Fim da corrida por bancos de varejo

Neons anunciam bancos de varejo estrangeiros e locais em Moscou. Banqueiros nacionais afugentaram investidores externos/Foto: Kommersant

Neons anunciam bancos de varejo estrangeiros e locais em Moscou. Banqueiros nacionais afugentaram investidores externos/Foto: Kommersant

Presença estatal, por meio do VTB e do Sberbank, tornou o setor de difícil competição para os bancos internacionais.

A corrida de ouro pelos negócios de bancos de varejo na Rússia chegou ao fim depois que dois dos grandes nomes do mercado mundial anunciaram a venda de suas participações no varejo russo.

Os bancos britânicos HSBC e Barclays Bank  são os mais importantes de uma série de bancos estrangeiros que estão desistindo de fazer negócios na Rússia. Ambos planejam vender suas operações bancárias de varejo apesar dos investimentos pesados realizados nos últimos tempos.

Com uma população de mais de 142 milhões de pessoas, mas pouca penetração bancária – somente um em cada quatro russos possui qualquer tipo de conta no banco –, antes da crise o varejo bancário dobrava de tamanho a cada dois anos. Esse desempenho atraiu diversas operações internacionais para o mercado a partir de 2004, o que levou os preços de aquisições bancárias às alturas.

Compra e venda

Em março de 2008, o Barclays Bank pagou o valor top dólar de 373 milhões  de libras (R$ 998 milhões) pelo Expobank, com sede no extremo leste da Rússia, no ápice da evolução das operações bancárias - o que atribuiu ao banco um valor seis vezes maior do que a tabela. Nos anos seguintes, o Barclays lançou rapidamente uma oferta de varejo por todo o país. Na metade de fevereiro, porém, anunciou procurar um comprador para seus negócios de varejo e a intenção de focar somente na área de investimentos. “Perceberam em Londres que estavam pagando quantias absurdas por esses bancos. Houve uma debandada para a Europa Oriental, mas agora eles estão dispostos a retomar o prejuízo. Parece, ao meu ver, uma decisão muito emocional”, disse Serguei Nazarov, diretor do fundo de instituições financeiras da Renaissance Asset Managers.

Efeito dominó

Uma semana depois, o HSBC também encerraria operações de varejo, apenas dois anos depois de anunciar ambiciosos planos de expansão - embora o banco não tenha confirmado tais informações.  

Durante a crise, o HSBC duplicou sua capitalização e seu ex-diretor Stuart Lawson anunciou que o banco “buscava pessoas com alto patrimônio líquido como catalisadores de sua estratégia de crescimento”.

O banco inglês lançou uma “oferta de varejo de excelência”, como foi chamado o plano, em junho de 2009. Quatro agências foram abertas em Moscou e uma em São Petersburgo, como parte de um plano de expansão de US$ 200 milhões. Mas um ano depois Lawson deixou a empresa num estado descrito como de “desacordo amargo de estratégia” por uma fonte do banco que não quis se identificar.

A saída dos dois bancos britânicos ocorreu após uma série de bancos menores desistirem do mercado russo. O holandês Rabobank desistiu de sua licença de varejo no ano passado. O espanhol Santander vendeu em dezembro seus negócios no país para o banco local Orient Express. As instituições belgas Groep NV e Swedbank AB, maior banco de empréstimo do Báltico, também reduziram operações na Rússia em 2010, devido à competição acirrada.


Números


20

 mil é o número de agências que o banco Sberbank, fundado ainda na era soviética, tem espalhadas pelo país.

373

milhões de libras, um equivalente a R$ 998 mi, foram investidos na compra do Expobank pelo Barclays Bank.

200

milhões de dólares foram gastos na expansão do HSBC na Rússia, inclusive com abertura de agências, em 2009.


Crise colaborou

Os motivos para a diminuição de investidores estrangeiros são diversos. A crise obviamente reduziu ganhos e incentivou o aumento de empréstimos não pagos.

Ao mesmo tempo, quase todos os bancos russos abaixaram as taxas de juros quando a crise recuou, num esforço para reconstruir suas bases de reserva, reduzindo as margens de lucro para todos no setor. Por último, a contínua expansão das duas gigantes estatais do setor – Sberbank e o Banco VTB – indicam que a competição se torna cada vez mais árdua.

Fundado durante o período soviético, o Sberbank é gigantesco. Tem cerca de 20 mil agências por todo país e é responsável por 27% dos ativos bancários russos e 26% do capital bancário. O ramo de varejo do VTB, o VTB-24, possui mais de 530 escritórios.

A maior parte dos grandes bancos privados de varejo tem, no melhor dos casos, algumas poucas centenas de agências no país, a maioria delas concentradas nas grandes cidades.

“A redução das margens e a crescente competição significam que os dias de dinheiro fácil acabaram”, disse o diretor de investimento da Verno Capital, Roland Nash. “Os bancos que não se desenvolveram o bastante nos últimos anos serão descartados do mercado russo ou englobados por empresas mais fortes”.

Poucos bancos estrangeiros tiveram sucesso ao tentar fazer negócios na Rússia. Segundo dados de janeiro deste ano, todos os bancos estrangeiros juntos são responsáveis por apenas um quarto dos ativos totais do setor.

O francês Societe Generale é provavelmente o mais bem-sucedido: adquiriu uma série de bancos na última década e lançou uma operação de varejo sustentável. O banco possui quase três milhões de clientes, e sua unidade de consumo registrou lucro de 13 milhões de euros (R$ 30 milhões) no quarto trimestre de 2010, depois do prejuízo de 58 milhões de euros (R$ 135 milhões) no ano anterior. A instituição afirma que até 2015 a Rússia será sua maior fonte de receita de varejo internacional.

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