O Brics e a ordem mundial: é possível uma evolução?

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Em todos os cinco países, acredita-se que o discurso mundial é praticamente monopólio do Ocidente, o que não corresponde à disposição econômica e política das forças e também gera obstáculos para a tomada de novas resoluções, que só podem ocorrer como a ampliação do debate.

Caricatura:Niyaz Karim


As reuniões de cúpula do Brics produzem sempre comentários semelhantes no Ocidente. Em primeiro lugar, de menosprezo: é uma organização artificial, que não tem futuro, uma vez que os países que o compõem não possuem praticamente nada em comum. Em segundo lugar, de alarme: seus integrantes fazem oposição aos Estados Unidos e, por isso, é preciso prestar atenção para que os interesses americanos não sejam afetados. Um ponto contradiz o outro, de certa forma: afinal, se é tudo ficção, qual o motivo para receio?

Após a crise financeira mundial, a presença da Rússia no Brics, principalmente, produz a desconfiança dos analistas ocidentais: o que um produtor de matérias-primas está fazendo entre os líderes do futuro? O país, de fato, destoa dos demais. E não apenas pelo ritmo de seu crescimento, nitidamente inferior ao chinês ou ao indiano. A questão mais importante é que os problemas que os russos enfrentam são de um caráter completamente diferente daqueles que os demais integrantes do Brics estão superando. A despeito do ritmo impressionante de crescimento, essas nações ainda estão em desenvolvimento, enquanto a Rússia é um país desenvolvido, que passou por uma decadência e uma degradação sem precedentes e agora tenta recuperar sua posição. Sob alguns aspectos, são tarefas equivalentes; sob outros, missões opostas.

Tal discussão seria legítima se a questão fosse econômica. Mas é nítido que, para os Brics, esse grupo tem acima de tudo um conteúdo político. Isso reflete uma demanda objetiva por uma ordem mundial, que parece cada vez mais estar num beco sem saída, mais diversificada e menos ocidental. Em outras palavras: pautados nas instituições existentes desde os tempos de Guerra Fria, não será possível achar as respostas para os crescentes temas atuais. Novos processos ainda não surgiram e, por isso, os países descontentes com a situação tentam achar mais contornos que saídas.

Uma ordem mundial multipolar exige formações diferentes daquelas que antes, em um mundo bipolar, serviam. Mas, na realidade, isso não mudou até agora. Não à toa, nas declarações do Brics, ecoam dúvidas quanto à legitimidade do sistema existente. No entanto, não se deve presumir, por exemplo, que ocorrerá a reforma do Conselho de Segurança da ONU, cuja disposição reflete as forças tal como eram em 1945: os atuais membros permanentes, que possuem privilégios, não pretendem dividi-los com quem quer que seja. E isso inclui dois dos Brics: a Rússia e a China. Além disso, não existem critérios claros pelos quais se poderia reformar o Conselho de Segurança, criado a partir dos resultados da Segunda Guerra Mundial.

Em todos os cinco países, acredita-se que o discurso mundial é praticamente monopólio do Ocidente, o que não corresponde à disposição econômica e política das forças e também gera obstáculos para a tomada de novas resoluções, que só podem ocorrer como a ampliação do debate.

Todos os cinco países do Brics sentem-se limitados em suas tentativas de elevar seu peso e sua influência na arena internacional ao agir unicamente nos moldes das atuais estruturas. Pode-se dizer que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul estão buscando meios de fortalecer suas posições no processo de formação de uma nova ordem mundial. E o fato de que eles representam uma parte significativa do planeta dá peso adicional às suas aspirações.

Para a Rússia, que não consegue criar desde 1991 uma identidade estável no que se refere a sua política externa, a ideia do Brics não poderia ter vindo mais a calhar. Seria difícil encontrar um formato mais apropriado para, em primeiro lugar, redirecionar a política externa para um sentido menos ocidental; em segundo lugar, relembrar que o país tem um horizonte global, que após o fim da União Soviética reduziu-se a um alcance mais regional; e, finalmente, realçar as semelhanças com os países que lideram o ritmo e a qualidade do crescimento econômico. E tudo isso é baseado em uma atitude não de confronto, uma vez que todos os integrantes do atual bloco negam terminantemente que sua organização seja de oposição a alguém.

Os países participantes do grupo não postulam desejos desse tipo, até mesmo porque estão ligados aos Estados Unidos por estreitos laços de dependência econômica (no caso de China, Índia e Brasil) ou política (caso da Rússia). Mas não importa o que se diga ou pense nas capitais dos Brics se o assunto é um sistema internacional fechado, acertam os analistas, que dizem que o crescimento da importância deste grupo de países pode se dar somente por meio da diminuição, ainda que relativa, da influência do Ocidente.

O fato é que não é necessariamente ruim que isso se dê de maneira evolutiva. A realidade é que o mundo necessita de um novo equilíbrio e, para criá-lo, não é necessário resistir ao surgimento e ao crescimento da influência de outros centros; ao contrário, deve-se estimulá-los e induzi-los a trabalhar para a construção de um novo sistema. Se alguns trabalharem apenas na manutenção de seus privilégios enquanto outros cuidarem de limá-los secretamente, o mundo seguirá diretamente para um novo abalo. E a ordem mundial seguinte surgirá a partir dele e por critérios mais compreensíveis (os vencedores sairão fortalecidos), mas obtida a um alto preço.

Fiodor Lukianov é o redator-chefe da revista Russia in Global Affairs.

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