Sob o véu do preconceito

Jornal de Moscou publicou lista com dados pessoais e fotos de 22 mulheres, entre inocentes e culpadas/Foto: Oksana Iuchkó

Jornal de Moscou publicou lista com dados pessoais e fotos de 22 mulheres, entre inocentes e culpadas/Foto: Oksana Iuchkó

Quase um ano após ataques perpetrados por mulheres-bomba no metrô de Moscou, as “viúvas negras”, mulheres de caucasianos mortos em conflito, ainda sofrem com perseguições.

Jornal de Moscou publicou lista com dados pessoais e fotos de 22 mulheres, entre inocentes e culpadas/Foto: Oksana Iuchkó

Zaira, uma moradora de Makhatchkalá, a movimentada capital da República Russa do Daguestão, deu à luz um menino recentemente. As pessoas, entretanto, acreditam que ela seja não uma mãe comum, mas uma assassina em potencial. “Aí vem a mártir”, dizem para ela no supermercado.

A jovem diz que prefere ficar em casa a enfrentar os olhares de acusação dos estranhos na região predominantemente islâmica do sul da Rússia.

O pesadelo de Zaira teve início na primavera de 2010, depois de duas daguestanesas se tornarem mulheres-bomba no metrô de Moscou, atentado que resultou na morte de 40 pessoas e mais de 100 feridos.

Além da origem geográfica, assim como Zaira essas duas mulheres tiveram seus maridos mortos em confronto contra as forças russas no Cáucaso do Norte.

Irmãs da guerrilha

Devido ao número de ataques suicidas ligados às viúvas dos rebeldes mortos, essas mulheres foram apelidadas de “viúvas negras” pela imprensa russa. O jornal Komsomólskaia Pravda, por exemplo, publicou fotografias de 22 mulheres, “potenciais viúvas negras”, juntamente com informações pessoais, depois do incidente no metrô. A manchete dizia: “Mil viúvas e irmãs das guerrilhas do Daguestão colaboram com terroristas.”

A fotografia de Zaira estava entre as 22, que incluíam também uma das verdadeiras mulheres-bomba do metrô. “Quanta imprudência deles ao me incluírem naquela lista”, lamenta Zaira. “Se eu quisesse promover um ataque terrorista, não viveria sem me esconder na capital do Daguestão, não teria matriculado meu filho na escola.”

Na última década, as agências de segurança russas classificaram como suspeitos de atos terroristas todos os fundamentalistas islâmicos – chamados pela polícia de wahhabi, termo referente aos seguidores de um ramo da religião islâmica. Segundo ativistas de direitos humanos, a classificação permite à polícia usar táticas brutais na tentativa de suprimir a insubordinação.

“Sua casa pega fogo, e você e sua família podem ‘desaparecer’ ou serem mortos”, diz Tatiana Lokshiná, representante do escritório de Moscou da Human Rights Watch, organização não-governamental norte-americana de direitos humanos. “Métodos brutais e falta de espaço livre para opiniões alternativas ou para visões religiosas empurram os jovens para  a clandestinidade”, completa. Lokshiná afirma que a liberação da lista das viúvas para o jornal de Moscou por oficiais da polícia “foi apenas mais uma tática em um conflito sujo”.

Fábrica de acusações

Neste mês, Fátima Ievlóieva, 22, foi detida na República Russa da Inguchétia acusada de ser uma “viúva negra”. Fátima é irmã de Magomed Ievloiev, responsável pela recente explosão que matou 36 pessoas na área de desembarque do aeroporto Domodêdovo. Os investigadores afirmam que Fátima tinha vestígios de explosivos nas mãos e, portanto, teria ajudado o irmão a construir a bomba. O marido da jovem, outro suposto rebelde, foi morto no último verão.

No ano passado, o Daguestão liderou o número de ataques terroristas no território russo: 68 pessoas morreram e 195 ficaram feridas durante 112 ataques, cinco dos quais cometidos por homens-bomba. A Human Rights Watch relatou o desaparecimento de 20 fundamentalistas islâmicos e o assassinato de outros oito pela polícia do Daguestão durante os últimos seis meses do ano passado.

De acordo com o vice-procurador-geral Ivan Sidoruk, o número de ataques terroristas no Cáucaso do Norte dobrou em 2010, em comparação ao ano anterior. “Para mudar a questão do islamismo na Rússia, as autoridades precisam se esforçar em ouvir todos os líderes religiosos, e não só os de sua confiança”, disse Lokshina. “A solução para o conflito partidário no Daguestão está em desenvolver instituições da sociedade civil que protejam os direitos humanos.” 

Efeito contrário

Vice-presidente do comitê de segurança, Gennádi Gudkov afirma que os legisladores precisam de um novo poder político para supervisionar as medidas antiterroristas no país. Segundo ele, o Parlamento não tem controle sobre o Comitê Nacional Antiterrorista, e não consegue obter informações básicas sobre sua atuação. “Paira no ar um grande segredo sobre os métodos usados para combater o problema. Nós não fazemos ideia”, afirma.

O caso de Zaira sugere que algumas dessas medidas possam ser contraprodutivas. Desde o assassinato de seu primeiro marido, há seis anos, Zaira já se casou de novo, teve outro bebê e conseguiu um emprego. Mas tudo ruiu quando o jornal publicou a lista. Ela perdeu o emprego como faxineira em uma loja e tirou o filho de oito anos de uma escola pública depois que a professora bateu nele por ser um wahhabi. Além disso, segundo ela, a polícia a interroga com frequência.  

“Gostaríamos de nos ajustar à sociedade, mas estamos sendo empurradas para fora dela”, diz.

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