Brasil e Argentina na mira dos filtros

Plano quer produção local e supervisão russa/Foto:Reuters/Vostock_photo

Plano quer produção local e supervisão russa/Foto:Reuters/Vostock_photo

Já instalada em Cuba, a empresa de soluções ecológicas russa Kondor-Eko está em negociações com o Chile, mas ainda planeja chegar aos dois maiores países da América do Sul.

Com o fortalecimento dos BRICS nos últimos anos, não apenas o mercado de países desenvolvidos se abriu para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, como os negócios entre esses países ganharam impulso.

Depois de trocarem maquinaria pesada, produtos alimentícios e até culturais, Brasil e Rússia podem também comercializar soluções ambientais, com a possível entrada no mercado brasileiro de uma empresa russa especializada em filtros para gases poluentes industriais, a Kondor-Eko.

A empresa russa já implementou suas recém-adquiridas patentes de filtros elétricos em dezenas de indústrias pesadas espalhadas pela Rússia e em pelo menos cinco outros países. Agora, tanto a Kondor-Eko como suas empresas-parceiras Niiogas e a alemã Synal tentam se aproximar do mercado brasileiro.

“É uma tecnologia de implementação lenta, passo a passo, e nós temos a intenção de levar isso adiante. Sobretudo agora, depois da construção de nossa primeira usina de produção de combustível a partir de biogás, na região de Iaroslav, na Rússia”, explica o alemão Markus Becker, diretor da Synal e representante do conglomerado.

Nas operações com possíveis clientes na América do Sul, a carenagem dos produtos será construída por companhias locais, enquanto o planejamento, a supervisão e a instalação da tecnologia principal ficarão a cargo da empresa russa.

A primeira parceria efetiva do grupo na América Latina acontece em Cuba. “Esse, por enquanto, é nosso único mercado certeiro, onde atuamos no parque industrial de metalurgia e gás com tecnologia de purificação de poluentes industriais. De lá, a partir da experiência que estamos adquirindo, vamos expandir nossos negócios para o resto da América Latina”, garante Becker.

Segundo o representante, existem negociações agora com o Chile, mas o conglomerado ainda estaria planejando novos passos no Brasil e na Argentina, para então seguir para mercados menores - mas não menos importantes - em outros países da região.

A empresa também se prepara para as possíveis acusações de que o plano de se expandir para novos mercados seja apontado como uma tentativa europeia de usar a América Latina como laboratório para novas tecnologias ou mesmo como depósito de lixo.

“A Alemanha há muito tempo não tem a necessidade de filtrar grandes quantidades de emissões poluentes“, explica Becker. “Não como Estados Unidos, Rússia, China ou mesmo o Brasil”.

De acordo com dados da Comissão do Clima da ONU, embora a Alemanha ainda ocupe a sexta posição no ranking global dos países que mais emitem gases do efeito estufa, o país registra um decréscimo de quase 4% ao ano nas emissões.

O Brasil vem logo atrás, em sétimo, mas com um aumento anual de quase 6%. A Rússia também apresentou um decréscimo, de cerca de 3%, mas ainda é o terceiro maior poluidor do mundo, atrás apenas de EUA e China.

“Não temos grandes usinas geradoras de energia, apenas unidades pequenas e descentralizadas. E teremos ainda menos necessidade nos próximos anos, já que, após a tragédia no Japão, iremos desativar nosso parque nuclear. Por isso, não se trata de rejeição à tecnologia, mas simplesmente de não termos a simples necessidade de filtragem de gases”, afirma Becker.

Enquanto multinacionais de todo o mundo desenvolvido se beneficiam de legislações ambientais mais brandas em países subdesenvolvidos, o uso de padrões técnicos obsoletos nessas regiões ainda é bastante discutido entre especialistas em comércio e meio ambiente.

Mas, segundo a professora Luciana Togeiro, do departamento de Economia da Unesp (Universidade Estadual Paulista), o Brasil ainda não pode ser apontado com um desses “paraísos da poluição”, já que as leis ambientais do país vêm sofrendo mudanças, tornando-se cada vez mais rigorosas desde a década de 1980. 

Na opinião de Luciana, o problema no país é outro: a dificuldade para implantar as práticas e fiscalizar o que está registrado no papel.

“Na literatura sobre legislação ambiental brasileira, essa deficiência é um assunto recorrente. Em várias obras, registra-se que temos melhores regras comparativamente a outros países em desenvolvimento, mas falhamos na hora de aplicá-las”, afirma a professora.

O grupo russo-alemão, entretanto, tem outras intenções, além de conquistar um novo mercado. “Temos uma parceria com um instituto alemão chamado ISAS, que faz pesquisas independentes no campo da bioindústria, e que nos ajuda a qualificar catadores de lixo. Nós temos as primeiras usinas desse tipo. E planejamos implementar essa solução, em Cuba, no Chile, no Brasil e onde mais houver oportunidade para isso. Então, nossa chegada ao Brasil é simplesmente uma questão de tempo e de achar o parceiro ideal.”

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