Acelerar a privatização e ampliar produção

Arkádi Dvorkovitch

Arkádi Dvorkovitch

Um dos protagonistas das reformas liberais, assessor de assuntos econômicos da presidência, Arkádi Dvorkovitch fala sobre crise, economia e impacto da corrupção no futuro do país.

Os investidores estrangeiros reclamam do papel do governo na economia. O que está sendo feito para reduzir a participação do Estado?

 

Nós já concordamos em vender as ações do governo, é uma questão de tempo. É evidente que não precisamos mais da participação estatal em diversos setores. O banco Sberbank é um caso especial e precisamos ser cuidadosos, já que a empresa possui um grande componente social [muitos cidadãos russos depositam seu dinheiro no Sberbank]. A companhia estatal de energia Gazprom também e o [monopólio do transporte ferroviário] RZhD são casos à parte – mas todo o resto, como, por exemplo, o Banco VTB, não necessita da participação do Estado.

O mercado, porém, só vai conseguir absorver uma parcela, e não podemos vender tudo de uma vez. Mas o presidente russo já deu ordens para acelerar o ritmo do processo de privatização. No início do mês, o comitê do Conselho Nacional dos Bancos concordou em vender 7,58% do Sberbank nos próximos três anos.

 

Um ano atrás, uma série de veículos de imprensa sugeria a saída do “R” do grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Qual a sua opinião?

Os mercados da China e da Índia são muito maiores que o da Rússia, e isso é importante para os investidores. Juntos possuem um total de 2,5 bilhões de pessoas quando comparados aos 142 milhões de russos. O mercado russo é melhor quando comparado ao Brasil, onde o nível tecnológico e o tamanho da população são semelhantes.

As expectativas para a Rússia são muito maiores, já que somos tratados como um país europeu e precisamos atingir o mesmo nível de conforto para os investidores estrangeiros. Somos um país da Europa, portanto devemos seguir os mesmos padrões.

Mas talvez a maior queixa sobre a Rússia seja o alto nível de corrupção. O movimento anticorrupção já obteve algum sucesso?

Os esforços anticorrupção funcionam e a tendência é que continuem gerando efeito. Porém, embora venha ocorrendo uma mudança positiva, o trabalho não terminará em um ano. Os casos de subornos vêm aumentando, em parte porque as pessoas envolvidas estão vendo que a situação não vai durar muito tempo e querem tirar até a última gota.

Entretanto, essa é uma questão sistemática, já que não se trata apenas de uma quadrilha, mas sim da corrupção que existe em todos os níveis e que remete à interferência do governo na economia. Se pudéssemos diminuir essa presença, a probabilidade de corrupção também seria menor. A corrupção está ligada ao tratamento preferencial dado às empresas estatais.

Muito se fala sobre reformas, mas por que as mudanças são tão lentas?

A reforma perdeu força, pois não existe um foco preciso. Tivemos sucesso na redução da burocracia e também na diminuição de licenças, mas o programa ainda não tem um foco bem definido. O problema se torna ainda mais difícil porque, se a intenção é melhorar o clima de investimentos, temos que tentar combinar a iniciativa federal com a participação ativa das administrações regionais.

Existem algumas regiões que já são bastante ativas e têm sido bem-sucedidas – Kaluga [um dos principais centros de produção automobilística da Rússia] e Tataristão são dois bons exemplos de regiões ativas e que estão progredindo. Os governantes e prefeitos das regiões carregam uma grande responsabilidade. Precisamos introduzir as melhores práticas por todo o país, mas não podemos impor isso de cima para baixo. Poderíamos fazer mais para o projeto funcionar, mas não somos como a Geórgia ou a Estônia – ambos menores que uma única região da Rússia.

Com a aplicação de mais de US$ 600 bilhões em reservas monetárias para conter a crise, parecia que o governo poderia salvar toda a economia do país. Mas a Rússia foi gravemente atingida. À medida que a crise regride, quais são seus principais efeitos?

 

Se a crise tivesse sido local teríamos dinheiro suficiente para lidar com o problema, mas a crise foi global. A conclusão é que precisamos mudar a estrutura da economia e não repetir os mesmos erros. Mas veja os resultados da crise: não houve corrida aos bancos, nem grandes falências. Algumas pessoas compraram dólares, mas em poucos dias venderam o que tinham adquirido, e a demanda pelo rublo cresceu de novo.

Existe uma confiança no setor bancário e no rublo que não sentimos da última vez.  Um dos principais problemas é que as pessoas não percebiam a necessidade de competir globalmente.

Agora, depois da crise, elas estão começando a entender cada vez mais esse cenário e percebem que não podem contar com nosso próprio mercado.

O acordo de troca de ações entre a petrolífera BP e a estatal russa Rosneft foi suspenso depois que um tribunal independente da Suécia congelou o contrato por ir contra outra parceria da BP na Rússia, a TNK-BP. O que será feito para resolver a situação?

O acordo claramente começou com um risco legal e todos sabiam disso antes mesmo que fosse fechado, mas esperamos que as partes envolvidas cheguem a um consenso e a parceria não seja descartada por completo.

O governo russo concordou com vários líderes mundiais em aumentar sua produção de automóveis. Os russos estão prontos para competir no mesmo patamar no mercado mundial?

Esperamos atrair novos investimentos para a Rússia, e não apenas em linhas de montagem. Não estou certo de que esse objetivo possa ser atingido somente pelo aumento das tarifas, porque se trata de uma melhora nos investimentos. Não estamos preparados para competir em um mesmo nível com os produtores internacionais. Porém, a OMC (Organização Mundial de Comércio) estabelece um período de transição de sete anos, e isso é o bastante para estarmos prontos. Grandes empresas como a Avtovaz [fabricante do Lada] e a GAZ não são muito competitivas, portanto precisamos desse período de amadurecimento. Também precisamos de bons investidores estratégicos.

 

No setor farmacêutico a estratégia parece ser semelhante: aumentar as tarifas de importação para companhias que não ampliarem a produção na Rússia.

Com produtos farmacêuticos é um pouco diferente. Há uma grande demanda interna e podemos atrair investimentos só pelo tamanho do mercado. As empresas internacionais podem aumentar a produção em breve sem que precisemos aumentar os impostos.

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