Pão (com gergelim) e circo

Foram necessários 14 anos de luta para que George  Cohon conseguisse introduzir o primeiro restaurante  McDonald’s na URSS/Foto: AP

Foram necessários 14 anos de luta para que George Cohon conseguisse introduzir o primeiro restaurante McDonald’s na URSS/Foto: AP

Canadenses George e Craig Cohon apostam no potencial da Rússia desde 1976 e, mesmo com atentados, não pensam em deixar o país.

Em 1976, o presidente do McDonald’s no Canadá, George Cohon, encontrou-se com a delegação soviética para as Olimpíadas de Montreal e resolveu, no auge da Guerra Fria, levar a rede para a União Soviética.

O primeiro McDonald’s foi inaugurado na Praça Púchkin, no centro de Moscou, apenas em 1990. No primeiro dia de funcionamento, mais de 30 mil clientes apareceram, e tiveram que ser contidos por policiais.

“Naquela época existiam restaurantes cujas filas eram longas para clientes portando rublos e praticamente não havia fila para pessoas com dólares. Nós colocamos uma placa: ‘somente rublos’”, diz Cohon, 73 anos, à Gazeta Russa. Ele tem agora 280 restaurantes e 25 mil funcionários pelo país.

Negócio de família

Filho de George, Craig Cohon trabalhou como alto-executivo da Coca-Cola quando o produto estava sendo introduzido nos mercados da Europa Oriental, durante os anos 90.

A mais recente negociação da dupla de pai e filho é um ambicioso show do Cirque du Soleil. A produção de US$ 57 milhões intitulada Zarkana conta com a participação do músico Elton John.

“Foram necessários 14 anos para trazer o McDonald’s para a Rússia, quatro anos para estabelecer a produção e distribuição da Coca-Cola no país e apenas oito meses para acertar os detalhes do show Zarkana, do Cirque de Soleil. É um bom parâmetro para a atual facilidade de se fazer negócios”, diz George. 

O show Zarkana, novo projeto dos Cohons para o público russo, será aberto inicialmente na casa de espetáculos Radio City Music Hall, em Nova York, antes de estrear em seu palco principal, no centro de Moscou.

Os Saltimbancos, principal show itinerante do Cirque de Soleil, vai ser apresentado nas quatro maiores cidades do país em 2011. Desde 2008, o Cirque investiu aproximadamente US$ 50 milhões na Rússia, e seu fundador Guy Laliberté pagou US$ 35 milhões para fazer turismo pelo programa espacial russo.

“O Cirque du Soleil é incrível. Estará em Nova York e no teatro do Kremlin”, diz Craig. “Somos a primeira empresa de entretenimento do Ocidente a estabelecer parceria com o Kremlin”.

Ambos se mostraram otimistas quanto ao futuro da Rússia e insistiram que os críticos ocidentais poderiam ser um pouco mais pacientes quando falam sobre o desenvolvimento democrático do país.

Risco amigável

Os Cohons defendem abertamente o investimento na Rússia e desconsideram as preocupações de empresários mais avessos a riscos. “Eu estava aqui quando tanques de guerra bombardearam a Casa Branca [sede do Parlamento russo] em 1993”, diz Craig. “Nós continuamos nossos negócios e assinei meu acordo mais recente no Kremlin no mês passado, meia hora antes do atentado no Aeroporto de Domodêdovo.”          

Ele mesmo faz o contraponto. “Poderia facilmente me imaginar como um investidor russo nos Estados Unidos dizendo: ‘Eu estava aqui durante eventos como o bombardeio à cidade de Oklahoma, os ataques de 11 de setembro e o massacre no Arizona”, completa.

Segredo do sucesso

Craig Cohon afirma que para obter sucesso na Rússia é preciso se apoiar em três pilares: comprometimento em longo prazo, cultivo de relações pessoais e administração de perto. “É um mercado de acordos”, diz.

Os Cohons afirmam jamais terem recebido qualquer proposta de suborno, uma queixa comum entre os homens de negócios de qualquer nacionalidade quando buscam acordos no país.

“Pode ser pelo fato de termos mantido os nossos princípios desde o início”, diz Craig. “Estamos aqui há muito tempo, construímos relacionamentos, contratamos nativos e ajudamos a desenvolver outros setores, como a agricultura. Talvez as pessoas que reclamam [sobre a corrupção] sejam aquelas que não tiveram êxito por terem dado apenas um rápido passeio pela Rússia”.

Análise

Para o editor de mercado do diário Kommersant, Dmítri Butrin, o modelo desenvolvedor da rede impediria seu boicote. “McDonald’s é uma franquia e está comercializando um modelo financeiro e logístico na Rússia. Por isso eu não esperaria que eles encontrassem corrupção pelo caminho”, diz.

George Cohon enfatiza que filantropia é outro fator crítico se alguém quiser ser levado a sério no país. “Diversos amigos meus queriam vir para a inauguração do primeiro McDonald’s na Rússia. Eu disse a cada um: ‘Está bem, você paga sua própria passagem aérea, hotel e refeições, e depois me doa um cheque de US$ 10 mil’. O dinheiro foi destinado à primeira instituição de caridade soviética para crianças. Agora temos nossa própria entidade, que transforma espaços inutilizados de hospitais infantis em apartamentos, para que os pais possam permanecer com seus filhos.”

Profecias de mercado

“Até 2030, eu vejo quatro pontos centrais de desenvolvimento para a Rússia: a classe média aprendendo a defender seus direitos por meio da evolução de partidos políticos fortes; as empresas se afastando do ramo de matérias-primas e investindo em produção e alta tecnologia - o que já vem acontecendo -; o desenvolvimento cultural através de bases locais, em oposição à importação do Ocidente; e a Rússia se tornando líder nos esforços globais antiterroristas, ao lado dos Estados Unidos e da Índia”, palpita Craig.

Sorrindo, George diz esperar ansiosamente a realização das profecias do filho. “Ate lá, terei completado 93 anos”, diz.

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