As Forças Armadas às vésperas da reforma demográfica

Nesta primavera, o número de soldados recrutados vai diminuir em 60 mil pessoas/Foto: ITAR-TASS

Nesta primavera, o número de soldados recrutados vai diminuir em 60 mil pessoas/Foto: ITAR-TASS

Na primavera, número de soldados recrutados vai diminuir em 25%

O presidente Dmítri Medvedev promulgou recentemente o decreto do recrutamento para as Forças Armadas na Rússia. O governo espera convocar 218,7 mil jovens na primavera, mas os representantes da “Soldatskie materi” (Mães dos Soldados) têm certeza que o Ministério da Defesa não conseguirá cumprir esse plano. Além disso, mais de 200 mil rapazes estão fugindo do chamado militar. 

Ontem, o decreto de recrutamento foi publicado no site do chefe do Estado. Anteriormente, o Ministério da Defesa referia-se a um plano menor, com estimativa de 203,7 mil pessoas convocadas. O coronel-general Vassili Smirnov, vice-chefe do Estado Maior, explicou à emissora Ekho Moskvy (“Eco de Moscou”) que os recrutados excedentes devem ser enviados para as Forças Internas. O recrutamento dos russos de 18 a 27 anos será realizado de 1º de abril a 15 de julho.

Aa Forças Armadas planejam enviar para as tropas 60 mil rapazes a menos que no outono de 2010, período em que 278,8 mil cidadãos foram recrutados. De acordo com Smirnov, o plano anterior não foi cumprido porque agora estão sendo chamados moços nascidos no período da baixa demográfica dos anos 90 e, além disso, o ministério quer aumentar a qualidade do contingente dos recrutados.

As comissões médicas reclamam da saúde dos militares: 30% são considerados impróprios para o serviço militar. Além disso, mais da metade deles é recrutada com restrições que não lhes permitem servir, por exemplo, nas tropas de desembarque. No Estado Maior, supõe-se que o número dos recrutados no futuro mudará não mais do que entre 3% e 5%.

Presidente da organização social Soldatskie Materi, Svetlana Kuznetsova acredita que o Ministério da Defesa não conseguirá cumprir nem seus novos planos. O expert cita como exemplo a situação nos comissariados militares de Moscou, nos quais o recrutamento, em suas palavras, “fazem enlouquecer os seus chefes”. "Eles não fazem ideia de como cumprir suas metas. Quando entenderem que lhes faltam pessoas, vão recorrer às chamadas rusgas policiais e fazer recrutamentos espontâneos”, considera. 

Segundo o Estado Maior, fogem as obrigações militares em todo o país mais de 200 mil pessoas, praticamente o mesmo número de pessoas que serão chamadas pelas Forças Armadas. Entretanto, durante o recrutamento do último outono, somente 80 processos penais foram iniciados contra fugitivos. Neste ano, será mais difícil para os comissariados militares efetuarem rusgas policiais, visto que a lei federal proíbe aos policiais participar de atividades do gênero.

Os deputados da Duma Estatal, membros do grupo parlamentar Rússia Unida, tentaram ajudar os militares apresentando um projeto de lei sobre o prolongamento do período de recrutamento na primavera (até 31 de agosto) e no outono (até 31 de dezembro). Deste modo, o prazo de serviço real dos recrutados primaveris aumentaria no mínimo em um mês. O governo federal, porém, não o aprovou. 

O problema principal nas Forças Armadas é a rebeldia dos sargentos. Na opinião de Smirnov, os recém-recrutados levam os seus hábitos arruaceiros da vida civil para as casernas: para ele, 42% dos recrutados não trabalham nem estudam. Na Procuradoria Geral Militar, constatou-se que o número de transgressões da lei nas Forças Armadas diminuiu entre 12 e 14% no início do ano passado, mas em dezembro as ocorrências aumentaram em 16%. Além disso, 25% dos crimes foram cometidos por sargentos. Serguei Fidinski, procurador militar geral da Federação Russa, destaca esse problema, revelando que soldados e sargentos de diversos grupos étnicos e regionais tentam impor as suas ordens nas casernas, enquanto os comandantes das unidades fazem vista grossa.

A redução do prazo do serviço militar também não deu certo. Como antes, os militares se dividem em “novos” e “velhos” e o inconformismo dos sargentos é a causa de muitos suicídios. As informações mais recentes sobre transgressões da lei nas tropas são ainda mais tristes: somente nos primeiros dois meses de 2011, foram cometidos 500 crimes violentos, causando a morte de duas pessoas e ferimentos em outras 20.

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