegue?

- É a prática.  Você nunca perde a prática.

Toma-se, então, a decisão de levar a criança para o hospital. Ela está com febre, não muito alta, mas é melhor tratá-la. A mãe, que a acompanhará no voo, veste um felpudo casaco tradicional. Nas costas dele, estão costurados diversos fiapos coloridos. Parecem adereços, mas, na realidade, servem para espantar os maus espíritos, que geralmente atacam pelas costas. Por fim, os habitantes da tundra tiraram fotos minhas em seus telefones celulares. Senti-me como um animal exótico.

Partimos, finalmente. A mãe segue calada, belicosa. Responde as perguntas a contragosto e quase não presta atenção na criança, que descansa no bercinho. Seria um sinal da arrogância dos povos minoritários? Há a sensação de que todos ao redor deles estão em débito, de certa forma. Mas eles não demandam indenizações, como os tchetchenos, mas sim a própria existência alheia.

O fato de que as mulheres de Iamal têm tradicionalmente de cinco a sete filhos não é o maior dos problemas. O pior de tudo é que elas esperam até o último momento para procurar um hospital quando estão em trabalho de parto e, após darem à luz, voltam apressadamente para suas tribos: lá, afinal, estão os maridos e seus outros filhos. Por isso, os médicos tiveram que criar um truque. Da maternidade, eles não encaminham a mãe e seu filho de volta para suas casas, mas para o hospital local, que tenta segurá-las pelo menos até que o bebê complete um mês de vida.

Foto:ITAR-TASS

Uma hora de funcionamento de um helicóptero custa por volta de 80 mil rublos. Nossa missão na Nenétsia, de transportar uma criança com suspeita de bronquite, levou quase três horas.

Impossível não voar

O modo de vida tradicional dos povos minoritários do norte custa bastante caro ao Estado. A política protetora do governo, aliás, tem cultivado uma tradição parasitária entre as etnias aborígenes. Não é pequeno o número de cidadãos a quem desagrada a compaixão das autoridades pelos habitantes da tundra. Especialmente aqueles que sabem o que é o imposto de renda.

- Certa vez fomos chamados para a aldeia de Paiuta - conta o doutor Ivanov, citando um dos exemplos mais apropriados - para buscar um guia que indicaria uma tenda na qual habitava uma mulher prestes a dar à luz. Quando chegamos lá, encontramos a grávida e mais quatro guias! E cada um carregava uma lata de óleo de girassol, dois pacotes de carne de sol, um de macarrão. O comandante do helicóptero por pouco não deu na cara deles. “Isso é sobrecarga, não posso levar”, disse ele. E eles disseram “você não tem esse direito. Somos nativos, somos povos minoritários”.

Finalmente, levamos a mulher grávida para a maternidade de Salekharda. Ela armou um escândalo, pois queria ir para Aksarka. Gritava, dizendo que iria se queixar com Serguêi Khariutchi, presidente da Assembleia Legislativa da região autônoma da Iamália-Nenétsia, que também é da etnia samoieda. Respondemos dizendo que o transporte aeromédico não era um táxi e sugerimos que escrevessem diretamente para a Unesco. No fim das contas, a mulher foi levada até a maternidade, recusou-se a ser internada e partiu. Após dez dias, as equipes receberam um novo chamado, do mesmo lugar. A história se repete nos mínimos detalhes.

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De alguma maneira, Ivanov conseguiu internar a senhora na maternidade. E disse ao plantonista: “Liekha, veja se consegue acuá-la num canto para ela dar logo à luz. Depois, vamos leva-la de volta à tundra”.

- Talvez eu diga algo subversivo – diz ele - mas isso é uma rua sem saída. Esse tipo tradicional de vida não tem futuro. Entendo que eles tenham a sua forma de pensar, mas imagine se nós, russos, começarmos a andar de alpargatas e a usar barbas imensas. O que seria do país?

Mundo afora, este problema foi resolvido há tempos por meio das reservas. Quem quiser continuar costurando miçangas e fumando em cachimbos de bambu pode ficar à vontade, mas em lugares designados para isso, não em um território do tamanho de um país europeu. E quem não quiser que vá para o colégio, ingresse na sociedade, torne-se engenheiro, cozinheiro, presidente.

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É preciso ainda se preparar para o ataque dos defensores dos direitos humanos locais e estrangeiros. Os fino-úgricos, grupo ao qual pertencem as minorias étnicas do norte, têm forte lobby internacional. Não é necessário muito para que observadores cheguem à região. Eles já estiveram várias vezes em Komi, onde apontaram discriminação e violação de direitos por todos os lados.

Possivelmente, será necessário rever a política do governo em relação aos povos minoritários antes que as tentativas de proteger um estilo mítico de vida resultem em situações absurdas. Um policial de Baikal afirmou que, na região, foi disseminada a prática de não prender habitantes locais pertencentes a etnias ameaçadas, mesmo em caso de homicídio. O argumento é mortal: “você consegue contá-los nos dedos”.

Ultimamente, porém, as feridas de guerra e os suicídios começaram a diminuir de incidência nas tundras. Os médicos consideram que a razão para isso é o combate à vodca ilegal. Além disso, novas distrações têm substituído a bebida, como a internet: alguns povoados já têm até conexão wi-fi. As novas tecnologias têm tomado o lugar da bebedeira e da psicose alcoólica. Uma partida de Counter Strike contra os homens do governo é algo novo nos costumes do Norte Selvagem – e, quem sabe, possa se tornar uma tendência?

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