Jovens e conformados

Caricatura:Niyaz Karim

Caricatura:Niyaz Karim

Sociólogos e observadores políticos russos se perguntam se o país tem algo a aprender com o mundo árabe em matéria de revolta. A situação desses países, entretanto, é muito diferente.

A onda de revoltas na Tunísia, Egito, Iêmen e outros países no Oriente Médio recebeu diversos apelidos, como “Revolução do Facebook” e “Revolução Wikileaks”, entre outros. É inútil, porém, tentar dissecar essas manifestações. Em primeiro lugar, a agitação começou de forma espontânea; em segundo, os principais catalisadores desses movimentos são os jovens e, por fim, as pessoas estão sendo chamadas a participar de manifestações por meio de redes sociais e telefones celulares. Além disso, os motivos também são evidentes: paradoxalmente, os regimes autoritários árabes conferem grande valor à educação, vendo-a como uma forma de imunização contra o extremismo islâmico. Mas, ao mesmo tempo, uma geração mais jovem e de nível educacional superior não se sente realizada diante de condições autoritárias e regimes corruptos nos quais a mobilidade social é impossível, além da inexistência de sistemas judiciais que funcionem devidamente e estimulem um modo de vida honesto. A insatisfação logo se transforma em protesto.

Na Rússia, analistas políticos estão cada vez mais atentos aos acontecimentos no mundo árabe. Muitos se perguntam se isso poderia, um dia, acontecer na Rússia.

Para responder a essa pergunta, é importante reconhecer diferenças fundamentais entre a Rússia e os países árabes. A primeira é demográfica: a Rússia não possui as mesmas pressões demográficas do Egito, por exemplo. Até pouco tempo atrás, quando o governo começou uma iniciativa para elevar a taxa de natalidade, oferecendo incentivos materiais, o número de nascimentos na Rússia estava em queda. A população em idade ativa está diminuindo e a quantidade de aposentados cresce. Assim, os níveis de desemprego no país são baixos. Como o Estado desempenha um papel mais ativo na economia, um número crescente de jovens se emprega no setor público, considerado mais estável e que tem uma grande quantidade de agências de segurança pública.   

A segunda diferença é que a Rússia não possui uma poderosa força ideológica capaz de enfrentar informalmente o secular regime autoritário, um vazio que no Egito é preenchido pelo Islã. Na Rússia, a Igreja Ortodoxa Russa adota uma posição firmemente estadista. Na maioria das vezes, a juventude na Rússia não está muito preocupada com política, e a sociedade, de modo geral, ao contrário da do que se crê, se preocupa cada vez mais com seus interesses individuais, ao invés de se unir.

Ao mesmo tempo, a juventude russa não está imune à influência dos radicais de direita e ideias extremistas. Existem mais de 200 organizações extremistas no país, que reúnem cerca de 10 mil membros. Esses grupos são compostos principalmente por jovens entre 16 e 25 anos. A maior parte deles é formada por universitários ou estudantes de institutos profissionalizantes. Nos últimos dois anos, aumentou também o número de crimes cometidos por motivos nacionalistas, bem como a ocorrência de uma quantidade considerável de atos públicos extremistas. Essa tendência foi especialmente evidenciada em uma manifestação ocorrida no centro de Moscou em dezembro do ano passado.

No entanto, a ameaça do nacionalismo na Rússia, incluindo extremismo dentre os jovens, é algo que não deve ser exagerado. O objetivo de vida primordial dessa geração ainda é se adaptar às condições existentes e usar tais condições para obter benefícios pessoais: autorrealizar-se, construir carreira, melhorar a qualidade de vida e fazer pleno uso da “sociedade de consumo”.

Segundo analistas independentes, a subcultura dos skinheads é adotada por não mais que 60 mil a 70 mil pessoas por toda a Rússia, e, na verdade, aqueles com tendência a atos violentos não passam de 25 mil a 30 mil. Além do mais, um “jovem de cabeça quente” geralmente passa a ter uma visão mais moderada com o tempo. De acordo com pesquisas do Centro Levada, se este panorama extremista é compartilhado por 15% dos jovens, o número cai para 4% dentre as pessoas mais velhas.

No entanto, para eliminar o extremismo e o nacionalismo extremista, não será possível contar apenas com o nível relativamente elevado de tolerância russa a outras etnias – um legado da União Soviética. Disso também dependerá o sucesso dos jovens russos na busca de espaço e oportunidades para o progresso criativo da nação. Quando vista dessa forma, a situação geral na Rússia ainda não parece tão ameaçadora quanto a do Egito.

Gueórgui Bovt é comentarista político e vive em Moscou.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.