Da disputa à cooperação

Gagárin distribui autógrafos em São Paulo, em setembro de 1961. Primeiro homem a viajar ao espaço, ele era filho de um carpinteiro/Foto:ITAR-TASS

Gagárin distribui autógrafos em São Paulo, em setembro de 1961. Primeiro homem a viajar ao espaço, ele era filho de um carpinteiro/Foto:ITAR-TASS

Meio século depois do voo de Iúri Gagárin, ainda na Guerra Fria, a Rússia mais uma vez desponta na exploração espacial, agora ao lado de parceiros.

Era 12 de abril de 1961 quando às 9h06 o filho de um carpinteiro deu uma volta ao redor do planeta Terra. Iúri Gagárin, então com 27 anos, era o único tripulante da nave Vostok, que retornou após 108 minutos à  província russa de Saratov.

Impulsionado pelo interesse soviético de afirmar sua superioridade técnica em relação aos Estados Unidos, o voo de Gagárin se tornou uma das mais significantes conquistas do século 20. A curta, porém épica, incursão pelos céus disparou uma corrida entre as duas superpotências da Guerra Fria.

“Nenhum psicólogo ou político poderia prever qual seria o efeito do voo de Gagárin sobre o mundo”, disse o cosmonauta Aleksei Leonov à Gazeta Russa. “Essa foi a melhor competição que a raça humana já desempenhou: quem poderia desenvolver a melhor espaçonave, quem seria o melhor piloto de foguete... Ninguém sofreu por causa disso. Pelo contrário, as pessoas estavam ocupadas aperfeiçoando equipamentos em vez de criar armas de guerra”, acredita.

Gagárin morreu jovem, em 1968, durante acidente trágico enquanto treinava para sua segunda missão espacial. Ele foi enterrado próximo ao mausoléu de Lênin, na Praça Vermelha, em Moscou, e até hoje é um ídolo no país. Todo ano, na data de sua viagem ao espaço, celebra-se o Dia do Cosmonauta na Rússia.

Desde então, o país tornou-se líder no mercado mundial de lançamento de satélites comerciais, pretende estabelecer uma base na Lua até 2030 e deve realizar uma missão a Marte em seguida.

“O espaço sempre será uma prioridade. E isso não é apenas uma opinião, mas o posicionamento oficial do nosso Estado”, declarou o presidente russo Dmítri Medvedev à tripulação da ISS (sigla em inglês para Estação Espacial Internacional) em abril do ano passado.

Decolagem da Vostok, que levou Gagárin ao espaço em abril de 1961/Foto:AFP/Eastnews



Investimentos

Embora o governo de Barack Obama tenha podado as esperanças da Nasa de realizar missões tripuladas à Lua ou a Marte, a Rússia ainda fica muito atrás dos Estados Unidos em termos de orçamento espacial. Enquanto os gastos russos no setor aumentaram para US$ 3 bilhões neste ano, a verba da agência espacial norte-americana é de US$ 19 bilhões.

Ao mesmo tempo, os olhares  se voltam para China e Índia, que também possuem as próprias ambições cósmicas. Os chineses já fizeram o terceiro lançamento da nave espacial Shenzhou VII e a primeira caminhada no espaço, em 2008, enquanto a Índia está planejando realizar um voo tripulado até 2014.

Prioridades

Com o passar dos anos, a exploração espacial se tornou cada vez mais cooperativa, especialmente com a criação da ISS, composta por 18 países-membros.

Os programas espaciais que eram prioridade durante a Guerra Fria começaram a perder força na década de 70 e acabaram de vez em julho de 1975, quando as naves Apollo (EUA) e Soiuz (URSS) acoplaram em órbita, simbolizando o fim da corrida espacial e das tensões entre os dois países.

Depois do colapso da União Soviética, em 1991, Moscou e Washington uniram recursos em missões para a estação espacial russa Mir, que foi descartada em 2001, após 15 anos de operação. Paralelamente, deu-se início, em 1998, ao projeto da ISS, que atualmente possui um complexo permanente com 14 módulos.

Ônibus russo

No mês passado, depois de 30 anos de serviço e 135 lançamentos, a frota de ônibus espaciais da Nasa fez sua viagem final à ISS. Quando as naves forem totalmente aposentadas, ainda esse ano, um ônibus especial russo de menor tamanho ficará responsável por transportar pessoas e suprimentos até que um novo equipamento norte-americano seja produzido. Tal inversão fortalece o papel e a renda da agência espacial russa, cujo financiamento na década de 90 era tão curto que foi preciso realizar filmagens de comerciais na Mir e depois enviar turistas à ISS com o intuito de levantar verbas.

“O futuro está na cooperação mútua”, afirmou Perminov, diretor da Roskosmos, a agência espacial russa, à Rádio Voz da Rússia. “No futuro, haverá instalações industriais automatizadas para mineração e processamento de minerais nos satélites do Sistema Solar e estações de energia que alimentem tanto a indústria espacial quanto a Terra. Consequentemente, a produção industrial será transferida do nosso planeta e a biosfera da Terra será limpa e restaurada”, disse.

Cinquenta anos depois de observar nosso mundo lá de cima, Gagárin certamente aplaudiria este nobre objetivo. “Ao girar em torno da Terra dentro da nave espacial, pude enxergar quão bonito é o nosso planeta”,  disse o russo após o pouso.

Depois dele, muito seguiram o mesmo caminho. Mais de 500 pessoas de 38 países passearam pelo espaço só nos últimos 15 anos, somando investimentos de US$ 100 bilhões na ISS. Porém, os quase 400 mortos do período não deixam esquecer que a exploração espacial continua a ter um alto custo.

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