Rússia renovará tecnologia brasileira

Riscos de contaminação voltam à pauta/Foto:AFP/EastNews

Riscos de contaminação voltam à pauta/Foto:AFP/EastNews

Serão construídas no Brasil mais quatro usinas nucleares equipadas com sistema de prevenção de situações de emergências russo, mais moderno que o análogo fabricado no Japão.

Em meio à comoção e ao medo causados pelo terremoto de 11 de março no Japão e o consequente risco de contaminação por radiação a partir da usina de Fukushima, o governo brasileiro manteve os planos de expansão das usinas nucleares.

No país hoje há duas delas em funcionamento: Angra 1 e Angra 2. O terceiro reator está em construção e a previsão é de que comece a produzir energia a partir de 2015.

Além disso, de acordo com o Ministério da Ciência e Tecnologia, até 2030 devem entrar em funcionamento mais quatro usinas nucleares equipadas com sistema russo de prevenção de emergências, mais moderno que os das usinas destruídas pelo terremoto no Japão.

“Nossos reatores são de outro tipo, não temos reatores que aqueçam. Todos os reatores construídos por especialistas russos na Europa do Leste, na Índia e na China são VVER [reator nuclear moderado a água] e têm um sistema de dois circuitos, diferente dos reatores japoneses. Por isso, aquele tipo de acidente não pode acontecer aqui”, acrescentou Víktor Murogov, diretor do Centro Internacional de Instrução Nuclear.

O otimismo acerca da tecnologia nuclear russa está nos detalhes de construção dos reatores, mais modernos.

“É o último modelo de reator, VVER 1000. Construído na China, ele tem uma 'armadilha' de combustível fundido na parte de baixo, que impede vazamentos. O depósito é capaz de absorver qualquer tipo de combustível, o que quer dizer que, neste tipo de reator, estão previstos todos os riscos, mesmo os impossíveis”,  garante o especialista.

Aparentemente, são esses os motivos que levaram os especialistas da indústria nuclear brasileira a construir novas usinas deste tipo, segundo anunciou a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). As usinas já existentes também serão modernizadas.

Segundo a CNEN, nas novas usinas serão instalados reatores da terceira geração, com sistema de segurança aperfeiçoado e nos quais a intervenção humana será completamente desnecessária em situações de emergência.

Na opinião de especialistas é muito pouco provável que se repita no Brasil o cenário japonês, onde os sistemas de resfriamento de emergência dos reatores foram destruídos por causa do tsunami.

A CNEN garante que, “antes de começar a construir uma usina nuclear, são calculados os riscos para cada região específica. A usina que já opera em Angra dispõe de sistema de proteção contra tsunami, ventos fortes, tornado e mesmo contra explosões premeditadas. É equipada com um dique de proteção contra ondas de até sete metros de altura”.

A tragédia no Japão, porém, obrigou políticos e experts a se preocuparem mais uma vez com o problema global da segurança em usinas atômicas.  Isso não significa, no entanto, que esses países suspenderam a construção de novas usinas atômicas após a tragédia japonesa, o que provocou reações negativas.  

“Não só a Rússia e a China declararam que vão proseguir com a construção de usinas atômicas, mas também alguns países europeus, como a França. Nos Estados Unidos, por enquanto, não há uma decisão definitiva, ainda que a energia nuclear esteja em seus planos. O mundo realmente não está pronto para renunciar à energia nuclear”, explica Vladímir Likhatchev, vice-diretor do Instituto de Pesquisas Energéticas da Academia Russa das  Ciências.

Fatores presentes

O período de 1965-1986 foi um dos mais frutíferos para a indústria nuclear soviética, quando foram concluídos acordos bilaterais de assistência técnica para a construção de usinas atômicas não somente nos países do Comecon (Conselho para Assistência Econômica Mútua), mas também com Finlândia, Líbia, Cuba e Coreia do Norte. Os êxitos, porém, foram interrompidos pelo desastre de Tchernobil, em 1986. A pausa durou 15 anos, durante os quais surgiram novas tecnologias.

Mesmo assim, a imprensa ocidental coloca em dúvida a segurança das usinas russas e considera suas tecnologias antiquadas.

“Não afirmo que nossas tecnologias sejam as mais avançadas. Mas elas estão num bom nível e são perfeitamente confiáveis”, afirma Likhatchev.

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