Nunca mais: Uma Meta Essencial para a Segurança Nuclear

Foto: Reuters

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As pessoas listadas abaixo são especialistas de vários países que têm se engajado por muitos anos em pesquisa, desenvolvimento, design, construção, operação, administração e regulamentos de segurança de usinas nucleares. Nesta carta, queremos expressar profunda preocupação com o futuro da energia atômica em razão das consequências do terremoto e do tsunami na usina de Fukushima-Daiichi, no Japão.

Apenas a energia nuclear que não representa ameaça à saúde e à segurança da população e do meio ambiente pode ser considerada aceitável para a sociedade. Ainda que uma análise mais abrangente não seja possível no momento em razão da completa falta de dados sobre os eventos ocorridos, desejamos dar a nossa opinião sobre os graves acidentes nas estações nucleares e sugerir medidas adicionais para evitá-los à luz da experiência até agora obtida com Fukushima. Em primeiro lugar, é preciso rever os progressos feitos com outros graves acidentes que já aconteceram. 

O acidente da Unidade 4 de Chernobil (União Soviética, 1986) foi o maior da história. Impediu-se a dispersão de radioatividade para os outros reatores da usina, mas isso custou a vida de 31 pessoas, entre funcionários e bombeiros. Houve a propagação de material atômico para grandes áreas da Europa. Em termos regionais, o acidente foi a causa de muitos casos de câncer na tireoide e outros efeitos negativos para a saúde, além de ter grande impacto psicológico na população.

Graves acidentes nucleares pareciam ter ficado na história. No entanto, existiu mais um recentemente. Por quê?

Uma análise detalhada baseada em mais dados é necessária para dar uma resposta completa, mas algumas observações preliminares merecem ser feitas agora.

Na verdade, os graves acidentes ocorridos anteriormente foram resultado de uma combinação de eventos não previstos no design das usinas. Além disso, esses acidentes requereram medidas emergenciais fora da gama de circunstâncias para as quais seus funcionários foram treinados e equipados. E mais: a retrospectiva mostra que melhorias de custo relativamente baixo, detectáveis por meio de análises mais extensas feitas de forma antecipada, poderiam ter evitado esses desastres. 

Essas observações nos levam a concluir que outras atitudes podem ser tomadas para prevenir graves acidentes e limitar possíveis consequências se surgir algum imprevisto. A natural tendência do ser humano pela complacência pode ruir o regime de segurança nuclear, ou seja, se não perseguirmos a segurança de forma incansável, podemos perdê-la. 

Existem sinais de que a avaliação da segurança e as missões de revisão estão mais focadas em demonstrar que a segurança é satisfatória e está em conformidade com padrões nacionais e internacionais do que em encontrar e corrigir deficiências, sejam elas em design, operacionais ou em seus próprios padrões. Precisamos, portanto, reforçar nossa dedicação não somente em palavras, mas também em ações que levem a atitudes de questionamento, garantindo assim melhorias contínuas na segurança das usinas nucleares.

Há a necessidade de continuar examinando e melhorando a cultura de segurança em todos os níveis da administração das usinas nucleares, buscando olhar para os detalhes e implantando programas capazes de identificar, analisar e corrigir problemas na área de segurança e gerenciar o uso do material atômico de modo eficaz.

Uma atenção especial deveria ser dada à qualidade do treinamento dos funcionários das usinas nucleares. Para atingir esse objetivo, os países fornecedores de material atômico deveriam estabelecer centros para treinar especialistas para lidar com a tecnologia nuclear nas nações destinatárias desse produto. Deve-se dar também mais cuidado com a definição de requerimentos de segurança para usinas construídas sob antigos padrões de segurança, tendo em vista que tais indústrias ainda têm um tempo considerável de operação. 

À luz da falha, bastante comum, de um sistema de segurança redundante (de energia elétrica) causada pelo tsunami em Fukushima, as autoridades deveriam perguntar qual era a extensão desse problema e se outras vulnerabilidades no sistema de operação das usinas poderiam ser reveladas pela tecnologia atual.

A responsabilidade e a qualificação do governo e das corporações oficiais envolvidas na tomada de decisões com relação à segurança nuclear deveriam ser revistas. Instituições nucleares, inclusive reguladores de segurança, deveriam ser responsáveis por suas ações e transparentes em suas comunicações para que possam merecer a confiança da população. É necessário assegurar que os reguladores de segurança nuclear em todos os países sejam totalmente independentes e tenham sua competência, fontes e autoridades garantidas. Além disso, os prêmios de seguro distribuídos aos donos de usinas nucleares deveriam depender do desempenho da segurança desses lugares.

A segurança da energia nuclear vai além dos limites nacionais. Medidas propícias para fortalecer mais os regimes internacionais de segurança nas usinas deveriam ser identificadas e implantadas, após a realização de discussões apropriadas dentro dos moldes da Convenção de Segurança Nuclear (IAEA), de órgãos regionais como os Estados Unidos ou organizações industriais como a WANO. Uma questão decisiva deveria ser quais medidas seriam mais eficazes para promover um alto nível de segurança nuclear mundial.

É necessário que sejam desenvolvidas e incorporadas exigências para novos países que desejam começar a usar a energia atômica. Tais países precisam demonstrar suas capacidades de seguir altos padrões internacionais no que diz respeito à segurança e à não postergação da validade dos programas nucleares.

Esperamos que nossas recomendações sejam levadas em consideração pelas autoridades nacionais e organizações internacionais e que medidas corretivas sejam desenvolvidas. 

Estaremos sempre prontos para compartilhar a nossa experiência e expertise e dar suporte ao desenvolvimento e à implantação dessas e de outras recomendações que possam atingir uma meta comum: nunca mais vivenciar graves acidentes no futuro e responder efetivamente se eles ocorram mesmo com todas as precauções.

As pessoas listadas a seguir ajudaram na formulação dessa declaração e concordam com a sua emissão.

Adolf Birkhofer (Alemanha), professor emérito da Universidade de Munique e ex-presidente do Comitê de Segurança das Instalações Nucleares da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OECD);

Agustin Alonso (Espanha), ex-diretor da Instituição de Regulação da Espanha e vice-diretor do Comitê de Segurança das Instalações Nucleares da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OECD);

KunMo Chung (Coreia do Sul), ex-ministro de Ciência e Tecnologia da Coreia do Sul e ex-vice-presidente do Conselho de Energia Mundial;

Harold Denton (EUA), ex-diretor da Comissão da Regulação Nuclear dos Estados Unidos;

Lars Högberg (Suécia), ex-diretor-geral do Órgão de Fiscalização de Energia Nuclear da Suécia e ex-presidente da Agência de Energia Nuclear da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OECD);

Georgi Koptchinski (Ucrânia), ex-vice-diretor da Autoridade de Regulação Nuclear da Ucrânia;

Jukka Laaksonen (Finlândia), diretor-geral da Autoridade de Segurança Nuclear e Radioativa da Finlândia;

Salomon Levy (EUA), ex-gerente de design e manufatura da Divisão de Equipamentoss de Energia Atômica da GE (General Electric);

Roger Mattson (EUA), ex-diretor de sistemas de segurança em reatores do Órgão de Regulamentação Nuclear dos Estados Unidos;

Viktor Murogov (Rússia), diretor da Associação Russa de Energia e Educação Nuclear e professor da Universidade Nacional de Pesquisas Nucleares da Rússia;

Nikolai Ponomariov-Stepnoi (Rússia), integrante da Academia Russa de Ciências e ex-diretor do Instituto Kurchatov;   

Víktor Sidorenko (Rússia), integrante da Academia Russa de Ciências e ex-vice-ministro de Poder Nuclear da União Soviética e da Rússia;

Nikolai Chtainberg (Ucrânia), ex-engenheiro-chefe de Chernobil e ex-vice-ministro de Combustível e Energia da Ucrânia

Pierre Tanguy (França), ex-inspetor geral de Segurança Nuclear da Electricité de France;

Jurgis Vilemas (Lituânia), integrante da Academia Lituana de Ciência e ex-diretor do Instituto Lituano de Energia

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