Balé, política e barracos

Mais conhecida pela demissão do Bolshoi por excesso de peso, a bailarina, atriz e política Anastassia Volotchkova agora leva seu estilo verborrágico para a oposição.

Anastassia Volotchkova, 33 anos, não prima exatamente pela discrição. Em seu casamento milionário com o empresário Igor Vdovin, em 2007, ela chegou ao Palácio de Catarina, em São Petersburgo, sentada em uma cadeira presa a um balão, com um vestido de contos de fada flutuando no ar. Antes disso, em 2003, ela havia se envolvido em uma polêmica com o balé Bolshoi, que a demitiu alegando que estava acima do peso, embora ela afirme se tratar da vingança de um ex-amante. Nada disso, porém, se equipara ao seu mais recente escândalo.

Ao se sentir preterida pelo partido Rússia Unida, do primeiro-ministro russo Vladímir Pútin, ela resolveu chamar a atenção por meio de uma sessão de fotos nua. As imagens foram publicadas em seu blog e alteradas digitalmente para fazer parecer que o presidente do país, Dmítri Medvedev, do mesmo partido, a olhava com desejo.

Ela acabou expulsa do partido e seguiu disparando sua metralhadora verbal: “Hoje em dia, integrar o partido Rússia Unida de Vladímir Pútin é um fato muito mais comprometedor para a reputação de alguém do que ter fotos nuas publicadas na internet”, afirmou em seu blog. Agora ela integra o grupo dos críticos do governo.

Anti-heroína russa

Volotchkova virou mais uma vez o assunto do momento. E ela está interpretando um papel familiar: o da diva abandonada, sincera e ligeiramente escandalosa. “Eu sou mais importante do que o seu partido!”, bradou em entrevista recente. “Mantemos a posição firme de não fazer comentário algum sobre o escândalo Volotchkova”, retrucou a porta-voz do partido no poder, Inna Tchernavina.

Em seu livro “A história de uma bailarina russa”, Volotchkova compara os capítulos de sua vida com a trama dos 12 principais balés russos por ela estrelados.

Quando adolescente, Volotchkova escutou de seus professores na Academia Vagánova – a notoriamente severa escola de balé que também treinou Vaslav Nijínski e Rudolf Nureiev – que uma bailarina de ossos largos como ela jamais dançaria nos melhores palcos. 

Alguns anos depois, ela estreava como primeira bailarina de Mariinski, em O Lago dos Cisnes, no Metropolitan House de Nova York.

Expulsa do Bolshoi

Em seu relato, Volotchkova  é sobrevivente de diversas batalhas dos bastidores, cercadas de inveja e insultos. Ela descreve o drama do filme Cisne Negro como “um mar de rosas” se comparado às intrigas no Balé Bolshoi.

Depois de atuar como solista em seis grandes balés e de uma turnê mundial de cinco anos com a companhia, Volotchkova foi chamada de “bailaria gorda” pelos executivos da companhia mais famosa do mundo. Ela seria demasiadamente pesada para aparecer em um palco de teatro novamente, e foi demitida em 2003, um ano depois de ganhar o prestigioso Prêmio Benois de la Danse.

Volotchkova, no entanto, suspeita da mão vingativa de um ex-amante poderoso, cujo nome ela não revela. Segundo a própria, ela chorou sob as colunas de mármore do Bolshoi. “Ninguém me deu uma palavra de apoio”, contou.

A bailarina lembra com amargura do dia em que foi pega de surpresa por um repórter do New York Times, que levou uma balança para uma entrevista, sem pedir permissão. O aparelho registrou 49,5 quilos, peso aceitável para uma bailarina de 1,68m de altura.

Dança política

Logo após o escândalo, Volotchkova entrou no Rússia Unida como uma das diversas celebridades recrutadas para revigorar um partido geralmente associado a burocratas insossos.

Segundo ela, não faltou dedicação. Sua imagem estampou materiais de campanha e ela acompanhou governantes regionais em viagens à Europa Ocidental como embaixatriz da cultura. Volotchkova ainda apresentou-se para 6 mil burocratas, magnatas do petróleo, executivos da companhia de gás e gestores de fundos de investimento no maior salão de concertos do Kremlin. Há poucos meses, dançou entre as mesas de um encontro do Rússia Unida, deslizando entre homens de terno e garrafas de vodca. “Durante o tempo em que levantei a bandeira do partido, eles eram meus amigos, mas agora me viram as costas”, diz.

Profissão oposição

A relação com o partido começou a entrar em declínio em 2009, quando “problemas de papelada” levaram a sua exclusão na disputa pela prefeitura de Sôtchi, cidade que irá sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014. De repente, performances como solista estavam sendo canceladas por sua impertinência política em desafiar um dos escolhidos pelo partido.

A ruptura final, contudo, ocorreu com a publicação das fotos, em fevereiro.

“Minhas fotos na praia causaram indignação nas classes do partido. ‘Como isso é possível! Um membro do Rússia Unida mostrando os seios’, as tias do partido gritaram assustadas”, ironizou Volotchkova em seu blog. “De repente lembraram que eu era um membro do Rússia Unida.”

Volotchkova foi exonerada pelos membros do alto escalão do partido, mas revidou dizendo que em 2005 o partido colocou, sem o seu conhecimento, sua assinatura em uma carta coletiva apoiando a prisão de Mikhail Khodorkóvski. Em comentário, Volotchkova disse que o ex-magnata do petróleo era “mais homem” do que aqueles que ela viu no partido de Pútin. O apoio a ela agora vem da oposição russa.


 

Frase

Boris Nemtsov

Ex-primeiro ministro (1997-1998) e adversário do governo

" Anastassia Volotchkova atraiu a atenção da elite russa ao mostrar o exemplo de uma posição civil virtuosa. Eu admiro a escolha dela.”

 


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