“Não se pode mais viver dessa maneira”

Leonid Rochal, diretor do Instituto Moscovita de Pesquisas sobre Cirurgia Emergencial e Traumatologia Infantil/Foto:Kommersant

Leonid Rochal, diretor do Instituto Moscovita de Pesquisas sobre Cirurgia Emergencial e Traumatologia Infantil/Foto:Kommersant

Na presença de Pútin e da ministra Tatiana Golikova, diretor do Instituto de Pesquisas sobre Cirurgia Emergencial e Traumatologia Infantil critica em fórum reforma do sistema de saúde russo

- Tudo o que há de bom sobre os nossos feitos já foi dito. De fato, muita coisa foi descoberta, iniciada, construída. Só um cego ou alguém muito amargurado não vê isso. De bom, posso falar apenas o que diz respeito a mim mesmo: construímos nos últimos anos um instituto de traumatologia infantil, único deste tipo não apenas em Moscou, mas no mundo todo. Essa experiência pode ser repetida: é necessário construir mais hospitais desse tipo na Rússia.

Mas a minha tarefa hoje não é a de louvar o que fizemos, mas sim identificar os pontos fracos em relação à infância. É imprescindível reforçar os programas infantis. Seria bom pensarmos em disponibilizar gratuitamente remédios para crianças de até 12 anos, como se faz no mundo inteiro.

O primeiro sinal da mudança do governo em relação ao sistema de saúde foi o programa nacional “Saúde”. Salvou-se a base mais fundamental da medicina, que se desfazia aos poucos por conta de salários miseráveis. Além disso, o Ministério das Finanças e o Ministério da Saúde parecem ter se esquecido de que, nos hospitais, ainda trabalham médicos altamente especializados, de instituições escolares e pré-escolares, que administram departamentos cujo salário não foi aumentado e que isso resultou em grandes problemas. Todos nós compreendemos bem que esse projeto não conseguiu curar as antigas chagas do sistema de saúde.

No início de 2007, começamos a avisar constantemente tanto a administração quanto o governo sobre a necessidade de aumentarmos a participação do sistema de saúde no Produto Interno Bruto dos vergonhosos atuais 3,5% para 6%. Não estamos sequer falando de 8%, 10% ou 15%, como em outros países.

Entretanto, estourou a crise. Em condições adversas, tentou-se manter a esfera social. A sociedade sofreu, mas não regrediu aos mesmos níveis dos anos 90.

Hoje em dia, considera-se possível repassar 460 bilhões de rublos adicionais ao sistema de saúde. Deve-se colocar a distribuição desses recursos sob o controle não apenas do Ministério Público, mas também das sociedades e das organizações médicas.

Os recursos adicionais de que falamos aumentariam a fatia da saúde, calculo eu, para 4,4% do PIB, mas isto ainda não alcança a faixa de 6% a 7%. No geral, pode-se dizer que a saúde recebe aproximadamente metade do que deveria. Disso concluo, e posso estar enganado, que o Ministério das Finanças e o Ministério do Desenvolvimento Econômico manterão sua posição de restringir as verbas orçamentárias e manter a corda em nosso pescoço. E então não seremos apenas nós a morrer sufocados.

No meio da saúde, foi-se introduzida a noção de “rentabilidade”. Uma coisa terrível! Hospitais e postos de saúde são fechados sem prover a assistência necessária.

Hoje em dia, a moda é reduzir os leitos hospitalares. De fato, o tratamento nos postos de saúde é mais barato. Mas, para entrar nessa onda, é preciso fazer o necessário para que esses lugares estejam em condições de receber os pacientes e abastecidos dos remédios e dos materiais que podem ser encontrados nos hospitais.

Começou-se também a falar nos quadros, mas estamos sem 30% do pessoal no campo. E é válido acrescentar que, na cidade, isso também ocorre.

A Comissão para a Saúde da Câmara já abordava seriamente a questão cinco anos atrás. Mas por que ouvi-la?

Temos falta de anestesistas, dermatologistas, neurocirurgiões, radiologistas para trabalho com máquinas pesadas, patologistas, médicos especializados em geral. Em algumas regiões, mais de 50% dos médicos têm idade para se aposentar e apenas 7% são jovens e especializados. Portanto, a criação de um programa governamental efetivo para a reforma dos atuais quadros seria necessária.

Nos hospitais municipais, o salário dos médicos gira em torno de oito mil rublos. Eles não podem viver apenas com esse ordenado e são forçados a fazer de dez a 12 plantões para alcançar os 15 ou 20 mil rublos e não morrer de fome. Daí a necessidade de aumentar sua qualificação profissional. Não sei quando as coisas irão melhorar, mas tenho vergonha de olhar nos olhos dos médicos que são subordinados a mim. Eles ganham dois mil e poucos rublos.

Por que nós recebemos, para o tratamento de uma criança em estado grave, a quantia correspondente a apenas um mês de internação e com teto de 110 mil rublos? Pode ser necessário que ela fique no hospital por até 50 dias, a um custo de 400 mil rublos. Nesse caso, com que dinheiro se pagará esse período? Com o salário dos médicos?

Como resultado de todas essas inovações, que talvez sejam relativas a um período de transição, passamos a receber menos, não mais. E, ao mesmo tempo, desperdiçamos dinheiro. A informatização, por exemplo. Não podemos, em alguns anos, criar um sistema único e repassá-lo aos postos de saúde? De qualquer maneira, já gastamos muitas vezes mais do que o necessário. E a esse processo pode contribuir muito.

Em Orenburg, num hospital infantil, deram-me a senha e, do escritório, entrei no sistema. Chequei os registros da secretaria e vi a ordem dos pacientes. “É possível ver os quadros médicos?”, perguntei. “É possível”. “Consigo acessar a quantidade de pacientes que um determinado pediatra atendeu num dia?”. ”Sim”. “E os prontuários com as prescrições?” “Sim, do hospital e de outros oito postos de saúde que estão interligados ao sistema!”. O que estamos esperando? Precisamos ver quais são os custos e colocar esse sistema em prática!

Em relação à legislação, há quantos anos nos perguntamos onde está a concepção de desenvolvimento do sistema de saúde? Diziam que, nos congressos médicos, essa ideia seria discutida e a partir dela se conceberiam as leis. Mas o caminho tomado foi outro. As leis foram feitas silenciosamente e agora, sob essas regras, temos que criar uma concepção que não existe.

A lei federal nº 94 foi muito prejudicial ao setor. É fato que agora estão tentando corrigi-la. Mas o Ministério do Desenvolvimento Econômico novamente se superou. Foi emitida a ordem nº 601, “das sanções administrativas a produtos e serviços”. Vocês receberam? É um novo sistema de aquisição que reúne grupos impossíveis de serem conciliados, como antibióticos e antigripais, por exemplo. Agora só podemos comprar um ou outro a cada trimestre. No grupo 96, por exemplo, estão reunidos algodão e equipamento de raio-X. Não podemos aceitar isso! É esse tipo de lei que desacredita o governo, como se alguém as inventasse de propósito.

Esse descaso com as organizações civis pode ser comprovado pelo seguinte fato: em parceria com os sindicatos, organizamos a primeira conferência sobre a regulamentação autônoma da atividade profissional. Participaram 70 regiões do país. As resoluções foram enviadas também ao Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social. E somente agora, há seis meses, recebemos um retorno que serve para qualquer coisa, menos para as questões concretas que colocamos. Ela foi publicada no site do Conselho Nacional de Medicina, qualquer um pode ler. É possível que o autor da resposta não tenha familiaridade com as questões técnicas abordadas por nossa resolução.

Sou um homem direto e não posso deixar de dizer que é terrível o fato de não termos uma pessoa sequer no Ministério da Saúde e no do Desenvolvimento Social que tenha a experiência e o conhecimento necessários para organizar o nosso sistema de saúde.

As diferenças entre a taxação per capita da diferentes regiões do país, que não mudaram por muito tempo, também é péssima. Somos um só país. Por que uma pessoa deve sofrer apenas por ter nascido numa área em que há poucos recursos para a saúde? A divisão das jurisdições federais, regionais e municipais da saúde não foi bem pensada.

Leonid Rochal, diretor do Instituto Moscovita de Pesquisas sobre Cirurgia Emergencial e Traumatologia Infantil

Rochal é talvez o mais conhecido representante da comunidade médica na Rússia na atualidade. Seu nome tem se destacado desde 1995, quando foi eleito o “melhor pediatra do mundo”. Em 2002, conduziu as negociações com os terroristas do teatro Dubrovka e, em 2004, mediador em Beslan.

Seus colegas de profissão afirmam que Rochal é glamuroso, possivelmente se referindo às suas constantes aparições na mídia. Mas a fama não o impede de executar um trabalho sério em prol da medicina na Rússia. Entre 2005 e 2009, foi membro da Câmara, onde criticou constantemente as reformas do sistema de saúde. Neste ano, criou o Conselho Nacional de Medicina. Mesmo com todos esses afazeres, ainda encontra tempo para exercer a sua profissão principal: a de médico.

 

 

Ministério da Saúde apresenta queixa contra Leonid Rochal


Funcionários pedem ao primeiro-ministro russo Vladímir Pútin defesa contra as críticas do famoso médico às mudanças no sistema promovidas pela ministra Tatiana Golikova


Dária Nikoláieva e Dmítri Butrin, do Kommersant

Colaboradores do Ministério da Saúde apresentaram recentemente uma carta coletiva ao primeiro-ministro russo Vladímir Pútin pedindo defesa ante as críticas de Leonid Rochal, diretor do Instituto de Pesquisas sobre Cirurgia Emergencial e Traumatologia Infantil. A solicitação é uma resposta a um discurso proferido no dia 13 de abril, no qual o diretor faz pesadas críticas às reformas no sistema de saúde propostas pela ministra Tatiana Golikova. Rochal considera o sistema vigente, praticamente o mesmo desde os tempos de União Soviética, “o melhor do mundo”, e afirma que as mudanças a serem feitas são um aumento de verbas de duas a três vezes o valor atual e a passagem do controle do processo para as mãos dos médicos.

Em abril, Rochal apresentou, na presença de Pútin, uma detalhada crítica à série de reformas conduzidas pelo Ministério da Saúde russo. Propôs ainda aumentar o repasse da arrecadação para o sistema de saúde pública da Federação Russa, elevando-o ao patamar de 6% a 7% do PIB do país. Ele também criticou a noção de “rentabilidade” no sistema de saúde e as ações do Ministério, relacionadas a essa concepção, de reduzir as clínicas leves e os pontos de atendimento obstétrico e enfermarias, aumentar as despesas com clínicos gerais sem um acréscimo paralelo ao financiamento para médicos altamente especializados, restringir as despesas e o tempo dedicado a cada paciente e de integrar os serviços clínicos e de pronto-socorro. “Se o discurso dele tinha por objetivo destruir tudo que estamos fazendo e levar o nosso trabalho, ao qual temos dedicado todo o nosso tempo, a um impasse, conseguiu”, afirmam os autores da carta.

Não ficou claro, porém, de que maneira Pútin, a quem o Ministério da Saúde endereça o pedido, pode defender os subordinados de Tatiana Golikova das críticas. Afinal, a despeito do rigor de suas afirmações, Rochal manteve-se nos limites da temática profissional ao comentar as reformas no Ministério da Saúde da Rússia.

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