Após Fukushima, Rússia mantém construções de usinas nucleares

Foto: Reuters

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Embora a Europa esteja reavaliando o uso de energia nuclear após o desastre no Japão da usina de Fukushima, o país vai conservar o rico setor de exportação de energia nuclear.

Enquanto o mundo vê os esforços para contenção da ameaça da usina japonesa de energia nuclear de Fukushima, os governos estão rapidamente reexaminando seus programas nucleares ou estão afirmando que não irão reduzi-los, como é o caso da Rússia. 

A chanceler alemã Angela Merkel foi forçada a recorrer a uma vergonhosa reviravolta depois que os seis reatores de Fukushima apresentaram problemas poucos dias após a sua infraestrutura de suporte ser levada pelo tsunami de 11 de março. Ela ordenou que os seis reatores mais antigos da Alemanha fossem fechados para uma série de testes, mesmo tendo forçado, seis meses antes, um plano para aumentar o total de energia nuclear gerado. A decisão gerou um dos maiores protestos públicos da década no país. 

A maioria dos líderes da Europa Ocidental encontra-se em posições semelhantes, mas o primeiro-ministro russo Vladímir Pútin foi rápido em afirmar que o país continuará a construir novas estações de energia. No entanto, seguindo a decisão de Angela Merkel, ele também ordenou uma abrangente revisão de segurança nas instalações nucleares russas.

Seus comentários foram seguidos por declarações semelhantes de líderes da Bielorrússia, Ucrânia e Turquia, que adquiriram recentemente usinas de energia nuclear feitas na Rússia. 

Durante uma visita a Moscou em março, o primeiro-ministro da Turquia Tayyip Erdogan foi comunicado pelo presidente Dmítri Medvedev de que a Rússia asseguraria que a base de energia nuclear da Turquia, planejada para a cidade de Akkuyu, na região sul, foi desenvolvida para resistir a poderosos furacões. "A base a ser construída servirá de exemplo para o resto do mundo", disse Erdogan.

No mesmo dia, Rússia assinou um acordo de cooperação na construção de uma base nuclear na Bielorrússia no valor de US$ 6 bi (3,7 milhões de libras). A obra está marcada para começar em setembro. O país também abriu conversações sobre a possível participação de companhias russas em um projeto para modernizar a base húngara de energia nuclear de Paks. No início do mês, uma reportagem anunciou que a Rússia também fechou um novo contrato para construir uma base de energia nuclear em Bangladesh no valor de US$ 2 bi, citando oficiais do governo.

A opinião pública no Oeste europeu ainda é cautelosa sobre as estações de energia nuclear feitas na Rússia em razão da explosão do reator de Chernobyl em 1986. O país abandonou a classe de reatores RMBK, da era soviética, após o acidente. No entanto, ainda existem 11 equipamentos do gênero operando no país. 

Enquanto o Japão luta para conter sua catástrofe nuclear, Pútin reafirmou que a Rússia continuará a vender tecnologia nuclear a seus aliados e a próxima geração de usinas nucleares está mais segura do que nunca. "Temos agora um arsenal de meios tecnológicos avançados para garantir usinas de energia nuclear de operação estável e livre de acidentes", afirmou.

A Rússia tem os reatores nucleares mais novos do mundo, com uma idade média de 19 anos, em comparação com a Europa Ocidental (26 anos) e Estados Unidos (30 anos), segundo a Bloomberg. O reator de Fukushima tem 38 anos de utilização, sendo assim um dos mais velhos do mundo ainda em operação. Sua desativação foi agendada para este ano, mas sua licença acabou sendo renovada para mais dez anos.

Observadores da indústria nuclear notaram que os mercados emergentes são mais entusiastas a entrar nessa área. "Até agora, países com essa característica foram canalizadores do processo de restabelecimento da indústria nuclear, contando com uma partilha desproporcional do crescimento esperado do uso de energia atômica", disse Serguei Bubnov, que administra os fundos de investimento da Renaissance Asset Managers. "Fora os 62 atualmente em construção, 48 reatores (77% do total) estão sendo instalados na Rússia, na China, na Índia e na Coreia do Sul." 

Entre os mercados emergentes, a Rússia é o mais confiável: 16% da sua energia advêm da energia nuclear e a capacidade nuclear está planejada para dobrar nas próximas duas décadas. “Inevitavelmente, alguns desses planos terão de ser reconsiderados", disse Bubnov. "A Rússia tem uma influência ambiental que talvez resulte no adiamento ou até mesmo no cancelamento de alguns projetos."

Enquanto a economia russa volta a crescer fortemente, porém, o governo tem pouca opção a não ser construir novas bases nucleares. Antes da crise financeira, o fornecimento e a demanda por energia eram equivalentes, o que significa que o crescimento da economia poderá ser contido por blecautes mais para adiante.

O Ministério da Energia planeja lidar com isso construindo 18 usinas nucleares e hidráulicas, com uma capacidade combinada de 11,2 gigawatts. "É impossível falar sobre o balanço da energia global sem a indústria nuclear", afirmou Putin em encontro do Conselho Intergovernamental da Comunidade de Economia da Eurasia (EurAsEC).

Sem esperar até que a crise de Fukushima seja resolvida e uma investigação seja feita por experts, as autoridades russas ordenaram uma revisão urgente de todos os projetos de construção de bases nucleares tanto em território russo como no Exterior. Testes já estão sendo feitos para colocar à prova a qualidade dos dispositivos contra fogo e tremores das usinas do país. E instalações serão fechadas se for preciso"Iremos tomar todas as medidas necessárias, não importa o que custar", anunciou Aleksandr Lokshin, vice-diretor geral da corporação de energia nuclear de Rosatom.

Entretanto, os eventos em Fukushima não parecem ter afetado seriamente a confiança no poder nuclear da indústria russa. Uma pesquisa pós-tsunami do portal Nuclear.ru com especialistas russos mostrou que 42% estavam convencidos de que o acidente não mudaria substancialmente as convicções do país em relação à energia atômica, enquanto apenas 16,5% dos entrevistados acreditavam que os eventos reverteriam o renascimento nuclear visto em muitos países nos últimos anos.

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