Escola para caubóis

Investimento total no rancho russo tocado por norte-americanos chega a US$ 19 milhões. Além das técnicas para lidar com o gado, há lições de gestão/Foto: Ryan Bell

Investimento total no rancho russo tocado por norte-americanos chega a US$ 19 milhões. Além das técnicas para lidar com o gado, há lições de gestão/Foto: Ryan Bell

Iniciativa pode reduzir dependência do país, que importou aproximadamente US$ 1 bilhão só em carne brasileira no ano passado.

Meia dúzia de caubóis se senta ao redor de uma mesa comprida em um alojamento recém-construído, à espera do almoço.

Eles passaram a manhã inteira na rotina de sempre – o rebanho de 1,5 mil bovinos está dando cria e este tem sido um mês cheio.

Mas, ao chegar a comida, lembram que não estão em casa, ou seja, em Montana, nos Estados Unidos.

“Não temos constrangimento em dizer isso. Comemos carne, muita carne”, diz Darrell Stevenson, fazendeiro norte-americano que se associou a dois empresários russos para criar o Rancho Stevenson-Sputnik, na região de Voronej, no sul da Rússia.

“Uma das mais difíceis etapas de adaptação para esses caubóis tem sido a mudança de dieta”, completa.

O almoço é uma sopa, espaguete e empada de carne.

Diante desses homens, os pratos parecem pequenos. Todos os caubóis norte-americanos emagreceram, mas eles não estão ali de férias. “É tudo diferente, desde a comida até a cultura e a estrutura local. Só o clima é o mesmo”, diz Dan Conn, caubói que já concluiu o primeiro dos dois meses que ficará no rancho.

O tempo pode ser o mesmo de Montana, mas a terra é muito diferente. “Alguns dos solos mais férteis do mundo estão nessa região. Isso não existe no lugar de onde eu venho”, diz Stevenson.

Independência

O gado angus importado custou aproximadamente US$ 7 milhões e o investimento total no rancho gira em torno de US$ 19 milhões, dos quais quase US$ 15 milhões foram subsidiados pelo governo por meio de empréstimo do Sberbank, o maior banco de varejo da Rússia.

“O que a Rússia precisa é de gado vivo e, em relação a isso, eles estão pensando muito a frente e estão bastante empenhados”, diz Stevenson. O país importa regularmente de 40 mil a 50 mil bovinos vivos por ano, segundo os EUA.

Só durante o ano de 2011, o país importou mais de US$ 1 bilhão do Brasil, ou quase 300 mil toneladas do produto. 

O governo quer reduzir esse número, e a Doutrina de Segurança Alimentar assinada pelo presidente Dmítri Medevdev há um ano define que a Rússia produza domesticamente 85% da carne consumida até 2020.

Um dos sócios russos da empreitada, Serguei Gontcharov afirma que reduzir as importações é tão importante para o governo que os subsídios cobrem um de cada quatro dólares injetados no projeto.

“Em um gado como o nosso, uma vaca custa de US$ 3 mil a US$ 4 mil, e os touros, de US$ 6 mil a US$ 8 mil”, diz Gontcharov. Parte do valor está relacionado aos custos do transporte, que foi feito por avião ou navio a partir da Europa, da Austrália ou da América. “A esses preços, podemos facilmente pagar o banco e até mesmo lucrar [com a venda]”, completa.

Técnica americana

Sputnik, a empresa de Gontcharov nos entornos de São Petersburgo, já está envolvida no processo de transferência de embriões de gado e fertilização in vitro. “Queriam o melhor da tecnologia e dos recursos, mas o que eles precisavam mesmo era de gestão, talvez até mais do que o gado vivo em si”, diz Stevenson.

A fazenda tem três veterinários qualificados, mas alguns dos camponeses nunca trabalharam com gado antes. Depois de um mês no serviço, entretanto, o russo Leonid já se apresenta como caubói.

“É a primeira vez que faço esse trabalho. Quando as vacas começam a dar cria, nós as trazemos para dentro e tomamos conta delas. Se os bezerros adoecem, nós os aquecemos”, conta entusiasmado.

O chefe dos veterinários, Aleksandr Narítsin, admite que teria sido impossível tomar conta do rebanho sem a ajuda estrangeira.

Desafio de caubói

No início de dezembro não havia praticamente nada na região. Agora, mais de 900 bezerros já nasceram na fazenda.

“Agradecemos imensamente aos norte-americanos. Se não fossem eles, nós estaríamos correndo atrás de uma única vaca o dia todo – eles conseguem trazê-las de volta em 10 minutos”, diz Narítsin. 

Quando o gado chegou de Chicago ao aeroporto Cheremétivo, nos arredores da capital, os funcionários do local não foram tão ágeis.

Stevenson recorda que uma vaca escapou na transferência do Boeing 747 para o caminhão que as levaria ao rancho. O aeroporto ficou fechado para pousos por quase uma hora, até que a fugitiva foi encurralada e levada para dentro do transporte.

Ensinar os colegas russos a cuidar do rebanho foi a parte mais difícil do trabalho para os caubóis. “Quando a oportunidade surgiu, apareceram dois ou três deles sobre seus cavalos em apenas alguns minutos. Tivemos que mostrar a eles como colocar sela em um cavalo – acho que nenhum deles tinha montado realmente antes. Um deles caiu de cabeça no segundo dia”, conta Stevenson.

Para o caubói Dan Conn, nem todo trabalhador rural tem o que é preciso para realizar o trabalho. “Nós somos rancheiros de nascença, pecuaristas, e ensinar alguém que é relativamente novo no ramo, que nunca teve ao seu redor mais que uma vaca leiteira ou alguns porcos e ovelhas, é um grande desafio”, diz.

Já Stevenson vê o empreendimento como uma oportunidade de colaborar para o progresso local, além de uma importante troca de cultura.

“É uma porção do mundo que tem muitos recursos naturais e que é plenamente capaz de fazer isso”, acredita.

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