Nova oposição com velhos politicos

Foto: ITAR-TASS

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O recém-criado Partido da Liberdade do Povo quer ser registrado oficialmento pelo Estado e participar das eleições deste ano da Duma (a câmara dos deputados). Mas, ainda que a primeira intenção tenha êxito, já é tarde demais.

Quando os quatro líderes da oposição Mikhail Kasianov, Vladímir Milov, Boris Nemtsov e Vladímir Rijkov, no outono de 2010, formaram a coalizão “Por uma Rússia sem Ilegalidade e Corrupção”, muitos previram disputas internas e uma vida breve para o movimento.

Mas a nova coalizão continua de pé e em dezembro ganhou o título de partido político, com um nome de extremo bom gosto, Partido da Liberdade do Povo (PLP). Ao descrever o programa ideológico da nova instituição, Nemtsov prometeu que seria “bastante simples”, baseado em quatro princípios: reformas políticas profundas, poder para o povo, luta contra o crime e “introdução dos padrões de vida europeus” (este soa especialmente “simples” mesmo).

Em uma análise superficial, a inesperada longevidade da nova coalizão poderia ser resultante da exclusão de Garry Kasparov, cujos impulsos ditatoriais e a incapacidade de escutar qualquer opinião oposta à sua seriam fatais para qualquer união.

Parece haver ainda outro motivo pelo qual os líderes vêm navegando esse mar de cobras. Todos eles são “ex”: Kasianov é ex-premiê, Nemtsov é ex-vice-premiê, Milov era vice-ministro de Energia, e Rijkov é ex-parlamentar. Tendo perdido suas posições, que alguns deles ocuparam por mais de uma década, passaram a buscar uma implacável e pessoal vingança contra Vladímir Pútin – cujas transgressões nunca são registradas publicamente –, perdendo espaço à medida que o presidente Dmítri Medevedev requer apoio para seu plano de modernização.

O ciclo de eleições atual, portanto, oferece uma oportunidade para que os líderes da oposição se liguem aos eleitores que estão esquecendo (ou já esqueceram) seus nomes. No início de fevereiro, a primeira filial regional do PLP foi inaugurada em Moscou com cerca de 300 partidários. De acordo com o planejamento do PLP, até o fim de março serão abertas novas filiais em 57 regiões da Rússia, reunindo entre 50 mil e 60 mil membros, preenchendo assim os requisitos necessários para registrar oficialmente o partido no Ministério da Justiça, que exige mais de 45 mil membros em pelo menos 42 regiões do país.    

Kasianov disse ao diário Kommersant que mil pessoas já se associaram ao PLP em Moscou e que existem, no mínimo, 200 membros em cada uma das 83 regiões russas. Caso o registro do PLP seja negado, seus líderes prometem levar 50 mil seguidores às ruas em 16 de abril.

A conta, entretanto, não fecha. Somando os 200 seguidores de cada região com os mil de Moscou, o partido não chega a 18 mil participantes. Bem, como eles dizem, a política é uma questão de fé. Além disso, se o partido realmente entrar com a solicitação de registro no início de abril, como planejado, o Ministério da Justiça ainda terá um mês inteiro para revisar o pedido. Independente do  motivo que leve os líderes do PLP a declarar tão cedo seus protestos, era de se esperar mais respeito aos procedimentos oficiais por parte de um movimento que luta contra a “ausência de leis” na Rússia.

O objetivo declarado do partido é participar da eleição da Duma em dezembro (convenientemente ignora-se que partidos políticos registrados porém sem representação na atual Duma estão sujeitos a um processo de registro específico para a eleição, cujos requisitos são tão rigorosos que nenhum partido poderia preenchê-los sem o apoio explícito do Kremlin).    

Dizer que o “programa de ações” listado no site do PLP é uma grande decepção seria eufemismo. As promessas de aumentar os gastos públicos com educação, saúde e ciência parecem saídas do discurso anual do presidente Medvedev. E alguns ítens (como a proposta de alterar a duração do mandato presidencial) simplesmente beiram o delírio, pois para tanto seria necessário que o PLP possuísse maioria constitucional na Duma.    

Apesar de muito se falar sobre o futuro, os “liberais unidos” são uma sombra do passado. Seus fundadores, os “ex”, já tiveram oportunidades – e não souberem aproveitá-las.

Evguêni Ivanov é comentarista político em Massachusetts e escreve o blog The Ivanov Report:  theivanovosti.typepad.com

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