Desarmar para depois cooperar

Caricatura: Dmítri Divin

Caricatura: Dmítri Divin

O Start 3, o Tratado de Redução de Armas Estratégicas assinado entre a Federação Russa e os Estados Unidos em Praga completa um ano. O documento é tido como o símbolo do retorno das relações entre os dois países. Os líderes russo Dmítri Medvedev e americano Barack Obama decidiram reduzir seus arsenais nucleares estratégicos para 1.550 ogivas.

Para a Rússia, na verdade, isso não significa uma diminuição, mas a possibilidade de acumular mais armas: no dia da assinatura do acordo, no país havia, ao todo, 611 ogivas nucleares estratégicas de grande escala.

Vale lembrar como as partes chegaram a esse acordo e quanto de vontade política e de habilidades diplomáticas foram necessárias aos dois chefes de Estado e seus principais especialistas militares para concordarem sobre os termos e as modalidades de aplicação do documento Start 3. Houve ainda o esforço posterior para conseguir as ratificações no Senado norte-americano e no Parlamento russo.

Os dois lados trocaram informações sobre composição, estrutura e implantação de suas forças nucleares estratégicas, começaram a realizar inspeções mútuas e demonstraram grande confiança um no outro.

O Start 3 cria uma oportunidade para os dois países iniciarem uma cooperação em questões sensíveis de garantia de segurança, como o estabelecimento de um sistema de defesa antimísseis e, principalmente, no cenário de operações militares europeu (EuroPro), ultrapassando a discussão do problema de redução de armas nucleares táticas e voltando ao acordo sobre as Forças Armadas na Europa.

Em razão do primeiro aniversário dos acordos de Praga, a ex-secretária de Estado dos EUA Madeleine Albright e o ex-ministro do Exterior russo Ígor Ivanov escreveram um artigo publicado no The New York Times.

Eles propõem um sistema de medidas destinado a reduzir e controlar o armamento nuclear, conseguir a adesão de outros países com poderio nuclear e adotar medidas de confiança e transparência não só entre as duas maiores potências nucleares, mas também entre Moscou e Bruxelas - sede da OTAN (Organização Tratado do Atlântico Norte).

Um artigo semelhante, que contou ainda com a colaboração do diretor do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais, Aleksandr Dinkin, e o ex-subsecretário de Estado americano Strobe Talbott, foi publicado no International Herald Tribune. Os veteranos da política internacional pedem um plano de ação.

Primeiramente, EUA e Rússia deveriam negociar a próxima redução para até mil ogivas estratégicas.

Além disso, as partes poderiam adiantar o cumprimento do Start 3 para 2014-2015, em vez de 2018. Em segundo lugar, EUA, OTAN e Rússia devem cooperar na defesa antimíssil. Para começar, Rússia e a OTAN poderiam criar um centro de articulação para coordenar e analisar as informações de vigilância do espaço.

“Outro passo importante é renovar e expandir tarefas e testes conjuntos entre OTAN e Rússia na defesa antimísseis”, escreveram os especialistas americano e russo.

Segundo os autores do artigo, as medidas incentivariam a transparência e a confiança mútua. No longo prazo, a OTAN e a Rússia deveriam considerar uma maior integração dos sistemas de defesa antimísseis. Um modo de fazer isso seria criando um protocolo comum aos dois, que baseasse todas as decisões em caso de ativação de mísseis.

Em terceiro lugar, o texto pondera sobre as negociações acerca da redução de armamentos em Washington e Moscou, que deveriam abordar armas nucleares não-estratégicas. Antes de mais nada, os dois países devem estar de acordo sobre a classificação de armas da categoria “não-estratégicas” e trocar informações sobre quantidade, tipo, disposição e forma de armazenamento.

Os autores ainda acreditam que “questões secundárias podem afetar a redução de armas nucleares. Por exemplo, o progresso nas Forças Armadas na Europa certamente vai encorajar as negociações sobre armas nucleares não-estratégicas”.

Além disso, o controle de armas nucleares não poderia ser exclusividade da Rússia e dos Estados Unidos. Assim consideram Albright, Ivanov, Talbott e Dinkin, recomendando que Moscou e Washington consultem representantes oficiais da Grã-Bretanha, da França e da China sobre como fazer o processo de redução de armas nucleares multilateral, principalmente sob a perspectiva do encontro dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU para discutir questões nucleares, em junho deste ano. “Em um momento posterior no processo de redução de armas nucleares, devem ser envolvidas outras potências nucleares”, acreditam os autores.

Mas é possível ver um panorama ainda maior. A mudança total das relações entre Moscou e Washington não pode ser alcançada tocando-se apenas no sistema de segurança.

Nada fortalece as relações de boa vizinhança e a parceria estratégica como os benefícios econômicos da cooperação mútua. Como, por exemplo, o acordo bilateral que existe entre os EUA e a China, e que no ano passado chegou a US$ 60 bilhões (entre a Rússia e os EUA não passa de US$ 20 bilhões).

Por hora, há apenas alguns obstáculos, em sua maioria inventados, no caminho da adesão da Rússia à OMC, e o Congresso americano não suspende as restrições ao comércio de bens de alta tecnologia entre Washington e Moscou. Sendo assim, não cabe esperar uma reaproximação entre os dois governos e seus colaboradores.

Víktor Litóvkin é editor-chefe da revista Nezavisimoie voiennoie obozrenie (do russo, “Observador militar independente”).

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