Em busca do tempo perdido

Médicos russos vão receber aumento de 30% para evitar subornos. O salário real, porém, seguirá ínfimo/Foto:Photoxpress

Médicos russos vão receber aumento de 30% para evitar subornos. O salário real, porém, seguirá ínfimo/Foto:Photoxpress

Mudanças devem estabelecer infraestrutura básica de saúde no país e aumentar a expectativa de vida da população, combinando prevenção e tratamento.

Quando a mãe de Evguênia Ivánovna foi hospitalizada recentemente, sua filha Zoia entendeu que deveria dar algum dinheiro para a enfermeira, mesmo se tratando de uma instituição do governo. Zoia lhe entregou 500 rublos (28 reais) e comprovou que o sistema de saúde russo, em tese gratuito de acordo com a Constituição de 1993, é na realidade dividido e mesclado entre serviços privados e um sistema público em condições inferiores.

A falta de investimento sucateou o sistema público de saúde, hoje conhecido por seus hospitais precários e funcionários mal pagos que aceitam pagamentos por fora pelo trabalho.

O governo russo está embarcando em uma enorme reforma, na qual serão investidos 788 bilhões de rublos (cerca de R$ 43 bilhões) para adequar os hospitais do país a novos e modernos equipamentos de alta tecnologia, aumentar os salários dos profissionais e, assim, melhorar o atendimento. Foi o que anunciou o presidente russo Vladímir Pútin em abril, no Fórum de Trabalhadores na Esfera Médica. Com essa medida, a Rússia vai aumentar as suas despesas no setor de 3,9% para 5%, atingindo os níveis determinados pela União Europeia.

“A taxa de natalidade na Rússia é semelhante à dos países desenvolvidos, mas há uma elevada taxa de mortalidade, como nos países emergentes”, compara Masha Lipman, analista do Centro Carnegie de Moscou. “Existem diversos motivos para esse alto índice, e um deles é a baixa qualidade do sistema de saúde”, afirma.

A combinação de uma dieta rica em gorduras, o hábito de fumar e o perigoso apreço nacional pela vodca está acelerando o crescimento da taxa de mortalidade russa.

Segundo previsões mais pessimistas, a população da Rússia poderia cair de 142 milhões para 100 milhões até 2050.

“Com as reformas, o governo construirá uma série de centros de atendimento de saúde por todo o país, além de focar nas doenças com maiores índices de mortalidade, as cardiovasculares e o câncer. Daremos ênfase à prevenção e as reformas incluirão treinamento para os médicos”, anunciou a ministra da Saúde, Tatiana Golikova, em um relatório oficial do governo.

Prevenção x tratamento

Gratuito e acessível a todo população, o sistema soviético focava basicamente no tratamento hospitalar, ignorando a prevenção. “Atualmente o câncer vem sendo, no geral, diagnosticado quando a doença já se espalhou e atingiu um estágio avançado”, explica Golikova.

Um dos programas das novas reformas vai estabelecer a abertura de novos centros de medicina perinatal de alta tecnologia por todo o país e a prática da cirurgia neonatal deve ser difundida para salvar a vida de um milhão de crianças por ano.

A saúde se tornou prioridade do governo em 2006, mas o sistema público estava em estado tão precário que poucos russos puderam notar alguma melhora ao longo dos anos. Muitos optaram por seguros privados, e as empresas têm incluído planos de saúde como benefício, inflando o ramo de seguros. Enquanto isso, os ricos se tratam no exterior. Hospitais israelenses, que geralmente contam com muitos médicos russos entre os funcionários, anunciam seus serviços no país.

Quem não pode arcar com os custos do tratamento acaba tendo problemas com o sistema público. Como Zoia descobriu, o pagamento de propina é uma praxe.

“Desde o primeiro minuto em que você entra no hospital, tem que pagar todo mundo: as enfermeiras, o pessoal da limpeza, o médico, o cirurgião...”, conta a analista

Lipman. “É a informalidade do sistema que torna a Rússia diferente e piora ainda mais o cenário.”

Sem garantia

“As reformas vão elevar os ordenados médicos em até 30%, mas, com salários tão baixos, a categoria não está impressionada com a medida”, afirma o especialista em saúde Kirill Danishevski.

Para Svetlana, que não quis revelar seu sobrenome, uma médica na cidade de Makhatchkalá, no Cáucaso do Norte, as melhorias das primeiras mudanças ainda não são visíveis. “Não recebemos nada da reforma. Na verdade, nossos salários diminuíram”, conta a médica, que recebe  5.240 rublos (R$ 294) mensais, depois de mais de 30 anos de serviço.

Segundo Svetlana, o único benefício para a região será o recebimento do primeiro aparelho de tomografia axial computadorizada (TAC) no hospital, programado para o fim do ano.

“Jogar dinheiro sobre o problema não é a solução. O ponto principal é mudar atitude e mentalidade”, acredita Lipman.

Mesmo com os novos recursos financeiros, a Rússia ainda continua bem atrás dos países europeus, que investem entre 7% e 10% do PIB no setor: seu investimento não ultrapassa os 5%.

Golikova prevê que somente após cinco anos a sociedade poderá começar a perceber qualquer resultado concreto das reformas.

No Daguestão, república do sul do país, os médicos lidam com a situação assumindo empregos extras. Um dos colegas de trabalho de Svetlana, por exemplo, tem seu próprio consultório. Apesar das ofertas de emprego,  Svetlana nunca considerou realmente a possibilidade de deixar o sistema público, considerando que os pacientes precisam de seus serviços.

“É um crime ir para outro lugar trabalhar. Para onde irão os doentes?”, pergunta.

FRASE



Tatiana Golikova, Ministra da Saúde/Foto:viktor vasenin_rg


" Com as reformas, o governo construirá uma série de centros de atendimento de saúde por todo o país, além de focar nas doenças com maiores índices de mortalidade, as cardiovasculares e o câncer. As ações incluirão treinamento.”


Programa de SMS americano vai orientar mães russas

Emma Burrows


Com uma notável queda de natalidade nos últimos anos, uma lei de 2007 introduziu na Rússia o “Bolsa-mãe” – um pagamento em dinheiro para mulheres que têm mais de um filho. Como resultado do programa, o presidente Dmítri Medvedev anunciou no ano passado um aumento de 21% na taxa de natalidade do país desde 2005, e um crescimento da população pela primeira vez em 15 anos.

É evidente que o estímulo à natalidade é parte importante do plano do governo para combater a queda do contingente populacional no país. Mas o que acontece quando o bebê é levado para casa?

“Baby”, um programa aplicado nos Estados Unidos, provê um serviço às mulheres registradas que envia três SMS por semana sobre cuidados pré-natal, imunização e dicas de segurança no carro. Por ter um dos melhores níveis de penetração de aparelhos celulares do mundo, a Rússia atraiu os organizadores do programa, que será oficialmente lançado no país em setembro.

Na variante russa, especialistas do Centro Kulakov – órgão integrante do Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social – vão assumir uma importante função na produção das mensagens de texto, com o intuito de dar foco aos problemas mais comuns enfrentados pelas mães russas.

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